Dia de Cosme e Damião é marcado por distribuição de doces e sincretismo religioso
Enquanto religiões afro-brasileiras comemoram no dia 27 de setembro, a Igreja Católica celebra na véspera
O Dia de São Cosme e São Damião é celebrado, anualmente, em 27 de setembro. Entretanto, no Brasil, a construção religiosa traz um marco: o festejo também é comemorado no dia anterior, 26 de setembro. A data dupla ocorre devido ao sincretismo entre religiões afro-brasileiras e a Igreja Católica.
Com mais de 100 anos de tradição, o Terreiro de Mina Dois Irmãos, no bairro do Guamá, em Belém, está em preparação para a festa. Entre as atividades, há brincadeiras e distribuição de guloseimas para crianças de todas as idades, e adultos também. Responsável pela casa, Eloísa Oliveira, conhecida como Mãe Eloísa de Badé, explica que a celebração de 27 de setembro exalta a caridade, união e pureza das crianças. “Para nós, esse dia aqui é de muita alegria. É um dia que a gente tem um prazer enorme de distribuir bombons, de ver a casa cheia de crianças e ver a alegria das crianças”, falou.
Eloísa diz que todas as festas são importantes para a casa, mas há diferenciais no Dia de Cosme e Damião. Nesta quinta-feira (24), o pátio já está ornamentado com panos listrados, contendo as cores verde, branco e vermelho, e alguns pacotes de guloseimas já estão no local.
Doçura das crianças
A escolha dos doces não é por acaso. Pirulitos, pipocas, bombons e chocolates são escolhidos devido à afinidade das crianças com os itens, segundo Eloísa. “O doce mais do que representa a criança. Qual é a criança que não gosta de um doce?”, questionou.
Na véspera, os filhos da casa, como são chamados os frequentadores do terreiro, se reúnem para a organização dos pacotes que serão distribuídos. Entre eles, está Claudete, de 45 anos. Ela é filha da casa desde 2006. “No sábado a gente senta, põe as esteiras no salão, rasga os sacos de bombons, de pipoca e aí a gente vai ensacar. Ano passado nós fizemos 700 e poucos sacos de bombons”, contou.
A história por trás dos santos
Apesar de a tradição popular ter associado São Cosme e São Damião à imagem infantil, a história dos dois santos é anterior às representações construídas ao longo dos séculos. O historiador Márcio Neco explica que os irmãos foram médicos e viveram na Ásia Menor, durante o século III.
“Quando nós falamos, é sempre necessário um cuidado muito grande por conta da historiografia e por conta da tradição popular que se desenvolveu em torno desses santos. Cosme e Damião, que eram de fato médicos, não eram crianças. Eles viveram na Ásia Menor, na Síria, no século III, e eles cuidavam das pessoas sem cobrar as consultas. A tradição popular fala que eles costumavam levar doces para as crianças, para amenizar as tristezas. Por conta das perseguições aos cristãos, eles foram degolados, martirizados. Eles foram degolados e mortos pelo imperador Diocleciano, na perseguição contra os cristãos. Isso vai fazer com que eles se transformem em mártires. Podemos reparar que eles geralmente estão com palmas na mão, e isso representa as palmas do martírio, no caso”, explicou o historiador.
A mudança da data no calendário católico também está relacionada a uma reorganização litúrgica feita pela Igreja. Segundo Márcio Neco, a alteração não teve como objetivo confrontar as celebrações populares ligadas às religiões de matriz africana.
“Na década de 60, quando a Igreja resolve reformular essa data, ela não visava ir contra as tradições e celebrações de matrizes africanas. O dia 27 de setembro é celebrado um santo muito popular, muito seguido, de uma devoção muito grande, que é São Vicente de Paulo, um santo da caridade. E, por conta disso, a Igreja achou melhor trazer Cosme e Damião do dia 27 para o dia 26, no calendário litúrgico. Popularmente, eles vão ser celebrados no dia 27. Mas essa questão prática, para que fossem vivenciadas as duas datas da melhor forma para os fiéis, em nada a Igreja Católica diminuiu a vida e o exemplo dos dois santos”, disse.
Sincretismo e tradição no Pará
A associação dos santos com crianças ganhou diferentes significados a partir do encontro entre tradições religiosas. O historiador destaca que, na cultura iorubá, os erês estão relacionados às brincadeiras e à diversão e que essa representação acabou sendo associada a Cosme e Damião no processo de sincretismo religioso.
“Na cultura iorubá, erês não são crianças, são brincadeiras, diversão, que acabam sendo associadas a Cosme e Damião. E isso se dá pelo sincretismo religioso. A devoção a Cosme e Damião inicia no Brasil em 1535, em Pernambuco, onde é construída a primeira igreja para Cosme e Damião. No Pará, terá essa devoção chegando pelos portugueses e sendo ressignificada, seja pelos africanos ou indígenas. Uma característica muito forte é a distribuição de bombons na festa para Cosme e Damião. Ela é muito forte no Pará. É um aspecto que temos no Brasil todo. Em outros locais, esse dia de Cosme e Damião é mais celebrado com os carurus, servido para sete crianças. Na tradição popular, Cosme e Damião teriam mais cinco irmãos”, comentou Neco.
A presença dos doces e das crianças nas celebrações, portanto, passou a fazer parte da própria paisagem das festividades em diferentes regiões do país. No Pará, a tradição dos bombons ganhou uma dimensão particular, sendo incorporada às manifestações de fé e cultura popular.
“Eles são muito mais vistos pela religiosidade popular, pela cultura e pela tradição popular, do que de uma forma ortodoxa. Sim, existiram os médicos. Sim, existe toda uma sabedoria ancestral das culturas de matriz africana, mas é interessante perceber a figura das crianças, a palma do martírio, a distribuição dos bombons, a distribuição do caruru. O Dia de São Cosme e Damião movimenta o comércio dos caramelos e toda a paisagem urbana mais afastada do centro. Uma grande quantidade de crianças correndo atrás dos bombons”, falou o historiador.
A festa no terreiro
As crianças menores são as que entram e participam do festejo no salão. As maiores, por outro lado, ficam na parte de fora, na frente do terreiro. Quando a distribuição dentro da casa finaliza, os filhos pegam os demais bombons e jogam no “pisão”, como é chamado o momento, para as demais. “Eu adoro fazer isso, é muito legal. A gente joga lá na rua para os grandes, porque também não deixam de ser crianças. Todos nós temos uma criança dentro de nós”, falou Eloísa.
Durante a celebração, os ibejis (também nomeados de encantados) vão ao terreiro para brincar com os pequenos, de acordo com Mãe Eloísa. “Quando eles estão brincando com as crianças, eles estão fazendo cura, eles estão abençoando as crianças. Para nós, isso é muito importante”, explicou.
Para o historiador, a força da tradição também está justamente na maneira como diferentes elementos religiosos e culturais foram incorporados à celebração ao longo do tempo.
Combate à intolerância religiosa
A diversidade de interpretações em torno da celebração também pode gerar associações equivocadas. Márcio Neco chama atenção para a necessidade de diferenciar as tradições religiosas e culturais das interpretações que relacionam a festa a práticas demoníacas.
“É importante fazer uma distinção. Eles passam por um processo de demonização no Dia de São Cosme e São Damião, que passam a associar os santos a demônios, a enfeitiçados, a pactos demoníacos, que não têm nada a ver com a festa. Precisamos perceber que tais comentários são puramente reflexo de intolerância religiosa”, afirmou.
Para ele, a celebração também representa um exemplo de como diferentes matrizes culturais e religiosas se encontraram e produziram novas formas de expressão da fé no Brasil, especialmente na Amazônia.
“O dia revela a diversidade. No campo da religiosidade popular existem infinitas expressões e infinitas ressignificações. É uma devoção católica que chega no Brasil e é ressignificada pelas culturas africanas, pelas culturas amazônicas, e transforma uma devoção em uma grande expressão de fé e alegria popular. Pessoas que conseguem captar recursos para, nesse dia, distribuir bombons. Eu tenho um processo sincrético, mas eu tenho neste gesto devoção, cultura popular, história. É importante essa tradição ser analisada, estudada e preservada, porque ela reflete justamente essa diversidade, esse encontro, esse encruzilhamento das religiões de matriz africana, cristã e indígena nas terras da Amazônia e do Brasil”, concluiu o historiador.
Um ato de agradecimento
Indo além de uma data festiva, o Dia de Cosme e Damião é, também, um ato de agradecimento para os frequentadores do Terreiro de Mina Dois Irmãos. “Há muitos anos que é feito dentro da casa. Para nós, é uma retribuição de todas as graças que alcançamos”, finalizou Eloísa.
Igreja Católica
Na Igreja Católica, a comemoração ocorre em 26 de setembro. Em Belém, a Comunidade de São Cosme e Damião, da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, realiza uma missa neste sábado (26), às 19h. A paróquia está localizada na rua Cesário Alvim, número 565, no bairro da Cidade Velha.
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