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Jovem DJ paraense com TEA conquista espaço na música eletrônica e inspira inclusão

Aos 18 anos, José Pedro já se apresentou em festivais, encontrou o DJ Alok e constrói a carreira com apoio da família

Amanda Martins

Enquanto o Dia do Orgulho Autista, celebrado nesta quinta-feira (18), amplia o debate sobre a participação de pessoas neurodivergentes na sociedade, o paraense José Pedro já ocupa esse espaço por meio da música eletrônica. Aos 18 anos, o jovem, conhecido artisticamente como MartinBlue, é considerado um dos primeiros DJs com Transtorno do Espectro Autista (TEA) do Brasil, e o único do Pará,  e faz dos palcos um lugar de protagonismo, representatividade e de desconstrução de estereótipos.

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A paixão pela música surgiu ainda na infância do rapaz e contou, desde o início, com o incentivo da família. Os pais de José Pedro, Nilde Azevedo e José Afonso, acompanham de perto a trajetória do filho desde que ele começou a demonstrar interesse pela discotecagem.  "Ele ficava fazendo mixagens no tablet. Ainda não imaginávamos que aquilo seria o início de tudo”, conta a mãe.

Foi durante a pandemia, no entanto, após assistir a uma live do DJ Alok, que o interesse ganhou novos contornos e passou a ser tratado como um projeto de vida.

"Quando teve a live do Alok, ele chamava a gente para a frente da televisão e dizia: 'Mamãe, eu quero ser DJ'. Eu e o pai olhamos um para o outro e pensamos: se esse é o hiperfoco dele, então vamos correr atrás", relembra Nilde.

Desde então, a rotina da família mudou. A mãe conta que ela e o esposo passaram a buscar oportunidades, equipamentos e apresentações para incentivar o desenvolvimento do filho. 

"O primeiro apoio que a gente dá é correr atrás. Hoje a gente recebe o 'não', mas continua procurando oportunidades. Se ele precisa de um computador, de uma mesa de som, a gente busca dar essas ferramentas", afirma.

Segundo ela, a música também trouxe mudanças no desenvolvimento de José Pedro. "Percebemos que ele evoluiu muito depois que começou a ser DJ. Quando ele tocava, até em uma caixinha de som, ficava tranquilo, satisfeito. A fisionomia dele mudava”, diz orgulhosa. 

O apoio de Nilde e José Afonso permanece presente em cada etapa da carreira. Para José Afonso, acompanhar a realização do sonho do filho também representa a concretização de um sonho da própria família.

"Se a gente não apoiasse a carreira dele, seria frustrante ver um talento sem continuidade. Por isso dou o máximo de mim para vê-lo feliz", afirma. 

Segundo o pai, um dos desafios ainda enfrentados é a falta de confiança de parte das pessoas no potencial artístico do filho, ainda cercado pelo capacitismo em torno do diagnóstico. "As pessoas acham bonito vê-lo tocando, mas muitas ainda não acreditam no talento dele. Quem mais precisa acreditar somos nós", ressalta.

Primeiros palcos

Uma das primeiras oportunidades para mostrar seu trabalho ao público surgiu no TEAlentos, evento artístico e cultural promovido pela Coordenação Estadual de Políticas para o Autismo (Cepa), da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura (Secult). A apresentação marcou o início de uma trajetória que, pouco tempo depois, ultrapassaria os eventos voltados exclusivamente à inclusão.

Em 2024, o jovem DJ integrou a programação do Festival Psica, apresentando-se no palco Karretinha. Desde então, também passou por escolas, centros culturais e outros espaços onde leva seu repertório de música eletrônica.

Inspiração nas pistas

A inspiração para seguir carreira surgiu justamente de um dos artistas que ele mais admira: Alok. José Pedro conta que, antes mesmo de aprender técnicas profissionais, utilizava um aplicativo que simulava uma controladora de DJ.

"Eu mexia no tablet por brincadeira, fazia umas mixagens. Depois lembrei do programa do Alok e comecei a me inspirar nele", conta.

José Pedro já encontrou o artista em três ocasiões. A primeira aconteceu durante a turnê "New Experience", no Mangueirão. A mais recente foi no Parárraiá 2026, realizado em Belém, poucos dias atrás.


"Na primeira vez fiquei muito tímido, porque sempre quis essa oportunidade. Na segunda já estava mais tranquilo e, na terceira, consegui conversar melhor", lembra.

Entre as principais referências musicais, MartinBlue destaca o Brazilian Bass e produções lançadas por Alok entre 2015 e 2016. Para montar seus repertórios, pesquisa músicas em plataformas digitais e também acompanha emissoras de rádio.

" Estou bastante no YouTube e também escuto rádio para montar meus sets", explica.

Segundo José Afonso, o filho demonstra cuidado ao adaptar cada apresentação ao público. "Se ele vai tocar numa praça, é um ritmo. No shopping é outro. Em festa de aniversário,  também muda. Ele percebe o ambiente e escolhe as músicas de acordo com cada lugar”, acrescenta. 

'Frequência da Inclusão'

O nome artístico MartinBlue surgiu antes mesmo da carreira como DJ. José Pedro pensava em produzir conteúdo para internet e criou o personagem inspirado em um canal que acompanhava na época. O nome permaneceu quando decidiu seguir na música.

Hoje, além de construir espaço na cena eletrônica, ele espera incentivar outras pessoas autistas a acreditarem em seus próprios talentos. "Eu espero ser uma inspiração para outras crianças autistas", afirma.

O maior sonho, segundo o pai, ainda está por vir: "Tudo o que ele quer é tocar em um grande festival e olhar para uma multidão”.