As orquídeas só florescem em setembro. E a Nova Aliança? Ocelio de Jesús Morais 04.02.25 8h02 Suas mãos, alguma vez, já foram arranhadas ou perfuradas pelos espinhos? Naquele dia, acordamos por volta das 5:00 horas da manhã, bem mais cedo do que o costume. Tínhamos que ir à cidade, minha mãe e eu. Não era um dia de rotina de trabalho no rosso roçado na colônia Jacaré, daquela rústica e bucólica cidade da década de 1960 – a terra mãe dos originários índios Gurupatuba, que virou freguesia de São Francisco de Assis; depoiis, Vila Monte Alegre (1758), nome ratificado com a sua elevação à categoria de Município (1880). Naquele tempo, o dia de domingo era muito especial, pois realmente era dedicado ao descanso. Mas era diferente sobretudo por ser reservado para uma conversa mais íntima, mais sintonizada e honesta com o Senhor da vida: o domingo tornava-se um dia bem mais especial do que os outros – a rigor, do amanhecer ao anoitecer, tudo torna os dias especiais – porque naquele domingo eu completava a primeira década de vida, coincidente com o dia da minha primeira comunhão. Tradicionalmente, na cidade, a missa das crianças na Igreja matriz (construída entre 1869-1872) era celebrada às 8:00 horas da manhã – o nome da igreja homenageia São Francisco de Assis (1181, ducado de Espoleto, Itália) como padroeiro – o jovem boêmio que abdicou de toda sua riqueza e morreu na extrema pobreza aos 44 anos, no dia 3 de outubro de 1226. Tínhamos que ir à cidade. Na zona rural, a “colônia do Jacaré”, às margens do igarapé com o mesmo nome, pois aquele domingo iria me incluir – embora naquele tempo eu não tivesse a menor ideia – no § 2º do Can. 77 do Código de Direito Canônico, o qual prevê que, como sequência ao Batismo, o sacramento da santíssima Eucaristia representa, na Teologia Católica, a iniciação da criança cristã na comunhão com a comunidade. Uma camisa branca e short na cor preta, uma vela e um buquê de flores foram necessários como indumentárias para aquele evento. Mamãe colheu flores rústicas do campo – era Setembro o mês da floração das Orquídeas – para um pequeno buquê, também composto com rosas brancas, colhidas de uma roseira que havia na gruta de rocha calcária erguida como oratório (com uma imagem da Virgem Maria) entre a Casa Paroquial e a Igreja Matriz, na cidade Alta. E ali ela disse,enquanto colhia algumas rosas brancas: suas mãos, alguma vez, já foram arranhadas ou perfuradas pelos espinhos? Não havia entendido, mas respondi que não. E ela explicou: veja essas mãos calejadas do trabalho na roça: de início, os calos podem sangrar. Mas, doem muito mais os espinhos que podem arranhar as mãos e podem perfurar os dedos. E continuou falando: colocaram uma coroa de espinhos na cabeça de Jesus, zombando dele, antes mesmo de ter sido crucificado. Hoje a sua primeira Comunhão vai acontecer – a primeira Eucaristia é a primeira vez que o cristão católico recebe o “Corpo e o Sangue de Jesus Cristo” – porque Jesus morreu por nós e para nossa oportunidade de salvação. Naquela idade, confesso que não compreendi a dimensão daquelas palavras. Hoje pensando nelas – aliás, como você se lembra da sua mãe? E você já pensou como seus filhos e netos vão se lembrar de vocês? – vejo uma sabedoria singular naquelas breves palavras: elas aliaram a coroa de espinhos da coroa de Jesus, os espinhos da roseira que podem arranhar ou perfurar dedos, a inocência e singeleza da rosa branca, o amor e a alegria das orquídeas, tudo comparado à penitência e da santíssima Eucaristia. As rosas e os espinhos – quando pensamos na natureza composta dos galhos das roseiras e das suas flores (beleza, inocência e perigo, sacrifício) – podem representar muito adequadamente os caminhos que percorremos em perspectiva entre os dois sentimentos mais antagônicos do ser humano (amor e ódio) ou bem recorrentes do dia a dia (alegrias e tristezas). Rosas e orquídeas – recordemos bem – remetem à pureza, à inocência, à paz e à espiritualidade e as orquídeas representam beleza, amor, solidariedade, alegria e paz. Os espinhos representam sangue, dor, dificuldade, sacrifício e martírio. Nesta parábola de rosas, orquídeas e espinhos da nossa existência em comparação à primeira Eucarístia no catolicismo cristão, posso então dizer que ela é, bem a rigor, a confirmação do pacto da “Nova Aliança” legada, na última Ceia, por Jesus Cristo a todos os que desejarem viver com Ele a “Nova Aliança” como uma verdade profética de Jesus, conforme relatado pelo evangelista Lucas (22:19): – “Pegando ele o pão, deu graças, partiu‑o e o deu aos discípulos, dizendo: ― Isto é o meu corpo, dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim. Da mesma forma, depois de ter comido o pão, ele pegou o cálice e disse: ― Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado em favor de vocês.” Em algumas regiões, as rosas podem florescer durante o ano, mas seu ponto máximo é na estação de Outono, enquanto que as orquídeas foram em setembro. A Nova Aliança, anunciada há mais de dois milênios, existe para toda eternidade, como verdadeiro significado da existência humana. ATENÇÃO: Em observância à Lei 9.610/98, todas as crônicas, artigos e ensaios desta coluna podem ser utilizados para fins estritamente acadêmicos, desde que citado o autor, na seguinte forma: MORAIS, O.J.C.; Instagram: oceliojcmoraisescritor Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞 Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱 Palavras-chave colunas oceliodemorais océlio de morais COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA Océlio de Morais . Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo! Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é. Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos. Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado! 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