Linomar Bahia

Jornalista e radialista profissional. Exerceu as funções de repórter, redator e editor de jornais e revistas, locutor, apresentador e diretor de emissoras de rádio e televisão. Articulista dominical de O Liberal há mais de 10 anos e redator de memoriais, pronunciamentos e textos literários. E-mail: linomarbahiajor@gmail.com

Nada a comemorar

Linomar Bahia

Há um dito popular, originário em língua espanhola, corporificado na frase "não acredito em bruxas, porém que existem, existem". Elas parecem efetivamente existirem, pairando como "carma" sobre momentos, pessoas e locais, considerados depositários de maus presságios, atraindo tudo quanto dá errado e causa de arrepios, exorcizados com credo-cruz e três batidas na madeira. Dificilmente existirá quem já não tenha vivido a experiência incômoda e sofrido a sensação desconfortável, irradiadas por pessoas e ambientes, tornando recomendável sejam evitados ou esquecidos, evitando o contágio da carga negativa que irradiam.

Por uma ironia da vida, a pandemia fez transcorrer o 60º ano de fundação de Brasília, no último dia 21 de abril, sem nenhuma celebração, numa cidade que carrega esse estígma. Pelo histórico das origens e a má fama nestes sessenta anos, nada teria a comemorar, estando mais para choro do que para velas. Parece terra amaldiçoada, acumulando uma sucessão de tragédias e escândalos  desde quando o governo lá foi instalado, com renúncia de um presidente, golpe de Estado, morte de um presidente eleito antes da posse, dois "Impeachment" presidenciais, cassações de parlamentares e prisões por corrupção, inclusive de dois ex-presidentes.

Está permanentemente no ar, à espera de respostas difíceis, senão impossíveis, a pergunta por que Brasília, nascida como fonte desenvolvimentista do país, passou a simbolizar, ao contrário, o que há de pior, sintetizado numa espécie de central de escândalos. Não por falta de esperança de tempos melhores, contida na frase do fundador, Juscelino Kubitschek, esculpida num totem da praça dos Três Poderes, dizendo “Deste Planalto Central, desta solidão, que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país, e antevejo esta alvorada, com fé inquebrantável, e uma confiança sem limites no seu grande destino.”

São tão raros os fatos positivos em Brasília que os episódios negativos assumem conotações aziagas, rotuladas por destacadas personalidades sobre espécie de má sina da capital federal, em contraste com a beleza arquitetônica e urbanística da cidade, construída pelos renomados Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. O próprio Niemeyer foi um deles, ao dizer, em meio à festa pelos seus 102 anos de vida, que "Projetar Brasília para os políticos que vocês colocaram lá, foi como criar um lindo vaso de flores pra vocês usarem como penico. Hoje eu vejo, tristemente, que Brasília nunca deveria ter sido projetada em forma de avião, mas sim de camburão".

Frase resgatada pelo cronista e escritor Ruy Castro,refletia a avaliação que sempre se fizeram da capital, ao dizer que, “Quem vá a Brasília e passe algumas horas nas imediações do Congresso ou dos ministérios, e converse com qualquer profissional afeito à área - motoristas de táxi, por exemplo, (...) sai com as orelhas fervendo sobre todo tipo de mutreta, já praticada ou em curso. Esse tipo de popular bem informado é inevitável em cidades onde política e negócios são quase sinônimos”. O teatrólogo Nelson Rodrigues como que arrematou essa conceituação, quando disse que  “em Brasília não há inocentes; todos são cúmplices”.

Tudo quanto operários da construção imaginavam não acontecer, nas esperanças e decepções, que dormiam numa parede escondida nos subterrâneos da Câmara dos d

Deputados e foram descobertas, por acaso, no dia 11 de agosto de 2011, na gestão do presidente Marco Maia. Buscavam. Entre as expectativas, escritas em 1959, pouco mais de um ano da inauguração da capital, uma vale como exemplo sobre a distancia entre o que era desejado e o que tem acontecido: "Que os homens de amanhã que aqui vierem tenham compaixão dos nossos filhos e que a lei se cumpra".  Tudo quanto nada haver a comemorar em aniversários de Brasília.

Linomar Bahia
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