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Livro 'Meu Antônio' conta como o amor enfrentou a Ditadura em Belém

Obra assinada por Isa Jinkings, viúva do jornalista, dirigente comunista e livreiro Raimundo Jinkings, narra a história de superação do casal durante o regime militar e da luta pela liberdade. Lançamento será no domingo (6), às 17h, na Cas de Saulo, na Casa das Onze Janelas

Eduardo Rocha

Os Anos de Chumbo no Brasil provocaram muita dor entre os brasileiros que lutavam pela liberdade no país. Por isso, nunca é demais conhecer nuances da vida dessa gente destemida que enfrentou a Ditadura Militar, com determinação e fundamentada no amor, sentimento bem maior que a prisão e outras violências, como ocorreu com relação ao casal Raimundo Antônio da Costa Jinkings (1927–1995) e Isa Jinkings. Essa história de vida é contada por Isa no livro "Meu Antônio" que ela vai lançar domingo que vem, dia 6, em um lugar simbólico dessa luta pela liberdade: a Casa das Onze Janelas, onde funcionava a 5ª Companhia do Exército, local onde Raimundo Jinkings chegou a ser preso. 

Aos 92 anos, Isa Jinkings mantém-se firme em gostar de viver e diz que “a saudade dele” foi a principal motivação para decidir escrever o livro, em parceria com as filhas. “Eu fui escrevendo coisas sobre nós, sobre quando nós nos conhecemos, e foi muito cedo”. Isa tinha, então, 15 anos de idade, ou seja, os dois adolescentes. 

Em um passeio no Arraial de Nazaré, quando, então, os jovens ficavam juntos observando o fluxo das moças, a paraense Isa observou “aqueles olhos negros”, atraentes, chamativos. Era o maranhense Jinkings, nascido no distrito de Turimirim, do município de Santa Helena, que também notou a jovem Isa. Em seguida, eles se encontraram na festa de formatura e de 15 anos de Isa em um clube social de Belém. Jinkings soube do evento e deu um jeito de estar lá. Eles se conheceram e dançaram juntos. Começava, então, o romance de uma vida. 

O livro chama-se “Meu Antônio” justamente porque o nome dele é Raimundo Antônio Jinkings. E Isa sempre o chamou carinhosamente de Antônio. Isa e Antônio permaneceram casados por 46 anos e tiveram cinco filhos: Nise, Leila, Raimundo Antônio, Álvaro e Ivana. A primeira parte e principal do livro narra a vida da família Jinkings. Na segunda, estão escritos jornalísticos de Jinkings refletindo sobre o cenário político da época, sua atuação como líder bancário e político.  

Viver no tempo da Ditadura Militar não era mesmo algo fácil. Isa Jinkings conta que “no dia do Golpe mesmo, ele (Jinkings) chegou em casa, no carrinho dele. com um companheiro, e estacionaram na travessa Apinagés, perto da nossa casa na Rua dos Mundurucus; e ele veio em casa só se despedir, ele tava com um companheiro que viajou para Cuba, e ele foi para a casa da minha irmã”.

“E ele ficou lá; depois foi mudando de casa, porque ele chegava numa casa, daí a pouco vinham procurando por ele”, relata Isa. Havia, ainda, o pessoal dedo-duro, como ressalta a jornalista e fotógrafa Leila Jinkings, ao lado da mãe. Naquela época, o casal já contava com os cinco filhos. “Eu fiquei com os filhos e ele foi preso. E eu fiquei saindo de casa para descobrir onde ele estava. No dia seguinte, eu andei o dia todo e consegui descobrir onde ele estava. Estava na 5ª Companhia do Exército, atual sede da Casa das 11 Janelas, no bairro da Cidade Velha.

Isa ia visitar Jinkings na prisão todos os dias. No começo, ele estava incomunicável. Mas, “o capitão Douglas, que era o comandante lá da 5ª Companhia, foi um homem muito gentil; ele mandou buscar o Antônio na prisão para vir falar comigo na sala dele”. “A gente teve esse encontro assim, superemocionado. E ele ficou até um certo período ainda incomunicável, e eu ia com as crianças visitá-lo todas as tardes. A gente só se falava por telefone”. De lá, Isa levava os filhos para passear no Forte do Presépio (antigo Forte do Castelo).

Jinkings foi preso por ser o presidente do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), uma central sindical na época. E também pelo fato de que ele tinha dois caminhos no Banco da Amazônia, onde trabalhava: ou era demitido por abandono de emprego ou se aposentava compulsoriamente. O advogado da família, Cléo Bernardo, aconselhou que Jinkings se apresentasse. “Então, ele se apresentou para não ser demitido do banco”. Jinkings foi preso e aposentado de forma compulsória.

image Isa e Leila Jinkings e a memória de Raimundo Jinkings no livro 'Meu Antônio' (Foto: Igor Mota / O Liberal)

Ideias e livros

Esse jornalista, dirigente comunista, membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), permaneceu preso por cerca de dois meses. Isa destaca que o Antônio dela “era uma pessoa tranquila, mas muito firme nas ideias; ele não recuava de nada do que ele pensava”. Como ela conta, em casa, Jinkings era um pai superamoroso. “A gente tinha um relacionamento muito bom, muito de amor mesmo, de cumplicidade”.

Nesse contexto, sempre de enfrentamento à Ditadura Militar, Raimundo Jinkings e Isa colocaram para funcionar a Livraria Jinkings, em 1965. Primeiramente, ela funcionava na casa deles, na Rua dos Mundurucus, e, depois, ganhou uma sede maior e definitiva na Rua dos Tamoios, virando um ponto de encontro de leitores e intelectuais de Belém, com Raimundo, Isa e os filhos sempre presentes entre livros e ideias.

Essa iniciativa foi tomada pelo casal após Jinkings e Isa em tempos de poucos recursos financeiros, terem atuado em uma banca na Feira da Batista Campos, junto com o companheiro Sandoval Barbosa. Atuaram, também, como representantes de editoras em Belém, renovando a oferta e o consumo de livros na cidade, inclusive em escolas.

Nessa venda de livros, os Jinkings sofreram agressões sérias, como pedradas atiradas contra o imóvel e ainda quando tocaram fogo no carro de um dos filhos em frente à casa deles, primeira sede da livraria. Depois, no prédio da livraria na Tamoios, onde foram alvo de um atentado a bala. Todas ações características da intolerância. 

Raimundo Jinkings e Carlos Sampaio fundaram ainda nos anos 1970 a editora Boitempo em Belém. Entretanto, anos depois, coube à filha Ivana Jinkings assumir a editora, refundando a Boitempo, já em São Paulo, onde funciona atualmente. 

Em 1994, Jinkings foi premiado como livreiro do ano, por votação dos livreiros de todo o país. Ele se tornou personagem fundamental na história do livro e da leitura no Pará e no Brasil. 

Esses projetos culturais do casal tiveram como ponto de partida o fato de Jinkings e Isa terem sido sempre leitores vorazes e costumarem fazer pedidos a editoras do sul do Brasil, inclusive para os filhos. Ideias e livros sempre fizeram parte da vida do casal e dos filhos. 

Leila diz que Jinkings e Isa estavam sempre juntos nas ideias, leituras. E o pai costumava trazer livros para os filhos em casa. "Quando começou a repressão, a Ditadura veio, eu saía na rua e as coleguinhas da rua me chamavam de 'filha de comunista', porque , por exemplo, tinha um pai conservador. 'Filha de comunista', aí eu falei: 'Que diabo é isso de comunista, né?' E aí fui falar com eles dois. Isso aí é uma coisa que me influenciou pra ser fotógrafa, inclusive".

"Quando eu fui perguntar pra eles dois o que é comunista, eles abriram uma revista Manchete, que tinha umas fotografias lindas; faziam aquela página dupla, então, aquela foto preta e branca de um fotógrafo de guerra, porque era União Soviética, era 1964, 1965, né? Eles abriram e mostraram: 'Olha aqui, são os soviéticos, eles lutam pela justiça, ajudam o povo a se libertar'. E a foto era assim: parecia um riacho, eles atravessando, o soviético tipo ajudando retirantes, gente que eles estavam salvando". Meus pais eram amigos dos comunistas. E meu pai, ele era muito brincalhão, disse que, ao ser xingada, eu respondesse: "Filha de fascista!", conclui Leila.

Isa e Leila Jinkings falam sobre Meu Antônio', Fotos de Igor Mota / O Liberal

“Meu Antônio” tem apresentação de Ivana Jinkings, prefácio de José Paulo Netto, orelha de Marcelo Rubens Paiva, autor de “Ainda Estou Aqui”), posfácios de Amarílis Tupiassú e Roberto Corrêa e fotos de Leila Jinkings, além de depoimentos dos filhos e de camaradas e amigos. 

"Penso na grandeza com que, de forma firme e sutil, ele orientou e abriu os olhos de tantos recém-formados e professores iniciantes; como, sem poses nem estardalhaços, orientou desconhecidos que entravam atrás de um título, mas, cativados pelo livreiro, sempre voltavam. Devotava-se a leituras e à palavra. Jinkings foi ser de grandezas e agora se transmuta em palavras, cuja matéria são as lembranças, algumas agora em merecida e emocionada inscrição", ressalta a professora e escritora Amarílis Tupiassú no livro.

 

Serviço:

Lançamento do livro ‘Meu Antônio’, de Isa Jinkings

Em 6 de setembro de 2026, às 17h

Na Casa de Saulo, na Casa das Onze Janelas,

na rua Rigueira Mendes, s/n, na Cidade Velha, 

Belém (PA)




 

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