Juliana Diniz

Análises e opinião sobre política, filosofia e atualidades pelo olhar da doutora em Direito e professora da Universidade Federal do Ceará, Juliana Diniz. | julianacdcampos@gmail.com

A educação esquecida pelo Estado

Juliana Diniz

O avanço de 2021 despertou a sociedade brasileira para uma urgência tão importante quanto as vacinas: o retorno às atividades das escolas públicas. No ano passado, a paralisação sem prazo certo da vida escolar das crianças e adolescentes foi absorvida por políticos e especialistas em saúde púbica como um custo inevitável. Foi assim que deixamos mais de 5,5 milhões de crianças e jovens sem qualquer tipo de acompanhamento escolar durante quase um ano inteiro, conforme dados divulgados pelo UNICEF.

A duras penas, o ensino superior tem ensaiado alguma continuidade desde que as quarentenas passaram a se estender, ainda no primeiro semestre do ano passado. Os professores engoliram a seco as dificuldades de adaptação, e as instituições tentaram suprir desigualdades de inclusão digital entre os alunos. Funciona mal, as deficiências são inúmeras, mas seguimos trabalhando há meses nas universidades, embalados pela nostalgia da sala de aula.

Ao contrário dos adultos, que podem se enganar com alguma capacidade de concentração diante das telas, as crianças e os adolescentes pedem mais esforço da sociedade. Sua educação não pode ser facilmente suprida pela modalidade remota, pois educá-las não envolve apenas transmitir um determinado conteúdo de forma esquemática, mas sim colaborar de forma global e complexa para o desenvolvimento da sua inteligência, sensibilidade e integridade moral. A educação das crianças e dos jovens nos revela a importância da instituição escolar para esse projeto compartilhado de humanizar pessoas, de colaborar para o florescimento de sua melhor versão.

O ensino remoto é insuficiente para tanto, e as famílias não conseguem, por ausência de formação, de tempo, de saúde mental e capacidade financeira, substituir o ambiente escolar. Para as famílias das classes média e alta, o fechamento das escolas começou a se tornar insustentável. Foi graças a uma ampla pressão da opinião pública e das perdas econômicas do segmento que os gestores autorizaram no ano passado uma solução perversa, que deixou exposta a insensibilidade brasileira com a temática da desigualdade: o retorno das escolas particulares, sem a perspectiva de quando o ensino público voltaria a funcionar.

O ano virou e as autoridades em saúde já admitem que é preciso levar a sério a tarefa de reabrir as escolas públicas. A pandemia não acabará tão cedo, e não é possível abandonar as crianças e o jovens da escola pública assim à própria sorte: a taxa de abstenção recorde no Enem foi uma demonstração amarga do buraco em que estamos. Não é difícil projetar que os selecionados para a universidade pública neste ano sairão de um estrato social protegido e privilegiado.

A solução não é simples e passa pelo cuidado com a saúde dos professores, que deveriam estar entre as prioridades urgentes da vacina, e pelo zelo com a higiene das escolas pelos gestores. Simplesmente distribuir tablets, chips e esperanças não é suficiente: quase nenhuma criança ou jovem terá o silêncio de um cômodo confortável onde se concentrar e a dedicação de um adulto com formação para ajudá-lo com as sombras que um professor, em presença, poderia aclarar.

Juliana Diniz
.

Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo!

Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é.

Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos.

Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!

Últimas de Juliana Diniz