O tempo fugaz que se dispõe para aprender com o tempo e com as pessoas Océlio de Morais 15.10.24 9h34 Ele deveria ser lido por todos e todos os dias. Deveria ser um livro de cabeceira para funcionar como conselheiro fiel da alma, porque ele diz: – “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou (...)”, Eclesiastes, 3:1-2. Atribuído a Salomão, o livro de Eclesiastes foi escrito entre 450 e 180 anos antes de Cristo, narram os exegetas e teólogos cristãos. Esses versos de Eclesiastes são adequados, nessa breve crônica, para uma reflexão sobre o tempo de que dispomos para sermos úteis às pessoas. Vou partir de um caso hipotético, que pode ser contado assim. A rotina do trabalho, a sobrecarga dos serviços, os prazos judiciais a observar e as metas institucionais a cumprir. Lá se foram 10, 20, 30, quase 40 anos. Sim, ao que parece – para lembrar o salmista –, tudo “voou sobre as asas do vento”, (Salmos 18:10). O magistrado estava prestes a se aposentar. Seria uma mudança radical à sua vida, afinal, foram inúmeras decisões judiciais sobre patrimônios e vidas de terceiros. E, por essa condição, as coisas do poder lhes foram inerentes – ambiente no qual aprendera a difícil arte de separar o “joio do trigo” ao mesmo tempo em que viu crescer o onisciente desafio de “dar a César o que é de César”, a partir da parábola teológica que nos ensina a compreender com sabedoria o valor do bem espiritual em relação a tudo o que advém do bem material. Ele estava de mudança. De repente, ficou de pé no meio do pequeno gabinete de trabalho e olhou para as quatro paredes – nela estavam seus títulos, honrarias e diplomas – aquelas que muitas vezes foram suas conselheiras selecionadas nos momentos das decisões mais complexas e difíceis. Ele irá sair de cena. Vai deixar a vida pública. Ainda de pé no meio do seu gabinete, olhou para a sua estante – ali estavam suas próprias obras mais importantes e outros clássicos do Direito – e lembrou o quanto havia aprendido com elas. Mas, agora, já não sabia o que iria fazer com tantos livros, pois não poderia levá-los à sua biblioteca particular, na sua casa, onde também outras preciosidades já lhes fazem cotidiana companhia por décadas de aprendizado. Não faltava muito tempo, logo ele sairia de cena. Olhou para a toga de cetim cor preta pendurada no cabide modelo colonial e percebeu que aquele símbolo da Justiça já não seria parte de seu imaginário e nem do seu dia a dia. O símbolo da autoridade, em breve, já não lhe pertencerá mais. Ele estava de mudança. Seu olhar fixo nas coisas do gabinete também levavam a memória aos seus primeiros dias na magistratura: jovem entusiasta e ávido em fazer justiça. Todas suas energias virtuosas foram dedicadas à Justiça. Tudo, de fato, tem o seu tempo determinado. O tempo passou e, agora, ele estava prestes a se aposentar. Então, começou a sentir só. Pessoas que lhe prestavam reverências, lhe confidenciaram assuntos delicados ou lhe pediam favores, já não o cumprimentavam, já não iam ao seu gabinete e nem o tomavam mais como conselheiro. E ele pensou: eram amigos sinceros ou “amigos” do poder que eu representava? O magistrado se aposentou. A mudança começa agora. A verdadeira mudança ainda está apenas começando. Pela frente, descortina-se um novo padrão de vida que precisa ser estabelecido; uma nova visão sobre o outro lado dos tribunais deverá ser construída; um novo período de aprendizado social começará com o dia e terminará com a noite e todos os dias se renovará nessa liturgia: o dia seguinte à aposentadoria, ele se tornará um dentre os outros segurados obrigatórios que, a partir de agora, espera a contrapartida previdenciária ao mínimo conforto aos seus novos dias. Então, de repente, aquele magistrado – que veio ao mundo para resolver litígios judiciais e exerceu bem o seu mister – percebeu como é pequeno e fugaz o tempo de que dispomos para aprender mais com o tempo e com as pessoas. Enquanto usou a toga, certamente percebeu quão utilitaristas é o sistema e o assédio das amizades interesseiras, ambiente onde a inveja ataca as virtudes. Desse outro lado, e doravante sem a força da toga, logo perceberá com maior clareza que as amizades virtuosas nunca se escondem onde quer que possas está ou onde possas ir ou, ainda, qual seja o tamanho do problema a enfrentar: a amizade virtuosa sempre será sincera, honesta e fraternal. Sêneca – “O Moço”, o nascido em Córdoba e que foi filósofo – escreveu que “Tudo o que se exige do homem é que seja útil ao maior número de semelhantes, se possível: Vi e convivi – próximo e à distância – com aquele magistrado que começou a sua mudança. Dele, dou um testemunho: ele procurou ser honestamente justo e dedicadamente útil ao maior número de semelhantes. Enfim, o magistrado mudou-se: deixou a toga e vestiu a roupa dos comuns. Dele, ainda pode ser dito, com letras garrafais: Viveu a magistratura decente. Fez a caminhada que o destino lhe traçou, parodiando-se Sêneca, na obra “Da Tranquilidade da Alma” “Vivi. Fiz a caminhada que o destino me traçou”. ATENÇÃO: Em observância à Lei 9.610/98, todas as crônicas, artigos e ensaios desta coluna podem ser utilizados para fins estritamente acadêmicos, desde que citado o autor, na seguinte forma: MORAIS, O.J.C.; Instagram: oceliojcmoraisescritor Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱 Palavras-chave colunas ocelio de morais COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA Océlio de Morais . Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo! Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é. 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