No Dia da Mulher, pioneiras e novas gerações mostram a força feminina no carimbó
Mesmo invisibilizadas por décadas, elas sempre estiveram no centro da manifestação cultura
Entre saias rodadas e o som dos curimbós, elas sempre estiveram ali. Durante décadas, as mulheres amazônidas ajudam a manter vivo o carimbó e garantem que a tradição atravesse gerações. Embora por muito tempo tenham permanecido à margem do reconhecimento público, seguiram atuando como transmissoras de saberes e organizadoras das manifestações culturais. Hoje, essa presença ganha ainda mais significado com a chegada do Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo (8).
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Segundo a jornalista, comunicadora popular e pesquisadora Roberta Brandão, autora do projeto de pesquisa "Feminino pau e corda", que faz um levantamento histórico da presença feminina no ritmo musical, a trajetória do carimbó está diretamente ligada à resistência cultural e à atuação de mulheres pretas e pardas da capital e do interior do Estado.
“Na minha pesquisa, a primeira mulher que eu vejo citada é a Tia Pê, de Vigia, pelo Vicente Sales, que não era uma tocadora, ao contrário do que se espera, mas foi fundamentalmente por ser uma fazedora de festas”, afirma Roberta.
Pioneiras
Dentro desse contexto, o grupo Sereias do Mar ocupa um lugar simbólico: fundado em 1994, o coletivo é considerado o primeiro grupo de carimbó do Pará protagonizado por mulheres. Em suas canções, as integrantes abordavam temas ligados ao protagonismo feminino e ao cotidiano das comunidades rurais.
A pesquisadora conta ainda que outras histórias surgiram a partir de conversas com mestres e integrantes de grupos tradicionais. “Quando eu converso com a Dona Mimi, mestra do Sereias do Mar, que é falecida, ela me diz que já tinha visto mulheres tocando em vilarejos”, relata.
Outro exemplo citado por Roberta é o de Dona Magá, considerada uma das figuras centrais na história do carimbó na Ilha de Algodoal. Reconhecida como matriarca do ritmo na região, ela é apontada como uma das principais responsáveis por levar e disseminar o ritmo na ilha de Maiandeua.
Já entre as vozes femininas que ajudaram a abrir caminho para outras gerações está a da cantora e compositora Nazaré Pereira. Para Roberta, a artista ocupa um lugar importante na história da música amazônica.
“Ela foi a primeira mulher que lançou um vinil na época com carimbó e vendeu milhares de cópias, cantando na França, onde vive há muitos anos”, destaca.
Nascida no Acre, Nazaré pertence a uma geração em que poucas mulheres ocupavam o espaço de cantora e compositora na música regional. A artista iniciou a carreira no final da década de 1970 e lançou seu primeiro compacto em 1978 na Europa, após migrar para o continente como atriz e decidir cantar para garantir sua subsistência. Ao interpretar músicas amazônicas fora do Brasil, acabou chamando a atenção da imprensa francesa, que passou a descrevê-la como “uma outra cara do Brasil”.
A recém-homenageada pela Embaixada Pedreirense, última sexta-feira (27), que ficou em segundo lugar na apuração das escolas de samba de Belém, relembra que os primeiros anos de trajetória foram marcados por apresentações em diferentes espaços, antes mesmo do lançamento de seus discos.
“Eu nunca senti nenhum preconceito na Europa por cantar sendo mulher, nem quando fui cantar nos barzinhos, botecos, nas praças. Cantava no metrô, quando ainda não tinha gravado o disco”, conta.
Para Nazaré, manter a identidade amazônica nas canções sempre foi um elemento central de sua carreira. “Como é que eu vou dizer 'igarapé' em francês?. Mesmo traduzindo, consigo ter uma saída: eu fiz teatro, essa é uma vantagem quando eu chego no palco, vou no coração do público, esse é o propósito da música", afirma.
A nova geração ocupa a roda
Hoje, as novas gerações continuam ampliando o debate sobre diversidade dentro da manifestação cultural. A professora de música e flautista Luany Guilherme, conhecida artisticamente como Telekogi, integra o grupo Batuque Lua Crescente e afirma que o coletivo busca construir um ambiente de autonomia e liberdade de expressão dentro do gênero.
“O nosso grupo é construído por pessoas LGBTQIAPN+, com presença majoritária de pessoas trans, fazendo com que a nossa perspectiva sobre as pautas do feminismo dentro da cultura popular seja mais ampla, indo além do discurso do binarismo de gênero”, explica. Também fazem parte Dalilão Costa, Vickamiaba, Raíra Maciel, Nala Leão, Arth Morbach e Beatriz Lacerda.
Telekogi afirma que o coletivo também busca criar um ambiente de acolhimento entre seus integrantes. “Esse ambiente nos permite ser mais criativas e mais encorajadas a seguir na resistência da salvaguarda do carimbó dentro de nossos territórios”, diz.
No repertório do grupo, músicas autorais dividem espaço com composições de mestres do carimbó. “As nossas canções narram diretamente a nossa vivência enquanto pessoas dissidentes que vieram do contexto de quilombos e das periferias. São músicas que também falam da nossa conexão com a natureza e as encantarias presentes nela”, explica.
Para a musicista, apesar dos avanços na participação feminina dentro do carimbó, ainda existem desafios a serem enfrentados. “Muitos dos grupos liderados por homens possuem resistência em chamar uma mulher para tocar um instrumento mais ‘valorado’ pelos olhos deles, como os instrumentos de sopro e o tambor”, acrescenta.
Tradição viva
Além das cantoras e musicistas, as fazedoras de cultura também desempenham um papel fundamental na manutenção do carimbó. Guardiã do Espaço Cultural Coisas de Negro, Maria Angêla Coutinho destaca a importância das mulheres nesse processo. Há mais de duas décadas, o local promove rodas de carimbó e atividades voltadas à formação de jovens, especialmente meninas e mulheres.
“O protagonismo feminino é bastante evidente nas formações que realizamos. Das oficinas e rodas de conversa que acontecem aqui já nasceram diversos grupos de carimbó, muitos deles formados por mulheres que hoje seguem atuando na cena”, afirma.
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