Cores do Odivelismo

Lorena Filgueiras

Nascido em São Caetano de Odivelas, no Nordeste paraense, o jovem artista plástico And Santtos tem levado um pouco da cultura [e cores] da sua cidade aonde quer que vá. Os traços e conceitos impressionam pela verdade que carregam, uma vez que And procura retratar muito do que viveu às margens do rio Mojuim. Este estilo único, nosso entrevistado especial, batizou de “Odivelismo”, por toda a carga emocional e cultural que carrega – e já desponta no cenário nacional e internacional. Guardem bem o nome dele e, entrementes, acompanhem o bate papo que tivemos com esse artista incrível.

Troppo + Mulher: And é de Anderson, certo? Você decidiu adotar o nome espontaneamente ou teve uma ajuda da numerologia aí?
And Santtos: Sabe que teve?!? Quando eu comecei a minha carreira, assinava como “Anjo”. O meu nome completo é Anderson José e eu decidi juntar os dois primeiros nomes: ficou “Anjo”, mas isso foi há uns 15 anos, quando estava iniciando. Mas tem uma história curiosa por trás dessa mudança, porque eu queria mesmo assinar com um nome que fosse mais próximo do meu. Quando eu estava no convênio, os jovens todos iam para a Praça da República e um dia, quando estávamos lá, passamos por uma moça, que era numeróloga e ela me chamou. Eu não acredito muito nessas coisas, mas ela me chamou e eu fui. Perguntou meu nome completo e fiquei bem desconfiado. Mas ela afirmou que “algo em mim tinha chamado atenção dela” e foi direto ao ponto: “você precisa mudar seu nome”. Ela não me conhecia, não sabia o que eu fazia. Dei meu nome completo e ela fez lá as coisas dela. E ela chegou ao And e sugeriu que eu assinasse Santos, mas faltava uma letra e ela disse: “acrescenta um ‘t’”. Ficou And Santtos. Até voltei na Praça da República, mas não a encontrei mais. 

T+M: Um lance bem “não creio em bruxas, mas que existem, existem”...
AS: É!

T+M: Mas, e aí? Teve resultado?
AS: Nossa, ajudou muito! Por mais que eu não acreditasse, não havia porque duvidar. Acho até que acreditei, porque tomei como verdade.

T+M: Comecei a entrevista de maneira diferente, mas me permite voltar um pouco? Como foi teu início? Nasceste em São Caetano de Odivelas, não?
AS: Nasci e vivi a minha infância toda ali na beirada do rio Mojuim, naqueles barcos e nas canoas...

T+M: Teu pai era pescador, And?
AS: Sempre foi! O nome dele é Pedro, vulgo Zito, como todos o conhecem. Hoje em dia ele já é aposentado e vai fazer 80 anos. Minha mãe, Maria de Nazaré, sempre foi funcionária pública da Prefeitura de lá e é conhecida por Nazica. Aposentada também. Sabe que em interior, todo mundo se conhece pelo apelido. Somos 8 filhos e eu sou o “segundo caçula”. A vida no interior sempre teve dificuldades: financeira, de estrutura.

T+M: As dificuldades te levaram pra fora? 
AS: Sempre fui independente desde moleque. Meus pais me ensinaram isso e estudava no turno intermediário, porque de manhã eu saía de casa para vender unha de caranguejo ou chope e, quando saía ajudava o papai. Mamãe me matriculou no intermediário justamente porque precisávamos ajudar em casa. Mas foi essa independência que me garantiu poder de compra: eu mesmo pagava por minhas sandálias, roupas... eu pagava meus sorvetes... Sentei para conversar com meus pais, especialmente com a minha mãe, que era com quem eu mais me abria e disse que quando completasse 18 anos, eu sairia de casa, porque queria trabalhar com carteira assinada. Saí de lá para trabalhar numa empresa de Barcarena, onde eu fazia letreiros [placas].

T+M: E como foi descobrir esse talento para letreiros?
AS: A minha base de criação foi toda adquirida em São Caetano, à beira mar. Eu abria [fazia] muitas letras de barcos. Lá na cidade, tinha uma pessoa, que era uma referência pra mim, quando o assunto era letras para barcos: o mestre do Reis. E era “do” Reis, porque ele era do dia 06 de janeiro, do dia de Reis. Eu via as letras que ele fazia e eram extraordinárias de bonitas. Ficava vendo e quis aprender. Fui à oficina dele e pedi que ele me ensinasse, mas ele já era um senhor de muita idade. 

T+M: Interessante que esses conhecimentos estão se perdendo, né? Lembrei de uns anos atrás, em Bragança, que os artesãos se ressentiam muito porque os mais jovens não queriam aprender a fazer as rabecas. Claramente, destoavas dos demais jovens da tua idade...
AS: Verdade, mas olha, eu já tinha a ânsia de me expressar artisticamente. Quando aprendi a abrir as letras de barco, eu já pensava em modificar de alguma maneira, mas trazendo para a minha linguagem. Então quando eu abria as letras, eu comecei a acrescentar traços meus e incluía um desenho de um peixe, de uma pescada, uma dourada no casco do barco e era um diferencial. Era tradição escrever o nome do barco na frente e o número da zona, atrás. Eu invertia, para poder mexer na estética e sair daquela formalidade. Eu tinha 13 anos e as dificuldades de informação, tecnologia eram imensas. A minha fonte de pesquisa para letras era a agência dos Correios. Sempre sobravam muitas revistas lá e eu pedia para ficar com algumas, como Veja, Istoé... Foram essas revistas que me ajudaram a formar novas letras, que eu já utilizava nos estabelecimentos comerciais. Não tinha computador, então eu rasgava as letras que me interessavam, bem como destacava algumas imagens para poder estudar os ângulos. 

T+M: E como se deu a evolução para os desenhos?
AS: Eu já desenhava na escola, fazia as capas dos trabalhos das turmas. Nessas revistas, vez ou outra, havia entrevistas com artistas plásticos – e eu não fazia ideia do que era um artista plástico. Mas havia fotos de quadros e me interessei em transpor aquela imagem para o papel ou tela.

And Santtos (Estúdio Tereza & Aryanne)

T+M: Quem te apresentou para a tela?
AS: Havia uma pessoa em São Caetano, o nome dele era José Maria, que pintava as igrejas, toda vez que tinha alguma festividade na cidade. E ele pintava extraordinariamente bem. Imagens realistas! E eu ficava olhando. Pensava: “um dia quero chegar neste ponto”. Hoje eu tenho outras referências, como o Caravaggio [pintor italiano, que viveu entre 1571 e 1610] e suas profundidades e o José Maria foi a minha maior referência. E sempre conversava com ele. Era mais tímido, mas, mesmo assim, eu ia à casa dele e via as obras. Foi quando me deparei pela primeira vez com uma tela. Ele pegava os sacos de açúcar, que eram uma espécie de lona e esticava. Ele era artesão e ele próprio fazia a estrutura de madeira e, desta forma, ele fazia as próprias telas. Voltei para casa e comecei também a produzir minhas telas: pegava sacas de açúcar e esticava. O material que eu utilizava ainda era tinta PVA, misturado à bisnaga e corantes. E o pincel? Cheguei a fazer pincel de mato mesmo – produzia meus pinceis. E influenciei alguns amigos, que curtiam, a fazer suas lonas e pinceis. Eu tinha tempo para tudo isso: estudar, trabalhar, ajudar meu pai, pintar e jogar futebol [ele ri]. Ah, e fui coroinha! Por sinal, quando fui coroinha, comecei a me interessar por música. São Caetano é uma terra muito musical e há duas bandas lá que têm mais de cem anos. Estudei música também, de maneira até autodidata. Bom, mas antes de ir para Barcarena, tive os muros de São Caetano.

T+M: Muros?
AS: [ele ri novamente] Pois é: muros! Os muros estavam muito sem vida e decidi começar a pintá-los. Às vezes, ao lado do comércio, havia um muro e eu entrava em consenso com o comerciante para convencê-lo a financiar a pintar o muro. Se ele não aceitasse, eu pegava o dinheiro do meu pagamento e reinvestia só para poder fazer uma interferência no muro. A minha vontade era grande de pintar! O primeiro muro ficou coloridão. Todo mundo aprovou.  Era uma paisagem de rio – coisa que eu nem pinto mais. Mas ficou realmente bonito, embora faltasse uma linguagem cultural, até que chegou junho e, com ele, as festas juninas. Era só o que eu precisava: comecei a sair do tradicional e incluí as máscaras [dos pierrot, personagem típico do boi de São Caetano] e fitas.

T+M: Daí nasceu o ‘Odivelismo’?
AS: O Odivelismo veio de tudo isso que eu vivi, da falta de oportunidade, das dificuldades, mas o Odivelismo não veio pronto. Ele foi intuitivo. Houve um momento em que pensei: “pronto, tenho que adotar meu próprio estilo, até porque já o encontrei”. Como sou de Odivelas, um belo dia dormi e acordei com a palavra “Odivelismo”. 

T+M: Olha aí o “acaso” agindo de novo na sua vida...
AS: E não é? Aí eu fui contextualizar e aprofundar o Odivelismo. O que ele é? E assim, fui definindo.

T+M: Tem uma coisa que me chamou atenção, quando olhei tuas obras, que foi perceber que as paisagens são cinzas, enquanto que os personagens, quase sempre caracterizados, são bem coloridos. Isso é proposital?
AS: Totalmente! Apesar do colorido e isso chamar atenção, em contraste com o cinza, a mensagem é bem espontânea...

T+M: Não romantizar a vida do odivelense?
AS: Exatamente. As dificuldades que enfrentei foram muitas, mas sempre quis tornar São Caetano uma referência colorida, uma etnografia colorida, dentro de tudo que faço. Lá eu tentei muito o apoio do poder público e não deu em nada. Então eu utilizava sobras de materiais dos comerciantes. Eu mesmo fui imprimir essa etnografia nas paredes. Decidi estimular as crianças da cidade, por meio de oficinas, a se expressarem também. Foi um período em que quase toda São Caetano ficou bem colorida – mas é uma arte efêmera, até porque eram muros. Em seguida, eu saí de lá. Então essa sombra, que tento transmitir, em preto e branco é realmente a realidade do caboclo do Salgado, que é muito sofrida. Tento quebrar isso com o colorido. 

T+M: É o sonho, né?
AS: Isso mesmo. Mas esse caboclo é um artista, porque ele mesmo confecciona, por exemplo, a máscara dele; a que será utilizada para dançar o boi. É a poesia da vida dele. Ele vive o ano inteiro com a expectativa de brincar no mês de junho. 

T+M: Interessante dizeres isso porque, mesmo sem conhecimento, esse caboclo produz a máscara em papel machê...
AS: Embora muitos nem saibam o nome da técnica que dominam!

T+M: O que é Arte para ti?
AS: Eu vivo a Arte. Meu sonho é explorar mais isso. 

T+M: Tiveste oportunidade de mostrar o teu estilo para as pessoas de São Caetano?
AS: Sim, porque são pessoas que eu admiro muito e que fizeram parte do meu cotidiano, como o Daniel, que é caranguejeiro e, nas horas vagas, escreve poesias. E sempre que posso, mostro.

T+M: Que, é o artista, atualmente, que te inspira?
AS: Ah, cara, eu gosto muito do Kobra [artista plástico que começou como grafiteiro e consolidou-se como muralista, promovendo intervenções em todo o mundo].

T+M: Me conta da exposição em Portugal.
AS: A Arte me levou a lugares que nunca imaginei. Participei da 7ª Bienal de Cultura Lusófona e pra mim, foi um momento extraordinário, porque construí um painel enorme lá no anfiteatro. Eles não esperavam que fosse um mural tão grande. O Odivelismo cruzou o Oceano e, com ele, com toda sua etnografia, reproduzi a lenda de Dom Dinis [sexto rei de Portugal. Conta a lenda que ao deparar-se com um urso selvagem, teria pedido ajuda aos céus e, em troca, construiria um mosteiro naquele lugar]. Quando cheguei lá e vi o painel de 15 metros por 3 metros de altura e tomei conhecimento da lenda e vi o urso no brasão. O anfiteatro fica em Odivelas e fui tomado por uma inspiração enorme: incluí os pierrots, que também são uma característica do carnaval veneziano, o urso, um lençol. Dom Dinis ganhou uma máscara odivelense e a coroa. Está lá.

T+M: Onde esperas estar em dez anos?
AS: Quero muito levar a nossa cultura mundo afora. 

Para conhecer mais:
@andsanttos.arte

Belém
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