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RODOLFO MARQUES

RODOLFO MARQUES

Rodolfo Silva Marques é professor de Graduação (UNAMA e FEAPA) e de Pós-Graduação Lato Sensu (UNAMA), doutor em Ciência Política (UFRGS), mestre em Ciência Política (UFPA), MBA em Marketing (FGV) e servidor público.

25 anos depois: o mundo que nasceu das cinzas do 11 de Setembro de 2001

Rodolfo Marques

Vinte e cinco anos depois, o 11 de Setembro permanece como o acontecimento que melhor simboliza a entrada efetiva do mundo no século XXI. Em 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos foram atingidos no coração de seu poder econômico, militar e político. As Torres Gêmeas, em Nova York, o Pentágono, em Washington, e o voo 93, na Pensilvânia, transformaram uma manhã aparentemente comum em uma ruptura histórica. Quase 3 mil pessoas morreram, mas o impacto ultrapassou incomparavelmente a dimensão das vítimas imediatas (www.oliberal.com/mundo/drones-recriam-torres-gemeas-em-homenagem-as-vitimas-do-11-de-setembro-1.1167410).

O atentado produziu uma mudança de percepção sobre segurança, terrorismo, soberania, fronteiras e poder (www.oliberal.com/mundo/11-de-setembro-atentados-chocaram-o-mundo-ha-20-anos-1.432960). A globalização, que até então era frequentemente associada à circulação de capitais, pessoas, informações e oportunidades, passou também a ser compreendida como ambiente de circulação de ameaças. O terrorismo internacional deixava de ser um problema periférico de alguns Estados-Nação para se tornar prioridade absoluta da agenda das grandes potências.

A resposta americana redefiniu os alinhamentos internacionais. Sob George W. Bush, Washington declarou a chamada “Guerra ao Terror”, invadiu o Afeganistão para derrubar o Talibã e, dois anos depois, promoveu a invasão do Iraque, em uma decisão controversa e que produziria consequências duradouras para o Oriente Médio. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) foi acionada pela primeira vez em sua história em razão de um ataque contra um de seus membros, enquanto países aliados ampliaram mecanismos de inteligência, vigilância e cooperação antiterrorista. Medidas como o USA Patriot Act e as práticas de detenções e interrogatórios extraordinários abriram um debate profundo sobre o limite entre segurança nacional e liberdades individuais. O 11 de Setembro provocou guerras e ampliou o poder do Estado de segurança e alterou a relação entre liberdade, privacidade e proteção coletiva.

Paradoxalmente, porém, a própria “Guerra ao Terror” ajudou a produzir parte do cenário internacional que os Estados Unidos enfrentariam posteriormente. As guerras prolongadas no Afeganistão e no Iraque consumiram recursos, desgastaram a imagem americana e contribuíram para a percepção de que a superioridade militar não significava necessariamente capacidade de construir estabilidade política. Enquanto Washington permanecia concentrado no terrorismo e no Oriente Médio, a China avançava econômica e tecnologicamente; a Rússia reconstruía sua capacidade estratégica e retomava uma postura revisionista; e novos polos de poder ganhavam espaço. O resultado foi uma transição gradual de uma ordem marcada pela predominância americana para um sistema mais competitivo, fragmentado e multipolar. O 11 de Setembro, nesse sentido, produziu uma ironia histórica: o momento de máxima demonstração do poder americano também iniciou um processo que, ao longo das décadas seguintes, contribuiria para relativizar sua hegemonia.

O mundo de 2026 é, portanto, muito diferente daquele de 2001. As ameaças terroristas jihadistas, de vários campos, não desapareceram. Hoje, também, a competição entre Estados voltou ao primeiro plano: Estados Unidos e China disputam tecnologia, comércio, inteligência artificial, cadeias produtivas e influência; Rússia e Ocidente permanecem em confronto por causa da guerra na Ucrânia; a Europa discute maior autonomia estratégica; e o Oriente Médio continua sendo um dos grandes epicentros de instabilidade internacional.

As ameaças também se sofisticaram: além do terrorismo convencional, existem ataques cibernéticos, drones, guerra de informação, manipulação algorítmica, desinformação e disputas pelo controle de recursos energéticos e tecnológicos. O mundo se tornou, em muitos aspectos, mais perigoso, porque a lógica de segurança inaugurada pelo 11 de Setembro foi incorporada a uma competição muito mais ampla entre potências.

É justamente por isso que a cerimônia deste 25º aniversário, nos Estados Unidos, adquire um significado particularmente poderoso. O amplamente questionado presidente ianque Donald Trump utilizou, nesta sexta (11), no Pentágono, a memória do 11 de Setembro para estabelecer uma conexão direta entre a guerra contra o terrorismo iniciada em 2001 e o atual conflito dos Estados Unidos com o Irã, afirmando que os americanos continuam lutando pela mesma causa.

Vinte e cinco anos depois, a data continua sendo simultaneamente trauma, símbolo, argumento político e marco estratégico. Talvez a principal lição deste ¼ de século seja que nenhum acontecimento geopolítico termina quando cessam as imagens de sua transmissão ao vivo.

O 11 de Setembro sobrevive nas guerras que vieram depois, nas leis de segurança, na vigilância digital, na política migratória, no relacionamento entre Ocidente e mundo islâmico, no fortalecimento de nacionalismos e, até mesmo, na atual disputa pela definição de quem representa a maior ameaça à ordem internacional.

A tragédia de 2001 ajudou a desenhar o mundo de 2026. E se naquele dia parecia que a pergunta era como os Estados Unidos responderiam ao terrorismo, hoje a pergunta é muito maior: depois de 25 anos de guerras, vigilância, realinhamentos e disputas pelo poder, será que o mundo aprendeu alguma coisa com o 11 de Setembro?

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Rodolfo Marques
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