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JULIANA DINIZ

julianacdcampos@gmail.com

Análises e opinião sobre política, filosofia e atualidades pelo olhar da doutora em Direito e professora da Universidade Federal do Ceará, Juliana Diniz.

Marcelo Queiroga, o quase-ministro

Juliana Diniz

Já tive a oportunidade de compartilhar por aqui meu amor quase inconfessável pelo Nelson Rodrigues. Poucos observadores da sociedade brasileira foram tão cuidadosamente perversos, contraditórios e geniais quanto o anjo pornográfico. O Nelson entendia bem das ambiguidades da alma humana e mais ainda dos vícios ligados aos círculos de poder do Brasil. Como bom frasista, o dramaturgo carioca conseguia sintetizar, de forma magistral, em poucas palavras, as mais terríveis conclusões sobre o caráter do brasileiro (ou a falta dele), sem deixar de nos oferecer um humor quase relaxado, complacente com as revelações impuras que ele cuidava de expor pela crônica.

Pois foi o genial Nelson a afirmar que nada mais triste e barnabé que um ex-presidente. O ex é um sujeito empalhado, condenado a viver à sombra da glória passada, eternamente saudoso do séquito de assessores e bajuladores perdido. Eu acrescentaria, para fazer graça, que nada mais triste que um ex-ministro, especialmente para aqueles que nunca chegaram a sê-lo plenamente, como acontece com o sereno Marcelo Queiroga, atual ministro da Saúde. 

O médico que responde pela pasta é uma figura triste, a voz pausada que denuncia um ar de subserviência incorrigível. Por ter chegado ao ministério após a passagem de Luís Henrique Mandetta, Nelson Teich e Eduardo Pazuello, Queiroga já iniciou os seus trabalhos como um amaldiçoado: não tem a retórica refinada do ex-deputado, a brevidade insípida de Teich ou a falta de vergonha de Pazuello, mas acabou por herdar o espólio indigesto do caldo de todos. Não poderia imaginar destino mais infeliz.

Em seu colo, caiu um projeto impossível: por ordem na baderna administrativa agravada pelo general que lhe antecedeu, não desagradar um presidente da república inseguro e voluntarioso e reestabelecer algum vínculo de comunicação com os veículos de imprensa. O ministro precisaria ser técnico, mas nem tanto, autônomo, mas não às vistas de todos, ativo, sem muita inventividade. Uma tarefa hercúlea, que renderia calafrios ao mais corajoso dos homens. Por essa audácia, lhe devemos algum respeito.

Mas eis que, durante a semana, o previsível aconteceu: Jair Bolsonaro, mais uma vez, encurralou seu ministro da Saúde em exercício, incitando-o a adotar uma medida temerária e manifestamente contrária a qualquer bom senso. O presidente anunciou que o ministério liberaria o uso da máscara para os vacinados e os já curados da covid-19 - uma decisão que vai na contramão das orientações mais básicas para o controle sanitário da doença.

Dias depois de uma nova aparição na CPI da Pandemia em que teve de admitir, quase à meia-voz, que a cloroquina não funciona, Queiroga atuou para “apagar o incêndio” de seu presidente, esclarecendo ao brasileiro que, por favor, não deixe de usar o equipamento de segurança. Ao botar panos frios nos absurdos de Bolsonaro, o ministro engoliu a seco a vaidade e riu amarelo, mostrando que o seu apego ao cargo sobrevive à mais inimaginável das vergonhas: a de, sendo ministro, não mandar em coisa alguma. E às vistas de todos. Por isso, certo o saudoso Nelson, nada mais triste e barnabé que um ex-ministro.

Juliana Diniz
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