Juliana Diniz

Análises e opinião sobre política, filosofia e atualidades pelo olhar da doutora em Direito e professora da Universidade Federal do Ceará, Juliana Diniz. | julianacdcampos@gmail.com

Um presidente sem oposição

Juliana Diniz

Uma eleição tem sua narrativa desenhada anos antes do dia da votação. Embora seja um processo com dinâmica difícil de prever, há sempre um aspecto que é definido com cálculo: os nomes em disputa no pleito. A eleição presidencial de 2022 não será diferente, e contará com uma peculiaridade adicional: não se tem notícia de outra eleição presidencial no Brasil em que os nomes tenham sido debatidos com tanta antecedência.

Existe uma razão para tanto: a complexa ambiguidade entre a instabilidade do governo, de um lado, e a resiliência de um percentual significativo de aprovação popular, do outro. A presidência sob Bolsonaro atravessou crises não desprezíveis. Perdeu estrelas como Sergio Moro, amargou escândalos de corrupção e vai capengando pandemia abaixo, tendo o Brasil uma das piores gestões da crise sanitária no mundo. Apesar disso, conta com um índice importante de aceitação popular e uma capacidade de sobrevivência política digna de nota.

É a instabilidade de seu governo e a necessidade permanente de manter a aprovação do estrato fiel que justificam a postura obsessiva do presidente com a reeleição. Bolsonaro parece nunca ter saído de campanha e menciona com frequência o ano de 2022 como uma marca temporal que motiva seu desejo de viver. “Nos vemos em 2022!”, foi o que respondeu ao grupo de parlamentares que se manifestavam durante a posse de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco na presidência das casas legislativas. Sua atenção sempre esteve voltada ao projeto de se manter no cargo pelos oito anos, custe a cabeça que custar.

Bolsonaro conta com a fragmentação do campo político, à esquerda e à direita. Entre os partidos de oposição na esquerda, permanece uma inércia ressentida e incapaz de articulações originais e estrategicamente inteligentes. Os efeitos do paternalismo da figura carismática de Lula e da centralidade histórica do PT cobram agora um preço alto: o partido amarga índices de rejeição popular impactantes, e deixa um vácuo de representação, fruto de um discurso que associa o PT a corrupção, desmando e vício.

À direita, o que vemos é um Democratas capturado pelos interesses pessoais de ACM Neto, um centrão sempre disposto a negociar vantagens e um PSDB em franca disputa interna por protagonismo. Os movimentos de bastidor durante a semana mostram como Bolsonaro vai encontrando suas chances: seus adversários brigam entre si implacavelmente. Quem tem mais chances de ser o antagonista que, longe da esquerda, servirá de opção ao eleitor em 2022?

O nome que a direita almeja para oferecer como alternativa a quem votou em Bolsonaro, detesta o PT, mas guarda algum senso de civilidade.  Quem será a voz “moderada e sensata”, capaz de acalmar os ímpetos do mercado e devolver ao país algum senso de institucionalidade protocolar?  

A resposta parece nebulosa. Rodrigo Maia tentava transformar o DEM no partido âncora de uma oposição de centro-direita, mas foi traído pelo caminho. Dória é midiático, afoito e indigesto demais entre seus pares para ser aclamado. Uma disputa de bastidor que nos interessa acompanhar: ela dá pistas das chances de vitória de Bolsonaro no pleito que ele tanto espera viver.

Juliana Diniz
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