Rodolfo Marques

Rodolfo Silva Marques é professor de Graduação (UNAMA e FEAPA) e de Pós-Graduação Lato Sensu (UNAMA), doutor em Ciência Política (UFRGS), mestre em Ciência Política (UFPA), MBA em Marketing (FGV) e servidor público.

Estratégia de comunicação política de Bolsonaro durante a pandemia deve custar caro ao Brasil

Rodolfo Marques

O Brasil entra em mais uma semana com estado de alerta em relação à expansão da pandemia Covid-19. A maior parte dos chefes de estado do mundo vem desenvolvendo ações restritivas à circulação de pessoas, ampliando períodos de quarentena e de distanciamento social, como forma de prevenir a contaminação de mais pessoas, mais rapidamente. Todavia, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, vem estimulando a suspensão do isolamento para as pessoas que não estariam incluídas nos grupos de risco, com o objetivo de evitar uma crise econômica ainda maior. Essa ação de Bolsonaro vem contrariando atitudes até mesmo do próprio ministério da Saúde, gerando uma política de “sinais trocados”. Seria como se o presidente da República fizesse “oposição” ao seu próprio governo. Vários governadores brasileiros, aliás, como o do Pará (Helder Barbalho/MDB) vêm buscando uma postura diferenciada, procurando manter as restrições de circulação, com a prioridade maior a preservar vidas em equilíbrio com as ações econômicas e suporte, principalmente, aos pequenos e médios empresários.

O presidente Jair Bolsonaro optou por uma ação mais radical, o que acaba sendo uma aposta. Como a economia tende a piorar nas próximas semanas, com a expansão da pandemia – e com as ações ainda tímidas do governo federal em dar suporte para quem mais precisa –, o presidente poderá voltar a se comunicar nas mídias afirmando que foi contra o isolamento total da população – o chamado lockdown – e que as mortes pela expansão da pandemia aconteceriam do mesmo jeito. É importante ressaltar que os dados gerais dos países que anteciparam as políticas de isolamento trazem que tais nações conseguiram enfrentar melhor o problema, achatando a curva de contaminação. Quem desdenhou da crise acabou tendo os maiores problemas, como Itália, Espanha e, atualmente, os Estados Unidos, que são o principal epicentro da crise. O próprio presidente norte-americano, Donald Trump, aliás, recuou nos últimos dias, diante da crise, e estendeu a quarentena no país ianque até o final do mês de abril.

Ainda na argumentação política de Jair Bolsonaro, através de pronunciamentos pela televisão e pelo rádio, em algumas entrevistas e pelas redes sociais, após o momento pior da pandemia, poderá ser dito que a recessão no país terá sido um processo causado pelos governadores e pela mídia tradicional, a quem ele vem atacando constantemente, aliás. É uma aposta retórica de que os problemas econômicos poderão “pesar” mais do que os problemas no sistema de saúde, na percepção das pessoas. É essencial lembrar que o governo federal até adotou algumas medidas para tentar diminuir os efeitos da crise, como facilidades de créditos, negociação de dívidas e incentivos aos pequenos empreendedores. Ainda assim, são medidas ainda discretas e que foram tomadas tardiamente, além de os recursos encaminhados pelo Planalto serem bem abaixo da média, proporcionalmente, a que outros chefes de estado vêm fazendo pelo mundo. 

Assim, é relevante lembrar que o governo federal, ao deter o controle do orçamento da União, tem muito mais poder de barganha e de recursos para quaisquer ações de recuperação econômica do que estados e municípios. Vários governadores vêm demonstrando altivez para proteger as populações de seus estados – e essas iniciativas vêm incomodando muito o presidente da República, em especial nos casos do governador de São Paulo, João Dória Júnior

(PSDB), e do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB). É claro também esses movimentos no contexto da crise gerada pela pandemia, como a “aposta no caos” por parte de Bolsonaro, tem como pano de fundo as eleições gerais de 2022, em que o presidente da República deverá tentar a reeleição. Ao falar para o seu público cativo de eleitores e reforçando a polarização ideológica no país, Bolsonaro antecipa o debate, coloca em evidência a sequencia do seu próprio mandato e aposta em um fortalecimento posterior à crise para chegar de forma competitiva no próximo pleito presidencial.

A postura de Bolsonaro diante da pandemia mundial é totalmente diversa do conhecimento de saúde pública e das medidas indicadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O presidente brasileiro, inclusive, foi citado pela revista americana “The Atlantic”, na última sexta-feira (27.03.2020), como o “líder que nega os efeitos do Coronavírus”. Ou seja, essa estratégia de comunicação política de Jair Bolsonaro durante esse contexto de pandemia tem tudo a custar muito mais caro ao Brasil.

Rodolfo Marques
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