O.J.C. MORAIS

OCÉLIO DE JESÚS C. MORAIS

PhD em Direitos Humanos e Democracia pelo IGC da Faculdade de Direito Coimbra; Doutor em Direito Social (PUC/SP) e Mestre em Direito Constitucional (UFPA); Idealizador-fundador e 1º presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (Cad. 01); Acadêmico perpétuo da Academia Paraense de Letras (Cad. 08), da Academia Paraense de Letras Jurídicas (Cad. 18) e da Academia Paranaense de Jornalismo (Cad. 29) e escritor amazônida. Contato com o escritor pelo Instagram: @oceliojcmorais.escritor

Como o Jogo do Poder Julgou a Verdade

Océlio de Morais

Era a manhã da sexta-feira da crucificação. Quinta-feira havia sido a noite da humilhação (despojamento das vestes), da violência física (com chicotadas) e do escárnio psicológico pelos soldados romanos. A prisão foi o princípio do calvário.

Levado à presença do governador romano da Judeia, Pôncio Pilatos — o qual, depois de interrogá-Lo, afirmou aos principais sacerdotes, magistrados e ao povo judeu que exigiam a execução de Jesus, conforme relatou Lucas 23:14-15:

--- "Não vejo culpa Nele" —, este disse-lhes: “Haveis-me apresentado este homem como pervertedor do povo; e eis que, examinando-o na vossa presença, nenhuma culpa, das de que o acusais, acho neste homem. Nem mesmo Herodes, porque a ele vos remeti, e eis que não tem feito coisa alguma digna de morte”.

Aqui surge a questão: se não encontrou nenhuma culpa em Jesus, o que o fez condenar o homem que ele mesmo considerou inocente?

Mas o acusaram de ser pervertedor do povo, de autodeclarar-se o Rei dos Judeus, de promover a sedição e a subversão contra o Império. Claro, nenhuma delas era verdadeira. A verdade era outra.

A aparente contradição ou incoerência do governador da Judeia ao condená-Lo à morte escondia outra motivação: transferir a responsabilidade ao seu inimigo político, o Rei Herodes Antipas (o governante da Galileia), aquele mesmo que — por concupiscência pela enteada, Salomé, a filha de Herodias — já havia determinado a decapitação do profeta João Batista e entregue a sua cabeça numa bandeja, como uma promessa estipulada e feita à amante.

O Evangelho de Marcos (6:21-28) relata que o casamento de Herodes com Herodias era considerado ilegal e pecaminoso pelas leis judaicas porque ela era ex-esposa do próprio irmão de Herodes (Filipe).

Como Herodes não encontrou crimes reais, antes de devolver Jesus a Pilatos, o ironizou, tendo o evangelista Lucas (23:8-11) assim narrado este episódio:

-- “E interrogava-o com muitas palavras, mas ele nada lhe respondeu. E estavam os principais dos sacerdotes, e os escribas, acusando-o com grande veemência. E Herodes, com os seus soldados, desprezou-o e, escarnecendo dele, vestiu-o de uma roupa resplandecente e tornou a enviá-lo a Pilatos.”

Jesus, todavia, nada respondeu. Herodes, então, para ridicularizá-Lo como uma espécie de rei de comédia, mandou vesti-Lo com uma roupa luxuosa e brilhante (frequentemente traduzida como um manto real ou veste resplandecente) e o mandou de volta a Pilatos.

Era uma mensagem visual sarcástica que dizia: "Olha aí o seu 'rei', ele nem consegue falar". Mas a sua resiliência não foi vencida pelas provocações, nem pelas humilhações.

A história conta que Pilatos e Herodes eram inimigos políticos declarados; porém, por conveniência, naquela sexta-feira, tornaram-se cúmplices de um crime político e religioso contra Jesus: ambos, na verdade, queriam eliminar Jesus, porque temiam a perda de seus cargos pela pressão política vinda de Roma e dos sacerdotes das sinagogas.

Pilatos, ao receber Jesus de volta — com a narrativa de que lavava as mãos do sangue do inocente — fez o gesto de lavar as mãos que entrou para a história da covardia, da omissão e da cumplicidade consciente,  conforme  Mateus 27:24-25.

-- “Estou inocente do sangue deste Justo; considerai isso. E, respondendo todo o povo, disse: O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos.” 

A rigor, o sistema político e religioso de então estava sob "xeque" devido aos desvios ético-morais dos líderes religiosos e à tirania do Império Romano. Jesus, com suas metáforas e parábolas, questionava o sistema estabelecido. Chamou de hipócritas e sepulcros caiados os fariseus. 

E disse claramente que o Reino dos Céus era dos injustiçados e dos humildes de coração — virtudes que muitos escribas, saduceus e fariseus não cultivavam em suas vidas.

Jesus também falou diretamente sobre a destruição do Segundo Templo de Jerusalém (o Templo de Herodes) — a monumental construção de pedra que simbolizava e centralizava a fé judaica —, o que deixou coléricos os sacerdotes da época.

Este episódio foi narrado assim no Evangelho de João, capítulo 2, versículos 19 a 21:

-- “Respondeu-lhes Jesus: Destruí este templo, e em três dias o levantarei." Disseram, pois, os judeus: "Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu o levantarás em três dias?" Mas ele falava do templo do seu corpo.”

Teologicamente, Jesus se referia ao seu próprio corpo, à sua ressurreição, embora seus ouvintes pensassem que Ele falava do Segundo Templo. Era a profecia de que seria morto e que ressuscitaria no terceiro dia.

Os sacerdotes do templo não acreditavam na ressurreição e viam naquela mensagem um “perigo” às tradições religiosas hebraicas. Um perigo à casta religiosa e política de então.

Não houve prova das acusações de pervertedor do povo, da autodeclaração do Rei dos Judeus, nem de promover a sedição e tampouco a subversão contra o Império. Pouco importava: a farsa da “trama subversiva” estava pronta e a sentença de morte definida.

 Faltava apenas a última cena do espetáculo: deixar que o povo, “democraticamente”, decidisse pela liberdade entre Jesus, o justo, e Barrabás, o ladrão e assassino.

Do mesmo modo que se portou diante de Herodes, permaneceu em silêncio.   

Jesus ouviu tudo em silêncio, deixando a mensagem não da filosofia do sofrimento, mas da filosofia do bem-aventurado — o humilde e manso de coração, o injustiçado — que viveu na própria pele a sua própria profecia. 

 Não se tratava da máxima latina “Qui tacet consentire videtur  ou Qui tacet consenti” (Qem cala consente).    Aquele silêncio era a verdadeira força soberana.  Pôncio Pilatos e Herodes Antipas não perceberam isso. E ficam desestabilizados, porque a força de seu poder era limitada  e efêmera.  O silêncio era a verdadeira força divinamente espiritual era  desconcertante aos olhos e às almas matérias  daqueles dois governantes. Era o silêncio soberano de quem detinha o principado e a realeza divina.

E,  ainda, nos últimos minutos agonizantes da crucificação, ainda teve a sublime capacidade de interceder pelos próprios algozes: “Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem”. (Lucas 23:34).

 Os evangelhos — Marcos (Capítulo 16, versículos 1 a 8); Lucas (24:1-12); Mateus (28:1-10) e João (20:1-18) — relatam a ressurreição de Jesus no terceiro dia, tal como o Mestre havia profetizado aos sacerdotes do Templo de Jerusalém, aos discípulos e ao povo.

E o que aconteceu com os principais algozes de Jesus? Não há relatos evangélicos sobre o que aconteceu a Caifás, a Pôncio Pilatos e a Herodes Antipas naquela tarde da crucificação e na sequência da mesma noite, nem com os sacerdotes do templo que conspiraram contra Jesus.

Os escritos do historiador Eusébio de Cesareia afirmam que Pôncio Pilatos caiu em desgraça política — cerca de 3 a 5 anos depois da crucificação de Jesus —, foi exilado para a Gália (atual França) e acabou cometendo suicídio.

Herodes Antipas ainda permaneceu até o ano 39 depois de Cristo como governador da Galileia. Tentou obter junto ao imperador Calígula o título formal de "Rei", uma vez que ele era apenas um tetrarca, uma patente inferior. Mas seu sobrinho, Herodes Agripa I, antecipou-se e o acusou de traição contra Roma e de estocar armas para uma rebelião.

Destituído de seus bens e banido perpetuamente por Calígula para a região da Gália (na atual Lyon, França), Antipas acabou morrendo no exílio em data desconhecida, não havendo consenso quanto à causa, se natural ou se executado.

Caifás, o sumo sacerdote que liderou a conspiração contra Jesus, foi deposto do cargo no ano 36 d.C. pelas autoridades romanas. Não há registro bíblico sobre as circunstâncias ou a data exata da sua morte, estimada por volta do ano 46 depois de Cristo.

 
MORAIS, OJC.
PhD em Democracia e Direitos Humanos (IGC/CDH, instituto associado à Universidade de Coimbra e à FDUC através de protocolos de cooperação institucional.).Doutor em Direito (com ênfase ao princípio da proteção social)  pela  puc/sp; Mestre em Direito pela UFPA, e Acadêmico Perpétuo da APL, da APLJ, da APJ e da ABDSS. Escritor brasileiro.

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