Fidelis Baniwa estrela 'Rio de Sangue' e destaca dilemas da presença indígena na Amazônia
No suspense policial "Rio de Sangue", que estreia nesta quinta-feira (16), o ator interpreta Mario, um personagem que personifica as tensões entre a tradição das aldeias e a pressão de grandes empreendimentos
O longa-metragem "Rio de Sangue", suspense policial ambientado 100% no Pará, estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (16). Estrelado por Giovanna Antonelli, Alice Wegmann e Felipe Simas, o filme aborda temas como narcotráfico e relações familiares sob a direção de um protagonismo feminino.
A trama acompanha Patrícia Trindade (Antonelli), uma policial afastada do cargo após uma operação sem êxito. Jurada de morte por lideranças do narcotráfico, a personagem desloca-se de São Paulo para Santarém, no oeste paraense, com o objetivo de garantir sua integridade física e restabelecer o vínculo com a filha, Luiza (Wegmann).
Outra peça-chave na história é Mario, vivido pelo nortista Fidelis Baniwa. Seu papel destaca a importância da presença indígena na Amazônia, com representatividade.
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“A minha participação foi gratificante por poder falar da Amazônia. O filme traz a problemática também do desmatamento, do garimpo ilegal. O meu personagem, ele vive esse dilema de ter um pé na aldeia, de ter um desafio também, de buscar o que eu entendo de melhoria de vida, e aí ele acaba, por conta disso, se envolvendo no garimpo, e com isso ele acaba sendo mal visto pelo próprio povo, povo Munduruku, do qual ele pertence. E esse foi o desafio de participar do filme, vivendo esse personagem”, explica o ator.
O desenrolar da trama se dá com a trajetória de Mario, que, como foi antecipada por Fidelis, se divide entre as duas realidades.
“No final, diferente de outros personagens que eu fiz, ele é mais agressivo, por conta disso mesmo, das circunstâncias do envolvimento com o garimpo, ele acaba reagindo. O Mario é um personagem que reage ao sofrimento que a população dele enfrenta. E eu penso que isso vai dar o que falar sobre o filme, porque traz a realidade crua da Amazônia, dos desafios que é viver na Amazônia, da violência que acontece também nos territórios indígenas, mas também a beleza que é viver nesse território. O filme traz isso, a Amazônia como esse cenário de fundo, que vai levar as pessoas a conhecerem, acredito eu, melhor a Amazônia”, reflete o artista.
Gustavo Bonafé, diretor do filme, buscou usar as paisagens paraenses em diversos cenários da narrativa, além de realizar esse diálogo com lideranças locais para garantir a fidelidade ao retratar um tema tão complexo.
“O filme é permeado por um off, que é uma narração de um personagem indígena, que é interpretado pelo Fidelis Baniwa, que é um indígena baniwa. Inclusive, ele aprendeu a língua para poder falar munduruku. A gente tem um pouco de munduruku ao longo do filme, que eu achei que era uma coisa importante também, porque eles fazem lá nas aldeias ainda o trabalho de recuperação dessa língua, achei que era legal ela estar também na tela, até como identificação e como força mesmo de uma língua que a gente sabe que existe”, antecipa.
Essa narrativa dá seguimento a uma ação e também apresenta esse personagem como um anfitrião daquele lugar, apresentando para o espectador esse ambiente e a perspectiva da trajetória da personagem de Giovanna Antonelli.
“O off dele quase que legitima a presença da personagem da Giovanna naquele lugar, de alguma forma, é um personagem local dizendo: ó, isso aqui aconteceu aqui, essa parioá chegou aqui e isso mudou a vida dela e ela também mudou a nossa. Ele vai trazendo uma visão de quem pertence mesmo a esse ambiente. A gente achou importante isso para o filme, ele vai trazendo uma legitimidade mesmo. Acho que a palavra legitimidade mesmo, sabe. Ele traz isso para o filme de uma maneira interessante, porque ao mesmo tempo ele também traz para o espectador que não conhece essa realidade, para o espectador que não está aí, uma maneira de compreender melhor um personagem indígena. Uma vez que é ele que está te contando quem ele foi, o que aconteceu, o que ele está vivendo”, pontua Gustavo Bonafé.
Fidelis destaca que seu personagem reflete as tensões vividas pelos povos indígenas diante do dilema entre as necessidades materiais e o impacto de grandes empreendimentos, que podem comprometer a cultura, as relações familiares e a espiritualidade. O ator ainda pontua que o público encontrará uma narrativa que, embora não tenha como objetivo principal ser um manifesto sobre a causa ambiental ou a resistência indígena, acaba por levantar essas questões de forma orgânica.
“No filme, a Amazônia está sendo vista de uma forma sem muito romantismo, a realidade algumas vezes hostil da região, mas também mostrando a beleza daquilo que é viver na Amazônia. E o personagem Mário, ele traz, ele reflete muito essa luta também do povo indígena, muitas vezes indeciso por conta da questão geográfica da Amazônia, de você ter tantas necessidades e, ao mesmo tempo, saber que qualquer tipo de grande empreendimento acaba com a cultura, acaba com as suas relações familiares, acaba com a parte também da espiritualidade, tudo isso”, explica.
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