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RODOLFO MARQUES

RODOLFO MARQUES

Rodolfo Silva Marques é professor de Graduação (UNAMA e FEAPA) e de Pós-Graduação Lato Sensu (UNAMA), doutor em Ciência Política (UFRGS), mestre em Ciência Política (UFPA), MBA em Marketing (FGV) e servidor público.

Carnaval, política, liberdade de expressão e crítica social

Rodolfo Marques

O recente desfile da Acadêmicos de Niterói no Grupo Especial do Rio de Janeiro, ocorrido na noite de domingo (15) provocou um choque de leituras sobre o que seja, efetivamente, liberdade de expressão em tempos de polarização política. A escola escolheu como enredo a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva até a Presidência da República, numa narrativa que, mesmo concebida como expressão artística, gerou uma onda de críticas e ações judiciais por suposta propaganda eleitoral antecipada.

Para grande parte da direita ideológica, a manifestação cultural, financiada com verbas públicas padronizadas entre as escolas de samba, teria extrapolado o caráter histórico e crítico do Carnaval, convertendo-se em um instrumento de campanha fora do período permitido pela legislação eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) chegou a rejeitar pedidos de liminar para impedir o desfile, mas não deixou de advertir sobre o risco de que a festa popular seja “fresta para ilícitos eleitorais”.

A controvérsia ganhou contornos ainda mais sensíveis com a representação de uma ala intitulada “Neoconservadores em Conserva”, que ironizou a chamada família tradicional e segmentos religiosos, ao retratá-los como “enlatados”. Para setores conservadores e líderes religiosos, isso não foi apenas crítica social, mas ataque direto a crenças e valores identitários, levando a representações junto ao Ministério Público e ao próprio TSE sob alegação de intolerância religiosa. Nesse ponto, os custos imagéticos para o governo e para uma eventual candidatura de Lula à reeleição podem ser altos.

Por outro lado, há quem defenda que o episódio ilustra, de forma simbólica, a própria razão de ser do Carnaval: um espaço de reversão das hierarquias sociais e de crítica contundente ao status quo. Algumas análises indicam que liberdade de expressão artística, especialmente em festas populares, deve incluir o direito de satirizar e provocar reflexão sobre estruturas de poder, algo historicamente associado ao espírito carnavalesco. Eis mais um ponto de divisão nas cada vez mais acirradas relações sociais entre os principais grupos políticos do país.

Tal embate evidencia a contradição no discurso de segmentos da extrema-direita que proclamam defender a liberdade de expressão enquanto questionam, de forma veemente, manifestações artísticas que os desagradem politicamente. Não é a primeira vez que tal incoerência se apresenta na arena pública, mas se torna mais visível quando um evento cultural nacionalmente celebrado é lido por uns como crítica social legítima e por outros como instrumento de promoção política.

A controvérsia sobre suposta propaganda eleitoral antecipada, que deverá ser apreciada pelo TSE, expõe de forma objetiva a zona cinzenta entre manifestação artística e projeção eleitoral. Em ano de disputa, a régua interpretativa tende a ser mais rigorosa, e a visibilidade pública, ainda que mediada pela arte, passa a ser escrutinada sob a lógica da isonomia entre candidaturas.

Politicamente, o episódio teve efeitos contraditórios. A escola de samba foi rebaixada no desfile, fruto de notas baixas em quesitos técnicos. Mas o debate público que suscitou possivelmente repercutirá muito além da apuração de pontos na Marquês de Sapucaí. Para o governo Lula, ainda que se sustente a premissa de inexistência de interferência direta na elaboração do samba-enredo da escola, os desgastes mostraram-se inevitáveis, manifestando-se em diferentes níveis. Sob a ótica estratégica, tratou-se de um cenário cujo impacto poderia ter sido ao menos atenuado, por meio de uma gestão mais cautelosa das percepções públicas.

Em um balanço final, a tendência é a polarização nesse momento festivo se dissipe com o tempo, lembrando que o Carnaval é um rito civilizatório de liberdade e contestação. Muitas das acusações, memes e cortes de vídeo que circularam nas redes têm curta vida útil no debate público mais amplo.

Assim, a reflexão que permanece é maior: como equilibrar a criatividade crítica inerente às artes populares com a necessidade de regras que preservem a igualdade de condições em processos eleitorais? Esta será a questão que esse episódio carnavalesco nos deixa para além dos confetes e da crítica momentânea.

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