Integrante do grupo 'Venezuelanos Belém' rebate acusações de estelionato e difamação

As denúncias contra o grupo foram feitas pela Prefeitura Municipal de Belém

João Thiago Dias

A empresária Sofia Paz, integrante do grupo Venezuelanos Belém, que arrecada alimentos para indígenas Warao que estão refugiados na capital, rebateu, na tarde desta quarta-feira (27), a nota da Prefeitura Municipal de Belém de que a equipe estaria cometendo estelionato e difamação. Segundo a empresária, a denúncia seria uma tentativa de desconstruir a credibilidade do grupo para que ele não possa denunciar a falta de estrutura nos abrigos municipais que acolhem os refugiados.

"Estão falando desses dois crimes, mas vão ter que provar, porque nós temos como provar que não estamos fazendo nada ilegal. Somos 200 integrantes sérios, dentre médicos, empresários, policiais. Ninguém precisa usar um trabalho tão bonito para pegar dinheiro de forma ilícita. Muitas vezes, usamos dinheiro do nosso próprio bolso para ajudar os venezuelanos", disse Sofia, que concedeu entrevista na casa dela.

"Todas as doações que chegam, a gente faz a entrega e registra com fotos e vídeos. As doações em dinheiro, fazemos as compras necessárias e temos nota. Tudo comprovado no nosso instagram", garantiu. "Querem desconstruir um grupo que existe há dois anos. Ficamos ofendidos com as denúncias e vamos judicializar de forma coletiva. Eu vou judicializar de forma individual também, porque fui citada em uma entrevista na televisão", detalhou Sofia.

De acordo com a empresária, a denúncia sobre difamação teria surgido após o grupo ter denunciado, por meio do instagram, uma possível negligência em relação a um bebê Warao que estava no abrigo da avenida João Paulo II. "Para um grupo entrar num abrigo da Prefeitura para tirar uma criança com desnutrição de lá e salvar a vida dela, é muito sério. Acredito que estão fazendo essa comunicação na mídia para nos descredibilizar por conta da denúncia de negligência do bebê".

O bebê Warao, de um mês e meio de idade, foi abandonado pelos pais adolescentes e internado no Hospital Abelardo Santos, em Icoaraci, na última quinta-feira (21), apresentando um quadro de desnutrição e desidratação grave, mas já está fora de perigo. Na terça-feira (26), a Diretoria Técnica do Hospital informou que, desde a internação, o recém-nascido engordou 500 gramas, está fazendo uso de soro para hidratação e se alimentando com leite materno.  

O caso tomou proporções públicas na sexta-feira (22), após o movimento Venezuelanos Belém compartilhar a história nas redes sociais, pedindo doações de roupas e fraldas para a criança. Segundo Sofia Paz, depois de nascer, a criança teria sido encaminhada para o abrigo da avenida João Paulo II, junto dos pais, onde teria passado fome e sofrido com a falta de hidratação e de cuidados médicos.

Sobre a denúncia de estelionato, a empresária garante que há um mal entendido de apuração. "Fomos informados, pelos próprios indígenas do abrigo da avenida João Paulo II, que a Prefeitura conversou com eles, perguntando se a 'Sofia' chegou lá com os alimentos. Eles disseram que não. Mas eu só estive lá para cuidar do bebê. Foram outros integrantes do grupo que levaram os alimentos. E temos tudo registrado em fotos e vídeos", pontuou.

A nota sobre as denúncias

Na terça-feira (26), a Prefeitura de Belém publicou, por meio do facebook, a nota com o título de "Estelionato e difamação". "A Prefeitura de Belém tomou conhecimento de que uma conta no instagram denominada @VenezuelanosBelem vem arrecadando doações de alimentos e dinheiro em nome de indígenas refugiados. No entanto, toda a arrecadação não chega para quem é anunciado como destinatário, fato comprovado e que motivou denúncia para que o Ministério Público e a Polícia Civil investiguem o caso", disse o primeiro trecho.

"Diante da denúncia, na última sexta, dia 23, estabelecimentos comerciais cadastrados para receber doações voluntárias abandonaram o projeto. No sábado, equipe da prefeitura comprovou que nenhuma doação havia sido repassada aos abrigos", acrescentou a nota, que foi acompanhada de um vídeo reforçando a denúncia com depoimento da presidente da Fundação Papa João XXIII (responsável pelos abrigos), Adriana Azevedo, e do representante jurídico da fundação, Alcemir da Costa.

Nova nota da Prefeitura de Belém 

Após as declarações da empresária, a Prefeitura de Belém, por meio da Funpapa, se manifestou com uma nova nota, enviada ao Grupo Liberal. Segundo o texto, a gestão municipal realiza, semanalmente, a entrega de alimentos e produtos de limpeza para os dois abrigos administrados pelo município. Além da política pública de assistência, a Prefeitura afirma que realiza o trabalho de saúde e educação com os migrantes venezuelanos.

"Com relação a notificação, foi encaminhado ofício para Delegacia Geral da Polícia Cívil para abertura de Termo Circunstancial de Ocorrência (TCO) e encaminhado para a Procuradoria Geral do Município (PGM), órgão jurídico da prefeitura", detalhou a nova nota.

A Secretaria Municipal de Saúde de Belém (Sesma) informou que desenvolve um cronograma semanal de atendimento em saúde aos índios venezuelanos, desde a chegada deles à capital. O acompanhamento é realizado pelas equipes do Consultório na Rua (CnR).

"Na tentativa de diminuir os agravos, a equipe CnR implantou algumas linhas de cuidados que ainda estão se adequando ao público, dentre elas: pré-natal, saúde da criança, testagem para tuberculose, imunização, e o cuidado integral de paciente soropositivo para HIV", destacou a nota.

"Atualmente, o Consultório de Rua vem monitorando cerca de 540 venezuelanos, que estão espalhados por principais nove pontos na cidade, sendo três deles os abrigos da prefeitura e do governo do estado. Todos os grupos que chegam ao município recebem vacinação contra sarampo, caxumba, rubéola, febre amarela, gripe e hepatite B. As crianças seguem calendário vacinal recomendado nas unidades de saúde e são acompanhadas pela equipe do CnR.  Também são tomadas todas as medidas de controle para doenças, inclusive com atendimentos técnicos e encaminhamento à rede de saúde", acrescentou.

A Sesma também ressaltou que, mesmo com suporte de atendimento da equipe, a condição social dos Warao (com o processo migratório intenso e ativo), os costumes e hábitos deles colaboram para a condição do agravamento de saúde.

"Apesar de terem comida diariamente, culturalmente, a alimentação dos indígenas, segundo próprio relato, é baseada em carboidratos, gordura e proteínas. Mesmo com a oferta de uma dieta balanceada, não optam por alimentos que contribuem para um sistema imunológico saudável. Na higiene pessoal constatou-se a ausência de práticas que favoreça a boa saúde. O hábito de escovar dentes é quase inexistente entre os mais velhos e crianças menores, sendo praticada somente entre os adolescentes e adultos mais jovens", explicou.

"Levando em consideração o desconhecimento por parte dos indígenas sobre o processo saúde/doença são realizadas intervenções na perspectiva de promoção de saúde e prevenção de agravos, contudo, os adoecimentos são recorrentes e com agravamentos significativos, fazendo com que a equipe de saúde CnR trabalhe com demandas de urgência e emergência", concluiu a nota da Prefeitura de Belém.

Belém
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