Linomar Bahia

Jornalista e radialista profissional. Exerceu as funções de repórter, redator e editor de jornais e revistas, locutor, apresentador e diretor de emissoras de rádio e televisão. Articulista dominical de O Liberal há mais de 10 anos e redator de memoriais, pronunciamentos e textos literários. E-mail: linomarbahiajor@gmail.com

Um país sempre 'às vésperas'...

Linomar Bahia

O Brasil e os brasileiros parecem sempre temerosos de que alguma coisa nada agradável está para acontecer no momento ou no dia seguinte. O colunista Bernardino Santos abriu a sua coluna de ontem nesse tom, sintetizando na nota "Pólvora" existir "cheiro de pólvora no ar", expectativa sinalizada por expressões como "estão esticando a corda", espécie de "véspera" de algo em fermentação. Tudo pode estar para acontecer, ou nada, como desfecho de situações que se acumulam sob neologismos de "crises", protagonizadas por instituições, seus integrantes e vocalizadas nos meios de comunicação.

Nada anima a deixar de imaginar que o país continuará sem que alguém arrisque prever quando o “Brasil, país do futuro” será a realidade imaginada, há 74 anos, pelo escritor judeu-austríaco Stefan Zweig no título do livro que publicou pela primeira vez em 1941. Não viveu para ver, nem para sofrer, a frustração de estarmos, ao contrário, "às vésperas" de momentos e circunstâncias, sem nenhuma perspectiva do porvir brasileiro que filosofou, certamente iludido por encontrar em Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde se radicou, a tranquilidade perdida na França, de onde fugira, um ano antes, da invasão nazista à sua terra.

Alimentava a crença ao conhecer as potencialidades das regiões por onde peregrinou, mas o justificado pessimismo, já naquela época, lhe rendeu a acusação de ser um ufanista, igualado aos apologistas do estado ideal, de completa felicidade e harmonia, sonhada por Tomas Morus no livro "Utopia" de 1616. Principalmente porque o país vivia, naquela época, sob a ditadura do “Estado Novo”, instaurado e sustentado por Getúlio Vargas entre 1937 e 1945, por isso também denominada “Era Vargas”. Tanto quanto o escritor, as sucessivas gerações nunca vislumbraram, esse futuro, a despeito dos ufanismos peculiares de sempre. 

Observadores dos tempos e dos acontecimentos pontuam que vêm de longe os eternos problemas do Brasil, exibindo na atualidade os reflexos de gerações sem competência nem patriotismo de construir o presente, muito menos o futuro de um país rico por natureza. Em entrevista ao tempo em que foi o primeiro homem a ir ao espaço, em abril de 1961, o astronauta russo Iuri Gagarin falou sobre a visão especial que tinha cada vez que girava sobre o Brasil, surpreso com os efeitos luminosos, provocados pela incidência da luz solar sobre as abundantes riquezas minerais da flora e da água de casa região.

Discórdias institucionais e interesses corporativos remontam à colonização, numa sucessão que dificulta fixar quando começou e como se tem prolongado os problemas, multiplicados e agravados através dos séculos. Falta consciência de patriotismo, começando pelos desclassificados portugueses da colonização, sem a menor identificação com a pátria. Formamos uma nacionalidade desfigurada, na contramão dos países civilizados, entre os quais os Estados Unidos, por exemplo. Embora também colônia, aguçaram a visão patriótica, simbolizada na permanente reverência ao pavilhão nacional.

Para cultores das ciências sociais e defensores dos valores que fortalecem o país que integram, a falta de sentimento patriótico, e de conhecimento histórico, tornaram o Brasil um país perdido em si mesmo, sem a qualidade de nação. Em sua obra "A educação nacional" de 1890, José Veríssimo já se preocupava com o que chamava de "abandono do sistema de ensino" do Brasil, desde a monarquia, passando pelo início da república, quando o livro foi escrito. Dizia ele que o Brasil injetava burrice no DNA dos brasileiros pelo desprezo à cultura, tornando a falta dela característica hereditária em nosso país.

Já houve quem dissesse que a salvação do Brasil somente seria alcançada por uma revolução educacional, a exemplo de nações como a Coreia do Sul, que saiu do zero para a liderança internacional em todos os quesitos, a partir da modernização e investimento no sistema educacional. Sem isso, os raros setores preocupados com os destinos nacionais consideram que estaremos sempre "às vésperas" do imprevisível, continuando o Brasil a patinar no plano secundário mundial, e objeto de galhofas de sermos o país da piada pronta, à falta de seriedade e patriotismo que faltam às lideranças nacionais

Linomar Bahia
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