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CINE NEWS

Por Marco Antônio Moreira

Coluna assinada pelo presidente da Associação dos Críticos de Cinema do Pará (ACCPA), membro-fundador da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) e membro da Academia Paraense de Ciências (APC). Doutorando em Artes pelo PPGARTES/UFPA; Mestre em Artes pela UFPA. Professor de Cinema em várias instituições de ensino, coordenador-geral do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), crítico de cinema e pesquisador.

O Homem nas sombras: o Terror foi construído por talentos como Val Lewton

Marco Antonio Moreira

A maneira que os filmes de terror tiram o espectador da zona de conforto pode criar memórias e plantar sementes de cinefilia em espectadores de todas as idades. O diretor Alfred Hitchcock dizia que a sensação de medo que um filme pode provocar no espectador é mais duradoura do que uma simples cena gratuita de susto. Concordo com o mestre Hitch!

Tenho até hoje muitas lembranças de filmes de terror que vi quando criança ou pré-adolescente, como Psicose (1960) de Alfred Hitchcock e O Exorcista (1973) de William Friedkin. No caso do filme de Hitchcock, é até difícil defini-lo como um filme somente de terror, pois a trama vai além do gênero. Mas o impacto das imagens de Norman Bates no filme sem dúvida me provocou medo de um jeito marcante.

Vários outros filmes desse tempo também marcaram época pela magia de suas histórias e pela competência de roteiristas e diretores. Entre tantas produções que se encaixam nessa descrição, destaco A Máscara do Horror (1961) de William Castle e, claro, O Iluminado (1980) de Stanley Kubrick - talvez o maior de todos os filmes deste gênero.

A adrenalina que esse tipo de filme desperta fez com que um público considerável cultivasse um tipo de expectativa pelo lançamento de filmes de terror no circuito de exibição local, que historicamente sempre teve garantia de boas bilheterias com o gênero. A diferença nos tempos mais recentes é que o mercado de produção desse gênero tem empregado recursos cada vez mais violentos para impressionar o público. Dessa maneira, esses filmes, em sua maioria, apresentam pouca originalidade e muitas vezes permanecem no círculo vicioso dos clichês que envelhecem rapidamente estas produções.

Mas nem sempre foi assim. Muitos produtores, diretores e roteiristas tentaram de tudo para deixar sua contribuição notável pelo gênero - e muitos conseguiram. É o caso do produtor Val Lewton, que nos anos 1940, contribuiu para a realização de diversos filmes surpreendentes que, em sua maioria, ainda podem servir de referência para realizadores e públicos contemporâneos.

Val Lewton (1904-1951) foi contratado no início dos anos 1940 pela produtora RKO, que queria novos resultados de bilheteria após investir em filmes autorais como Cidadão Kane (1941) de Orson Welles. Com imensa competência, criatividade e senso de observação estética na criação dos filmes que produziu, Val Lewton fez história com uma série de filmes de terror que marcaram diversas gerações. Ele trabalhou em filmes que se tornaram clássicos do gênero, entre eles Sangue de Pantera (1942), A Morta-Viva (1943), O Homem-Leopardo (1943), A Sétima Vítima (1943), A Maldição do Sangue de Pantera (1944) e O Túmulo Vazio (1945), entre outros.

Estas produções chamaram atenção do público com histórias repletas de enigmas, suspense, mistérios e terror, aliadas à direção inspirada de diversos cineastas sob a influência de Lewton. Todos os filmes produzidos pela a RKO foram realizados com baixo orçamento (em comparação as grandes produções de Hollywood) e os resultados nas bilheterias foram magníficos para uma pequena produtora que decidiu investir mais no gênero, muito por causa do trabalho de pessoas como Lewton.

Ele não dirigiu nenhum filme, mas a participação como produtor estimulou a colaboração e criação artística de cineastas como Jacques Torneau (O Sangue da Pantera) em filmes que geraram elogios massivos da crítica cinematográfica da época. Estes filmes evidenciaram naquele período que filmes de terror poderiam ser mais consistentes em termos de narrativa e fugir dos clichês a partir da elaboração estética com diversas influências, como por exemplo o cinema expressionista alemão. Histórias surpreendentes não dependiam de cenas exageradas ou apelativas para conquistar o espectador. O medo causado pelos personagens e suas tramas misteriosas acompanhava o espectador mesmo depois do fim de cada filme.

Como sugestão ao leitor, fica a ideia de um interessante “dever de casa cinéfilo”: assistir e compreender os filmes produzidos por Val Lewton para valorizar o seu trabalho e importância na construção do gênero, além de inspirar novas percepções sobre como os filmes contemporâneos deste gênero podem ser melhores.

Outra dica: o documentário “Val Lewton: O Homem nas Sombras (2007)” de Kent Jones. Produzido e narrado pelo cineasta Martin Scorsese, admirador de Lewton, este filme reúne muitas informações sobre a vida profissional de Lewton com primoroso roteiro e cenas de diversos filmes, que são mostradas com extremo respeito à obra de Lewton e sua paixão pelo cinema.

Confira alguns filmes produzidos por Val Lewton:

Sangue da Pantera (1942) de Jacques Torneur. Com Simone Simon. Misteriosa jovem sérvia acredita que descende de uma raça de mulheres-pantera, que, quando emocionalmente excitadas, se transformam em criaturas assassinas. Seu marido decide mandá-la para o psiquiatra para investigar o problema.

 

A Morta-Viva (1943) de Jacques Torneur. Com Frances Dee. A enfermeira Betsey vai ao Caribe cuidar de Jessica, mulher do fazendeiro Paul Holland, que sofre de paralisia mental. Betsey se apaixona por Paul e quer deixá-lo feliz curando Jessica. Contudo, ela acaba descobrindo segredos de família.

 

O Homem-Leopardo (1943) de Jacques Torneur. Com Denis O´keefe. Performer de um nightclub no Novo México, Kiki Taylor, encorajada pelo gerente, inclui na sua atuação um leopardo como estratégia publicitária. Mas o animal foge devido ao barulho e às luzes do clube e passado alguns dias surgem cadáveres mutilados na vila. Tudo indica que se trata de ataques do leopardo, mas Kiki não se convence disso.

 

A Sétima Vítima (1943) de Mark Robson. Com Tom Conway, Kim Hunter. Mary Gibson descobre que sua irmã mais velha, Jacqueline, desapareceu e decide ir a Nova York procurá-la. No bairro de Greenwich Village, ela descobre um culto satânico e desconfia que eles possam ser responsáveis pelo desaparecimento de sua irmã.

 

O Navio-Fantasma (1943) de Mark Robson. Com Richard Dix. Tom Merriam, jovem oficial do navio mercante “Altair”, impressionado com as atitudes de um comandante autoritário, Capitão Will Stone, vai percebendo aos poucos que este é um assassino psicopata, responsável pela morte de vários tripulantes. Ninguém acredita nas suas acusações e ele acaba por se sentir ameaçado pelo capitão.

 

A Maldição do Sangue da Pantera (1944) de Robert Wise e Gunther von Fritsch. Com Simone Simon, Kent Smith, Jane Randolph. Amy Reed (Ann Carter) é a solitária filha de 6 anos de Oliver (Kent Smith) e Alice (Jane Randolph). Ela deixa o pai sempre preocupado, pois é uma menina com uma imaginação muito fértil e não sabe diferenciar fantasia da realidade, o que acaba fazendo com que não tenha amigos de sua faixa etária. Oliver se preocupa porque a filha começa a exibir tendências psicopatas semelhantes às de Irena (Simone Simon), a falecida esposa de Oliver. Alice e a Srta. Callahan (Eve March), a professora de Amy, tentam ajudar, mas ela prefere a companhia da idosa Julia Farren (Julia Dean), uma ex-atriz louca que vive em uma mansão.

 

O Túmulo Vazio (1945) de Robert Wise. Com Boris Karloff. Na Edinburgo de 1831, o Dr. MacFarlane contrata um cocheiro para desenterrar corpos e trazê-los para que possa fazer suas experiências. Com o aumento da segurança nos cemitérios, o cocheiro torna-se um assassino para conseguir os corpos e Joseph, um vigia, flagra uma das mortes e aborda Gray, o qual sugere uma parceria para que não o entregue às autoridades.

 

A Ilha dos Mortos (1945) de Mark Robson. Com Boris Karloff. A população de uma remota ilha grega entra em desespero quando percebe que foi assolada pela peste. Todos aderem, instantaneamente, à um regime de quarentena que só alimenta o pavor e a paranoia. Dentre os "prisioneiros" está Nikolas Pherides (Boris Karloff), general grego que estava de passagem pela ilha apenas para prestar homenagens no túmulo de sua falecida mulher. Acompanhado de um jornalista americano, Nikolas tenta encontrar explicações plausíveis para os estranhos acontecimentos que se sucedem.

 

Asilo Sinistro (1946) de Mark Robson. Com Boris Karloff. Na Londres do século XVIII, em pleno auge do iluminismo, pessoas julgadas como não racionais são submetidas a tratamento desumano em um manicômio dirigido por um médico sinistro. Quando uma jovem decide transformar o manicômio, para dar uma vida digna aos pacientes, se torna vítima de uma forte conspiração.

 

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