Rodolfo Marques

Rodolfo Silva Marques é professor de Graduação (UNAMA e FEAPA) e de Pós-Graduação Lato Sensu (UNAMA), doutor em Ciência Política (UFRGS), mestre em Ciência Política (UFPA), MBA em Marketing (FGV) e servidor público (Poder Judiciário do Pará)

Lula Livre e uma nova agenda política que se impõe no Brasil

Rodolfo Marques

Após 580 dias preso na sede da Polícia Federal em Curitiba-PR, o ex-presidente da República Luís Inácio Lula da Silva saiu de lá e programa uma grande agenda política para os próximos dias, semanas e meses. A tendência é que ele percorra o país, em 2020, tentando reaglutinar as chamadas forças políticas de esquerda, liderar a oposição a Jair Bolsonaro e tentar unificar a esquerda ideológica no país.

Em tempo: na última quinta-feira (7), o Supremo Tribunal Federal, por maioria simples (6 votos a 5), definiu que as prisões após segunda instância não devem mais ser uma regra, com exceção dos casos de flagrante e/ou em que haja um pedido de prisão preventiva. As prisões são indicadas, conforme prevê a Constituição, quando ocorre o trânsito em julgado – o esgotamento das possibilidades de recurso nas diferentes esferas judiciais. Lula e outros condenados em segunda instância solicitaram o alvará de soltura e alguns já deixaram a detenção.

No cenário do “Lula Livre”, uma outra rotina política tende a ser formar no Brasil, principalmente no deslocamento do eixo temático de algumas discussões. Todavia, o ex-presidente ainda enfrenta uma situação jurídica extremamente delicada, sendo réu em várias ações criminais e já com duas condenações contra si impostas. O fato concreto é que Lula volta a ser um ator político relevante, com muito mais liberdade de atuação.

Nos discursos feitos na saída da sede da PF em Curitiba, na sexta-feira (8), e também em seu “berço político”, em São Bernardo do Campo-SP, neste sábado (9), Lula polarizou veementemente com o presidente da República Jair Bolsonaro e com o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro. Lula reforçou que tanto o ex-juiz federal quanto o Ministério Público Federal/Operação Laja-Jato são seus grandes algozes e que ele, Lula, continuará buscando provar sua inocência diante de todos os processos a que responde. De acordo com o político petista, o Brasil não merece o governo que tem. Para ele, o país está sendo liderado por um presidente que apoia milicianos. O ex-presidente Lula também reforçou as críticas à postura econômica do atual governo, destacando que a vida dos brasileiros piorou nos últimos anos, com a ampliação da pobreza e a perda progressiva de empregos.

O presidente Bolsonaro reagiu, dizendo em suas falas públicas, em especial através do Twitter, que a maioria do povo brasileiro é trabalhador e honesto e que não iria contemporizar com presidiários e canalhas, em uma clara alusão a Lula. Bolsonaro afirmou: “Ele (Lula) está solto, mas com todos os seus crimes nas costas”. Nesse contexto, a saída de Lula da cadeia reforça para Bolsonaro e seu núcleo político a estratégia do conflito verbal, do atrito e da polarização. Bolsonaro tentará, assim, retomar o discurso da campanha de 2018, falando em “risco-Lula” e tentando recuperar a bandeira “anticorrupção”, que ficou um tanto “chamuscada” com a situação do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) e de Fabrício Queiroz.

Quanto ao Partido dos Trabalhadores (PT), virando a página do “Lula Livre”, é necessário buscar sua recolocação no campo partidário, propondo uma oposição mais orgânica ao governo Bolsonaro – e considerando-se que outros partidos de centro-esquerda, como o PDT, o PSB e o PCdoB, buscam também esse protagonismo. Ao que parece, caberá a Lula mudar o andamento das coisas, ajustando a formação de novas lideranças no próprio PT. Lula, hoje, tem 74 anos e, muito provavelmente, não recuperará o direito de concorrer as eleições tão cedo, pelo menos nos próximos anos. “Animal político” que é, certamente já há com ele uma estratégia de buscar novas agendas políticas e discursos de agregação. Já se comenta a possibilidade de encontros com Ciro Gomes (PDT) e com o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), entre outras lideranças políticas.

Projetando o pleito presidencial de 2022, embora faltem cerca de 3 anos para a disputa, é essencial ponderar que a tendência aponta um novo duelo entre direita e esquerda, mais especificamente entre o bolsonarismo e o lulismo. Por ora, não existe nenhuma força no centro político capaz de surgir como terceira via e construir uma outra agenda ou um outro discurso. Pesará também nessa trajetória o desempenho econômico do governo de Jair Bolsonaro. A proposta liberal de Paulo Guedes está com o “sinal verde” dentro do Congresso Nacional, mas há ainda pairam dúvidas de quais reformas serão aprovadas – e em que intensidade.

O foco da mídia deverá ser cada vez mais intenso entre as ações de Jair Bolsonaro e de Lula. Bolsonarismo no governo, Lula livre e ânimos cada vez mais acirrados, com muita intolerância ideológica e discussões acaloradas: o Brasil tem pressa para ver a melhora na vida de seus moradores e, para que isso acontecer, só mesmo com o debate político e com o bom funcionamento das instituições democráticas. A geração de empregos e a ampliação de programas sociais permanecem como prioridades nacionais, mas o governo federal não tem dado muita atenção a isso. Vamos todos “pagar para ver”.

Rodolfo Marques
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