O grão de mostarda não o briga com o vento Océlio de Morais 14.07.26 13h20 Imagine-se caminhando numa estrada de barro muito no verão. No cáustico verão amazônico. Calor e poeira são os incômodos e os desafios. Os pés avançam no bairro e mergulham na poeira. A poeira encobre. Agora, imagine-se com muita calma caminhando na estrada da existência, que é a sua própria vida com as intempéries previsíveis e imprevisíveis: chuva, tempestade, frio, calor, vento suave, sombras, água refrescante… tudo isso está na estrada da existência. Caminhar pela poeira da existência humana é, antes de tudo, tatear entre o galho da árvore que verga e a raiz que a sustenta. Muitas vezes confundimos a rigidez do falso moralismo – e isso não é criticável – com a solidez da verdadeira autoridade moral, esquecendo que o primeiro é apenas gesso seco, enquanto a segunda é seiva viva, que alimenta a Alma. Jesus de Nazaré, o paradigma da filosofia da simplicidade e da humildade, compreendeu essa dinâmica como nenhum outro caminhante sob o sol e sob as estrelas da noite. Ele plantou seus pés e seu caminhar no inóspito chão batido da Galileia e da Judeia de seu tempo. Recusou os palcos da soberba. Sua presença não esmagava o pecador, ao contrário, convidava a terra seca do peito humano a florescer novamente. Eu fico pensando na autoridade moral de Jesus – tão nobre e tão elevada – que incomodava aqueles que vociferavam autoridade, mas claramente não a tinham. Em nosso tempo, se olharmos com a lupa da verdade, muitos ainda assim procedem: vociferavam autoridade que não a tem, sob o ponto de vista ético e moral. A verdadeira autoridade de Jesus nunca emanou dos códigos de leis humanos ou de sentenças excludentes, mas sim de uma coerência real que – assim posso afirmar – ainda hoje traduz uma espécie do próprio pulsar do cosmos. Quem não se recorda do episódio da mulher surpreendida em adultério? O moralismo dos homens trazia pedras nas mãos e sentenças (como navalhas) na ponta da língua – o moralismo ávido por sangue e punição. Jesus, porém, inclina-se até o pó da terra, escrevendo naquele chão batido por tantos pés o reflexo da própria falibilidade daqueles juízes improvisados. Ao dizer "quem não tiver pecado, atire a primeira pedra" (João, 8?7). Ele desarma os braços endurecidos pelo moralismo acusador e ergue a dignidade despedaçada. Aquela autoridade exemplar afasta-se do moralismo, porque nasce do amor que resgata e não do tribunal que condena a Alma ao abismo. O moralista aponta o dedo para a ferida alheia para esconder as próprias chagas; Jesus, ao contráio, toca a ferida com a suavidade do jardineiro que limpa a erva daninha. Na parábola do Fariseu e do Publicano (Lucas, 18: 9-14), vemos esse contraste desenhado com tintas de pura filosofia existencial no templo: – “E disse também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os outros: 10 Dois homens subiram ao templo, a orar; um, fariseu, e o outro, publicano. 11 O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. 12 Jejuo duas vezes na semana e dou os dízimos de tudo quanto possuo. 13 O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! 14 Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado. “ Qual a moral dessa parábola? Enquanto o religioso orgulhoso desfila suas virtudes vazias – desvirtude define melhor – como um pavão sob a luz, por outro lado, o publicano, recolhido no canto, mal ousa levantar os olhos. É no peito esmagado desse cobrador de impostos que reside a humildade sublime, a virtude que Jesus elegeu como a chave mestra do Reino. O Mestre de todos os mestres ensina que a humildade não é a negação do próprio valor, mas a consciência límpida de nossa pequenez na estrada da existência e diante do infinito. É como a semente de mostarda (Mateus, 17:20), que sendo a menor de todas as sementes na terra, não briga com o vento, mas aceita recolher-se no silêncio do solo. Somente após essa entrega invisível e silenciosa é que ela se torna a maior das hortaliças, oferecendo sombra fresca às aves do céu. Bem, eu penso assim: a humildade funciona como uma ascese espiritual, um degrau que descemos para que a Alma possa, evolutivamente, respirar os ares mais puros do alto. E confesso: esforço-me para ser assim. Ao lavar os pés dos discípulos na última ceia (João, 13: 1-38), o Mestre da humildade e da simplicidade curva-se diante da poeira dos caminhos humanos, invertendo a lógica dos tronos terrenos. Ele não exigiu vassalagem; fez-se servo para mostrar que o verdadeiro tamanho de um homem mede-se pela sua capacidade de inclinar-se. Isso é bem real. Para confirmar, observamos com sinceridade as relações humanas. Diante da própria falibilidade, essa moral compassiva surge como o único farol capaz de guiar o barco humano nas tempestades da vida. Sinceramente, ainda não vi outra forma melhor para tentar superar as próprias fraquezas, as quais são o terreno fértil às incertezas, inseguranças e desvios de condutas. Se alguém a tiver, por favor, aponte-me, mas com a demonstração dos resultados edificantes à serenidade da Alma. Por certo que as facilidades materiais muitas vezes desviam o sentido da vida. Por isso não é nada fácil viver com o mesmo brilho altivo do exemplo do Mestre, que mostrou que a grande filosofia da vida é a humildade. Viver sob a égide desse legado é compreender que a perfeição não é a ausência de quedas, mas a disposição constante de recomeçar a partir do chão. Mas observemos que – quando aceitamos nossa condição de aprendizes e abraçamos a humildade – naturalmente começam a desaparecer os ímpetos da arrogância, do orgulho, do egoísmo, da vaidade, da prepotência, da estupidez, da raiva e do ódio – vícios da Alma que colocam sobre nossos ombros o peso do mundo . Pensemos no seguinte, como reflexão final: temos um exemplo extraordinário – Jesus, o sábio da coerência ética e moral – para toda a nossa vida. Então, acho que podemos dizer: sim, é possível trocar as pedras do julgamento pelas sementes do perdão. E se assim for, daremos frutos que o tempo não poderá apagar. 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