Linomar Bahia

Jornalista e radialista profissional. Exerceu as funções de repórter, redator e editor de jornais e revistas, locutor, apresentador e diretor de emissoras de rádio e televisão. Articulista dominical de O Liberal há mais de 10 anos e redator de memoriais, pronunciamentos e textos literários. E-mail: linomarbahiajor@gmail.com

"Barbas de molho"

Linomar Bahia

Expressão nascida para definir determinada situação, tem ganho outros sentidos, ao longo dos tempos, nas adequações a circunstâncias e antevisões de consequências, em diversas atividades e comportamentos humanos. Nos últimos acontecimentos, tem valido como alerta a quantos podem estar sob suspeição, pelas mesmas práticas, motivadoras de indiciamentos e condenações de semelhantes e por idênticas razões. Passou a ser, mais uma vez, pontuada, em notícias e comentários, sobre os previsíveis atos de corrupção, que rondam aquisições superfaturadas de equipamentos e produtos de combate à pandemia do coronavirus.

Conta a história que, na Idade Média, a barba simbolizava a honra e o poder de quem a cultivava, diferente de hoje, quando tem sido mais associada ao modismo, nem sempre estético e cosiderado anti-higiênico. Um fio de bigode ou, de barba, era considerado mais valioso do que uma assinatura, sendo humilhante sua extração, ao refletir o descumprimento de compromisso asumido e negação da palavra, interpretados como desonra e consequente descrédito. Provérbio espanhol sintetiza que "quando você vir as barbas de seu vizinho pegar fogo, ponha as suas de molho", devendo todos aprenderem com as desditas alheias.

Mas ha várias explicações históricas para essa forma de cautela. Para o mestre da língua portuguesa Ayres da Mata Machado, a origem do termo na pobreza data do Brasil antigo. As casas dos lugarejos rurais "eram juntas e cobertas com um capim chamado "bargas", também denominado de "sapê". Fogões a lenha faziam crepitar fagulhas pelas chaminés, resultando algumas delas incendiarem, por vezes, a cobertura da casa ao lado. Em consequência, surgiu o hábito do vizinho da casa em chamas molhar seu próprio telhado, para evitar a ação das chamas, que encontrariam propagação fácil na folhagem utilizada nas coberturas.

Há, todavia, questionamentos sobre o que seria deformação da expressão, com a transformação da palavra "bargas" em "barbas" de molho, porque "a casa do vizinho está ardendo". Nesta nova temporada administrativa-judicial da prudencial, por as "barbas de molho" voltou a pairar sobre governadores, prefeitos e altos escalões dos diversos níveis da vida pública, nesta semana em que eclodiram as suspeitas e acusações, nas justificativas para o afastamento do governador Wilson Witzel no Rio de Janeiro, aparentemente irreversível, confirmando o venerando adágio popular, segundo o qual "onde há dinheiro, tem ladrão por perto".

Quando começaram a emprestar à pandemia conotações de paranoia coletiva, com as autoridades e uma espécie de cumplicidade de parte da mídia, beirando o crime de terrorismo, publiquei neste espaço artigos sobre as ocorrências e procedimentos convenientes. Em ao menos quatro deles, convidei o leitor a refletir sobre a constatação de que "nada acontece por acaso". Assim tem sido nas guerras e calamidades, tão previsível é a capacidade humana de tirar proveito em tudo quanto seja possível, tanto quanto, no Brasil de sempre, a corrupção somente tem mudado nos valores e nos personagens, mantendo fontes e processos.

Em 15 de março, "A pergunta que falta fazer", invocava a clássica pergunta da ficção policial, em que Sherlock Holmes indagava ao escudeiro Watson "a quem interessa o crime", como linha inicial de investigação para descobrir o criminoso. Em "Outros lados da moeda", de 22 de março, referia aos oportunistas na exploração do mal para lucrar o bem. No texto "Há outros vírus, ainda piores", em 12 de abril, referia aos aproveitadores da desgraça alheia, praticando a máxima maquiavélica de que "os fins justificam os meios". E, em "Coronajato", a próxima atração", previa, em 3 de maio, a ladroeira nos bilhões destinados ao combate ao covid-19.

Sucessivas operações de busca e prisão, passaram a ser quase rotineiras nos dias seguintes sinalizando uma amplitude nacional e colocando em alerta agentes públicos de todo o país. Sejam "bargas" ou "barbas", suspeitos em potencial e outros já atingidos por operações anteriores, devem estar de "molho" por inteiro. Independente das cadeias a que vieram a ser encaminhados, já receberam a penalidade da opinião pública, pelo descrédito popular e consequente aposentadoria compulsória da vida pública, já prenunciada com a perda de força eleitoral na próxima eleição municipal. O crime pode estar deixando de compensar. Pelo contrário.

Linomar Bahia
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