Linomar Bahia

Jornalista e radialista profissional. Exerceu as funções de repórter, redator e editor de jornais e revistas, locutor, apresentador e diretor de emissoras de rádio e televisão. Articulista dominical de O Liberal há mais de 10 anos e redator de memoriais, pronunciamentos e textos literários. E-mail: linomarbahiajor@gmail.com

Ponto de inflexão nazareno

Linomar Bahia

Difícil imaginar como serão os próximos Círio`s, depois do cancelamento da tradicional programação oficial e a iniciativa popular adotou formas alternativas de reverenciar a Santa Padroeira. Especialistas em eventos religiosos têm questionado as origens e costumes nestes 227 anos de procissões. Registram alterações circunstanciais, inclusive em consequência do advento de pragas sanitárias, em pontuais denominações, como o "coronavirus" de agora, mantendo, contudo, os traços históricos das festividades.

Por força da pandemia, vivemos nova experiência das celebrações, com lampejos das origens históricas, espécie de "ponto de inflexão" para usar expressão das tentativas de explicar mudanças de comportamento de alguma natureza. Mas há eventos que podem adotar a acepção do termo, como "um ponto sobre uma curva na qual a curvatura, derivada de segunda ordem, troca o sinal. A curva muda de ter curvatura côncava para cima, positiva, para concavidade para baixo, curvatura negativa, ou vice-versa".

É o caso de aplicação nas sucessivas mudanças na configuração e nos desvirtuamentos conceituais que as festividades Nazarenas têm sofrido nas últimas décadas, particularmente o Círio, por intervenções questionáveis nas últimas décadas. Em nome de uma pseuda "modernidade", ícones das celebrações foram perdendo a espontaneidade típica das manifestações dessa natureza. Antes denominada "quadra nazarena", deixou de ser dividida entre o "religioso", das novenas e procissões, coroadas pelo Círio, e o "profano", simbolizado pelo arraial, característico das festas populares, principalmente em homenagens a padroeiros de cidades, com seus parques de diversões, barracas embandeiradas e bancas de comidas típicas no simplório "fim da festa" das adjacências.

Modificações que desfiguraram as procissões e as festividades têm comprometido o sentido evangélico enquanto privilegia o lado mercadológico, que o próprio Papa tem condenado. Não há notícia de qualquer consulta aos milhões de fiéis, que deveriam ser os primeiros a decidir, fiel à prédica de que "a voz do povo é a voz de Deus", tornado mero coadjuvante de um evento do qual deverá ser o verdadeiro senhor, como fonte de fé e razão de tudo. Em que pese a boa vontade e a dedicação dos responsáveis,  restam as boas intenções. 

Ficaram distantes as tradições das romarias, retratadas na corda, com os promesseiros descalços, nos joelhos sobre o asfalto e nas réplicas de agradecimentos por graças alcançadas. Tantas "modernizações", também marcadas pelas "estações" e o distanciamento da Imagem dos fieis, criaram um "ponto de inflexão" das festividades para baixo, em detrimento da tradição, que até pode ter substituídos os carros de boi pela tração humana, mas jamais deveria abandonar, muito menos desvirtuar, o componente religioso.

Será que a Santa gostaria desses novos tempos? Pelo que se extrai das redes sociais, a proibição das festividades não impedirá que os devotos saiam às ruas e percorram os mesmos trajetos, seguindo uma berlinda improvisada, seguindo os ritos que refletem a fé e a reverência tradicionais a Senhora de Nazaré. Quem sabe, estes dias de lembrança das raízes, poderão ser oportunidade para revisão de conceitos, numa inflexão, que concilie o "novo" com o tradicional, como melhor homenagearia a Virgem Santificada.

Linomar Bahia
.

Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo!

Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é.

Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos.

Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!

ARTIGOS RELACIONADOS