A eleição presidencial de 2026 começa a ganhar contornos mais definidos, mas ainda está longe de ter um desfecho previsível. A polarização entre Lula (PT) e o bolsonarismo continua sendo o eixo central da disputa, agora representado eleitoralmente por Flávio Bolsonaro (PL), mas a distância entre os dois campos diminuiu. As pesquisas mais recentes revelam uma eleição mais competitiva e, sobretudo, uma disputa cada vez mais concentrada em três temas capazes de influenciar decisivamente o eleitor: economia, segurança pública e corrupção. Assim, será a capacidade de cada candidato construir uma narrativa convincente sobre esses assuntos que poderá definir a corrida presidencial – considerando-se a aproximação do primeiro turno, que será em 04 de outubro de 2026.
Lula chega à disputa como presidente e candidato à reeleição, carregando os resultados e as contradições de seu próprio governo. Tem a máquina governamental, programas sociais, indicadores positivos de emprego e renda e a experiência acumulada de outras eleições. Bolsonaro, por sua vez, herdou o espólio político do pai e a responsabilidade de manter unido um eleitorado conservador que continua fortemente identificado com Jair Bolsonaro. Ao lado deles, aparecem outros nomes, como Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo), que podem desempenhar papel importante na distribuição dos votos do primeiro turno.
O primeiro grande campo de batalha será a economia. E, para o eleitor, é o preço da comida no supermercado, o valor do combustível, a parcela do cartão de crédito, o emprego, o salário e a possibilidade de chegar ao fim do mês com algum dinheiro sobrando. O endividamento das famílias terá papel importante nessa discussão. Lula tem mostrado que emprego, renda e programas de transferência e proteção social representam resultados concretos de seu governo. Ações como a criação do “Pé-de-Meia” e a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil estão nesse contexto. De sua parte, Flávio explora questões como juros, gastos públicos, carga tributária e endividamento para sustentar a tese de que o modelo petista cobra uma conta elevada do cidadão.
Até mesmo o comportamento do mercado financeiro poderá entrar na guerra de narrativas. Bolsa, dólar e juros são indicadores importantes, mas dificilmente serão compreendidos pelo eleitor comum de maneira isolada. No fim, a pergunta será bastante simples: quem consegue convencer o eleitor de que colocará mais dinheiro no bolso dele?
O segundo tema é ainda mais emocional: segurança pública. E aqui, Bolsonaro parte de uma posição narrativa de transformar o medo da violência em discurso político. A defesa do endurecimento das penas, do combate mais rigoroso às facções criminosas, da ampliação do poder das forças de segurança e de uma política mais dura contra o crime conversa diretamente com uma população que se sente insegura. Apesar de, no governo do pai de Flavio, Jair Bolsonaro, a segurança pública tenha permanecido um grande problema, com poucas ações efetivas, o tema é uma bandeira mais bem explorada pela direita e pela extrema-direita. Lula tentará responder com outra abordagem: integração das forças policiais, inteligência, tecnologia, combate ao financiamento do crime organizado, controle de armas e maior participação da União na política de segurança. É uma diferença de linguagem que pode ser decisiva. Enquanto Flávio tende a falar em endurecimento, Lula precisa falar em eficiência.
O terceiro tema é a corrupção. Talvez não tenha, inicialmente, a mesma força que teve nas eleições de 2018 e 2022, mas continua sendo uma arma política de enorme potencial destrutivo. Lula carrega o histórico das denúncias e investigações que marcaram o PT e que ainda fazem parte do imaginário político de parcela expressiva do eleitorado. Flávio Bolsonaro, por outro lado, chega à eleição enfrentando questionamentos relacionados ao caso Banco Master e à sua grande proximidade com o banqueiro Daniel Vorcaro, por ocasião do filme “Dark Horse”.
Lula, portanto, precisa mudar o eixo da campanha. Sua estratégia deverá ser trazer a discussão de volta para a economia, o emprego, a renda, os programas sociais e a comparação entre os governos. O presidente precisa transformar a eleição em um plebiscito sobre sua administração: “o país está melhor ou pior do que estava antes?”.
Flávio Bolsonaro terá caminho inverso. Precisa consolidar o eleitorado que herdou do pai e, ao mesmo tempo, avançar sobre os eleitores que querem derrotar Lula, mas não necessariamente se identificam integralmente com o bolsonarismo. Seu maior desafio será deixar de ser apenas “o filho de Bolsonaro” e convencer o eleitor de que representa uma alternativa de poder capaz de governar o país.
É possível, portanto, que a eleição seja decidida menos pelo amor a um candidato do que pelo medo do outro. O eleitor poderá votar em Lula para evitar a volta do bolsonarismo ou em Flávio para impedir a continuidade do petismo. Esse é o combustível mais poderoso da polarização brasileira.
A eleição de 2026 pode, assim, ser resumida em três palavras: bolso, medo e confiança. O bolso será disputado pela economia. O medo, pela segurança pública. E a confiança, pela corrupção e pela capacidade de cada candidato apresentar-se como alguém em quem o eleitor pode acreditar. Quem conseguir dominar essas três dimensões terá uma vantagem preciosa.
Quem viver verá.
