OCÉLIO DE JESÚS C. MORAIS

OCÉLIO DE JESÚS C. MORAIS

Escritor, PhD em Direitos Humanos e Democracia pelo IGC da Faculdade de Direito Coimbra; Doutor em Direito (PUC/SP) e mestre em Direito Constitucional (UFPA); Idealizador-fundador e 1º e atual presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (ABDSS, Cad. 01), acadêmico perpétuo da Academia Paraense de Letras (CAd. 08), da Academia Paraense de Letras Jurídicas (Cad. 18) e da Academia Paranaense de Jornalismo (CAd. 29) e Juiz Federal do Trabalho.

A lembrança da história para a história

Océlio de Morais

Já me referi, em outras crônicas-ensaios reflexivos, sobre a frase-advertência de Jesus quanto ao exercício do poder, relatada no Evangelho de Mateus (16:26) , a  seguir reproduzida: “Pois, o  que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma”.

Volto ao tema, neste breve ensaio teológico-filosófico, com a seguinte tese argumentativa:   uma possível interpretação, acerca da perda da própria alma quer dizer, na advertência de Jesus,  deixar-se dominar pelas tentações e armadilhas do poder, resultando, no plano individual, a perda de referência  e do domínio de si próprio. 

O meu objetivo, aqui, é defender a assertiva de Jesus sobre a natural incompatibilidade de se manter o controle e a serenidade da própria alma, quando o  exercício de qualquer poder é desviado da função precípua do bem comum da sociedade. 

O deixar-se dominar pelas  tentações e armadilhas do poder pode ser consciente ou inconsciente. 

Será consciente  quando, por livre arbítrio,  a pessoa opta em exercer o poder de modo desviado da finalidade ética que a investidura exige enquanto princípio ético-legal.  E será inconsciente quando a pessoa desconhece a exata dimensão das forças e objetivos que compõem e dominam o poder, sendo, por consequência, utilizada como  mero instrumento manipulado  para a realização do referido poder.

Vamos ilustrar melhor com o caso de Pôncio Pilatos, o governador da Judéia nos anos 26 a 36 d.C, o homem que “lavou as mãos” na condenação de Jesus, fazendo um joguete político que entrou para história negativa da humanidade:  ofereceu ao povo judeu,  como era costume na sua Páscoa, a libertação de um preso condenado à morte.

Depois de interrogar Jesus, Pilatos disse aos líderes dos sacerdotes e  à multidão: “Eu não encontro nenhum motivo para condenar este homem!” ( Lucas, 23).

No entanto, por interesses do sistema  político, Pilatos   –  ele  não era romano, mas samnitas  – precisava agradar o imperador Tibério, que o havia nomeado ao cargo e, então, armou o circo da farsa do julgamento: “deu” ao povo  a escolha entre Barrabás (guerrilheiro zelota, ladrão,  salteador,  assassino e  condenado à morte) e o homem honesto, justo e correto,  Jesus.  Manipulado pelos sacerdotes, o povo escolheu a libertação do ladrão e assassino, condenado Jesus, porque aquele povo estava ligado pelas estruturas religiosas desvirtuadas. 

E então, Pôncio Pilatos, fechando a cortina daquela farsa, lavou as mãos, conforme relatado no  Evangelho de Mateus (27:24): “Ao ver Pilatos que nada conseguia, mas pelo contrário que o tumulto aumentava, mandando trazer água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Sou inocente do sangue deste homem; seja isso lá convosco. “ 

Os registros históricos, quanto à morte de Pilatos, são desencontrados: há relato de que fora destituído do poder pelo imperador Calígula, sucessor de Tibério,  depois   que ordenou o  massacre  de um grupo de  samaritanos armados na Vila Tiratana. Outro relato dá conta de que teria se convertido ao cristianismo e outro relata que ele teria se suicidado. 

O caso de Pilatos tipifica bem  a opção consciente pelo exercício desviado do poder político: como governador da Judéia, também era  o chefe do sistema judicial – poder que lhe conferia autoridade para  conceder liberdade ou impor pena de morte àqueles considerados inimigos do Impérito romano. 

Então, Pôncio Pilatos fez o jogo do sistema estabelecido, o que significa  – na perspectiva desse ensaio  teológico-filosófico –  que, de forma consciente,  Pilatos “lavou as mãos” como mera retórica, isto é,  manipulou o sistema para a condenação de Jesus e para a libertação de Barrabás.  

E, assim, Pôncio Pilatos corrompeu a própria alma (perdeu o domínio de si mesmo) pelo desejo do poder político corrompido. A perda do domínio de si mesmo – a perda da alma –  representou a perda da liberdade de dizer não às tentações e armadilhas daquele sistema.

Tivesse, aquele governador e chefe do sistema judicial, o domínio de sua própria alma – isto  é, se não tivesse se corrompido pelo sistema político  –  certamente não teria promovido, tampouco  participado da farsa dito julgamento de Jesus. E o teria denunciado.

Logo, a questão  decorrente é a seguinte: seria possível o exercício do poder sem a perda do domínio ético de si próprio? Ou seja, sem o aprisionamento  da alma?

A questão é altamente  complexa e desafiadora porque  implica  nas escolhas  – certas e legais  ou erradas e ilegais  –  que a pessoa  fará  no exercício do poder. 

A decisão certa – para não perder o domínio da alma –  é  Jesus como verdade libertadora das  corrupções do mundo. Aliás, o apóstolo Pedro (2:20) foi preciso, quando afirmou que se  liberta das corrupções pelo  conhecimento (aceitação) do Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Existe, por conseguinte, uma  natural incompatibilidade de se manter o controle e a serenidade d’alma, quando a alma está aprisionada pelo  exercício de qualquer poder corrompido,  desviado da função precípua do bem comum da sociedade. 

Com isso, outra questão que sobrevém: o que fica depois que o exercício  do poder acabar? A resposta teológica está em Coríntios (15:50): “E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herda a incorrupção”.

No fundo, diante de tudo isso e especialmente quando acaba o exercício do poder,  o que fica é o que verdadeiramente somos: pobres mortais dependentes e carentes de ajuda e dos cuidados de outros para mínimas e naturais necessidades fisiológicas  básicas – a isso denomina-se caridade –  quando chega a velhice prostrada.

Então, a questão do presente, com uma perspectiva honesta ao futuro da nossa história, é saber: qual a lembrança que queremos que fique a respeito da nossa história?  E qual a contribuição efetiva e positiva que deixaremos à sociedade no presente e às gerações futuras, na perspectiva do respeito à dignidade humana, sem  narrativas e retóricas ideologicamente desviadas das finalidades do bem comum social.  

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ATENÇÃO: Em  observância à Lei  9.610/98, todas as crônicas, artigos e ensaios desta coluna podem ser utilizados para fins estritamente acadêmicos, desde que citado o autor, na seguinte forma: MORAIS, O.J.C.;  Instagram: oceliojcmoraisescritor

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Océlio de Morais
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