Ramadã reúne muçulmanos em período de jejum, oração, disciplina e fortalecimento da fé em Belém
Considerado o quarto pilar do Islã, o Ramadã é um dos momentos mais importantes da fé islâmica
Mês sagrado para os muçulmanos, o Ramadã tem início a partir do avistamento da lua crescente, que marca o começo do nono mês do calendário lunar islâmico. Em 2026, o período começou na noite de 17 de fevereiro e seguirá até 19 de março. Como o calendário islâmico é lunar e possui diferença de 10 a 11 dias em relação ao calendário solar, o Ramadã ocorre em épocas diferentes a cada ano, podendo coincidir com verão, inverno ou outras estações.
Considerado o quarto pilar do Islã, o Ramadã é um dos momentos mais importantes da fé islâmica. Durante aproximadamente 29 ou 30 dias - duração que depende do ciclo lunar -, os fiéis praticam jejum do amanhecer ao pôr do sol, intensificam as orações, realizam boas ações e dedicam-se ao fortalecimento espiritual, à obediência a Alá e ao afastamento de maus hábitos.
Em Belém, as celebrações ocorrem na Mesquita de Belém, que funciona no Centro Islâmico Cultural do Pará, localizado na rua Ferreira Cantão, no bairro da Campina. No espaço, são realizados cultos, orações de sexta-feira e atividades de formação religiosa ao longo da semana.
O Sheik Habdu dirige os cultos na mesquita de Belém durante as orações de sexta-feira e, também, durante a semana ministrando instruções e cursos para a comunidade muçulmana de Belém. Ele disse que o Ramadã é o mês em que os muçulmanos praticam o jejum. Ele é o nono mês do calendário lunar, com duração praticamente de 29 ou 30 dias. Os muçulmanos se abstêm de se alimentar tanto de alimentos sólidos quanto líquidos, e quanto à prática também do ato íntimo entre o casal, desde a madrugada até o pôr do sol.
Segundo ele, esse jejum tem fundamentos, regras e normas. Quem é obrigado a praticar são as pessoas que ultrapassam a puberdade. Então, tem uma obrigação. Crianças, a partir de 10 anos, podem até praticar, mas não obrigatoriamente. É facultativo isso. O jejum é praticado justamente para que os muçulmanos, além de se absterem de alimentos, e do ato íntimo entre o casal, eles passam a sentir a necessidade das outras pessoas que o ano todo passam por fome. Por isso, é obrigatório ao muçulmano, antes do fim de mês, tirar uma caridade por cada membro da sua família e destinar para as pessoas necessitadas.
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Jejum não se limita apenas a não se alimentar
“O jejum é saudável para o organismo do ser humano, como tirar as células que já não estão mais tendo as mesmas funções. Quando a pessoa fica em jejum, o organismo continua funcionando: ele elimina essas células, renova a energia do indivíduo”, disse. “Além de que as pessoas, ao praticarem o ato de jejum, passam a ter sentimentos relativos às pessoas pobres que passam, por vez, o ano todo com dificuldades para se alimentar adequadamente”, explicou.
Essas são as regras básicas da prática do jejum. Porém, explicou, o jejum não se limita apenas a não se alimentar ou não praticar o ato íntimo desde a madrugada até o pôr do sol. “O jejum também reeduca as pessoas. Durante esse período de Ramadã, se alguém te ofender, você não responde. O profeta nos ensina: se alguém te ofender, diga: ‘eu estou em jejum, estou em jejum’. E não responde a ofensa de forma alguma. Não pode exaltar, não pode se alterar, não pode ficar nervoso, não pode insultar as pessoas”, afirmou.
Então, além de jejum alimentar, ele também é um jejum comportamental. “Como se estivesse você se preparando para viver o restante de ano em paz e tranquilidade com as demais pessoas, começando justamente com as pessoas mais próximas de ti. Como sua esposa, seus filhos, seus vizinhos, seus trabalhadores, seus empregados e assim por diante. Tudo tem uma conduta que tem que seguir de uma forma correta”, completou.
Ou seja, ele faz com que a pessoa se torne um ser humano melhor. “Perfeitamente. Isso que é a finalidade do jejum. E a recompensa dela é infinita. Porque, segundo o profeta Muhammad, ele diz que Deus fala que toda a ação do ser humano ele é recompensado imediatamente. Exceto o jejum. O jejum é para mim. Eu vou recompensá-lo de uma forma bem maior do que as outras ações que a pessoa faz, porque deixa de comer, de beber, de ter o prazer para atender uma determinação ou uma ordem divina”.
Ele também comentou sobre o período do Ramadã. Este ano iniciou dia 18 de fevereiro. Porque o ano lunar varia do ano solar entre 10 a 11 dias, todo ano. “Então, às vezes, o jejum cai no inverno, às vezes cai no verão, às vezes cai na primavera. E assim por diante. Ele vai mudando. Esse ano começou dia 18 e o último dia do mês de Ramadã praticamente seria dia 18 ou dia 19 de março”, observou.
Durante o período do Ramadã, o que a pessoa tem que ter em mente o tempo todo. A primeira coisa, a primeira ordem que a pessoa intenciona a prática de jejum é em obediência à determinação de Deus. Porque esse mês de jejum é o mês em que se iniciou a revelação do Alcorão, que é o último livro revelado para o profeta Muhammad, que a paz de Deus esteja sobre ele.
Embora a prática de jejum do mês de Ramadã, ela é prática obrigatória aos muçulmanos, mas essa prática de jejum ela não é restrita apenas ao profeta Muhammad quando ele recebeu a revelação do Alcorão. O Alcorão cita vários profetas e mensageiros que praticavam o jejum, inclusive a Virgem Maria. Ela praticou o jejum depois de ter nascido Jesus, filho de Maria. Ela ficou em jejum durante três dias sem se comunicar com as pessoas. “Então, essa prática de jejum é bem realmente anterior. Só que o Islã veio estabelecer que seja durante esse mês, que é o mês de Ramadã, que é o nono mês do calendário lunar” , disse.
O Ramadã é o quarto dos 5 pilares do Islã
A prática da religião, segundo o profeta Muhammad, são cinco pilares. O primeiro pilar: testemunhar que não há divindade além de Deus, o único Criador, é que o profeta Muhammad seja servo e mensageiro. Isso inclui todos os profetas e mensageiros que antecederam ele também. Porque o muçulmano que acredita no profeta Muhammad, ele deixa de acreditar em Jesus, ou Moisés, ou João, ou Zacarias, ou Isaac, ou Ismael, ou Abraão, ele deixa de ser muçulmano. Porque são todos os mensageiros que vieram para pregar a determinação ou a revelação divina para orientar a humanidade.
O segundo pilar é a prática das cinco orações diárias. O muçulmano, cinco vezes ao dia, ele tem que se purificar, lavar o corpo e fazer essas cinco orações se dirigindo para Deus. E o terceiro pilar é o pagamento do Zakat - é um ato de caridade obrigatório para muçulmanos que têm condições de doar “O Zakat são as pessoas ricas que têm um determinado teto depois de passagem de um ano. Hoje em dia está avaliado aproximadamente, se tem sobra acima de 37 mil reais, passou-se um ano e ele não tem necessidade de utilizar esse dinheiro, ele teria que tirar 2,5% e destinar diretamente para as pessoas necessitadas. Esse é o terceiro pilar. E o quarto pilar, justamente, é a prática do jejum do mês de Ramadã. E o último pilar é a peregrinação à Meca, quando a pessoa tem condições para se deslocar até Meca para fazer a peregrinação”, explicou.
Professor de 83 anos destaca importância espiritual do Ramadã para muçulmanos
Descendente de sírios, o professor Hussein Yessef Dmaskie, de 83 anos, participou das orações do Ramadã na mesquita de Belém e falou sobre o significado do período sagrado para a fé islâmica. Para ele, o Ramadã é um momento de fortalecimento espiritual e de maior dedicação às práticas religiosas no cotidiano.
Segundo o professor, os muçulmanos realizam cinco orações diárias, mas a rotina do dia a dia pode, em alguns momentos, dificultar o cumprimento de todas nos horários determinados. “Nós rezamos cinco vezes por dia. Mas o dia a dia às vezes nos impede de rezar uma das orações. Então você tem que compensar no final do dia, rezando as que faltaram”, explicou.
Ele destaca que as cinco orações são importantes porque o fiel deve estar sempre em paz com Deus. “Nunca se sabe o momento da morte. Então, estando em paz com Deus cinco vezes no dia, você vai morrer entre uma das orações”, afirmou. De acordo com Hussein, os horários das orações ao longo do dia são definidos pela tradição islâmica. “São às 5 da manhã, 12h30, depois entre 15h30 e 17h, às 20h e antes de dormir”, detalhou. Ele explicou que não se reza exatamente ao meio-dia. “Os cristãos rezam meio-dia, mas o profeta provou que não pode rezar nesse horário. Ele colocou a bengala no chão e ela não tinha sombra. Quem é que não tem sombra? O demônio. Por isso a oração é às 12h30”, relatou.
Para o professor, participar das orações durante o Ramadã proporciona uma sensação de renovação espiritual. “Você sai muito mais fortalecido”, disse. Durante o Ramadã, os fiéis praticam o jejum do amanhecer ao pôr do sol. Hussein explica que o período de jejum tem inspiração em práticas religiosas antigas. “Jesus jejuou 40 dias. Mas nós não somos Jesus. Na verdade, jejuamos 30 dias. Nós amamos Jesus e Maria, essa é a diferença. Nós amamos, não adoramos. Adoramos somente a Alá”, afirmou.
Segundo ele, durante o jejum o fiel se alimenta pela manhã e passa o dia sem comer, beber água ou manter relações sexuais. “Você come de manhã uma refeição boa, toma água e passa o dia todo sem se alimentar, sem tomar água e sem sexo. Tudo isso só à noite. Depois das 18 horas você faz uma nova refeição e a vida continua até você dormir”, explicou.
O professor também ressaltou que o Islã possui regras consideradas rígidas pelos praticantes. “O Islã é bom, mas ele é muito severo. Temos regras rígidas. A pessoa que entra no Islã sente uma diferença muito grande, tanto para se sentir bem como também pela severidade das leis islâmicas”, disse.
Ele destacou ainda a importância do arrependimento e da busca pelo perdão divino. Segundo Hussein, quando o fiel não consegue cumprir todas as obrigações do dia, pode recorrer à oração antes de dormir. “Se você não teve tempo de rezar o dia todo, antes de dormir pode pedir 100 vezes perdão para Deus”, afirmou.
O professor explicou que nem sempre a pessoa consegue lembrar de todos os erros cometidos ao longo do dia. “Às vezes você não sabe qual foi o pecado. Pode ter olhado para uma mulher que não é a sua, por exemplo, ou cometido outros erros. À noite você não lembra de todos. Então pede perdão 100 vezes antes de dormir. Aí você dorme em paz”, concluiu.
Ramadã
1. Ramadã é o nono mês do calendário lunar islâmico
O Ramadã dura cerca de 29 ou 30 dias e marca um período sagrado para os muçulmanos. Como o calendário islâmico é lunar, ele ocorre em datas diferentes a cada ano, com variação de 10 a 11 dias em relação ao calendário solar.
2. Jejum do amanhecer ao pôr do sol
Durante o Ramadã, os muçulmanos se abstêm de alimentos sólidos, líquidos e da prática de relações íntimas entre o casal desde a madrugada até o pôr do sol. O jejum é obrigatório para pessoas que já ultrapassaram a puberdade, enquanto crianças a partir de 10 anos podem praticá-lo de forma facultativa.
3. Prática espiritual e social
O jejum tem como objetivo desenvolver disciplina espiritual e empatia, fazendo com que os fiéis reflitam sobre a situação de pessoas que passam fome ao longo do ano. Por isso, antes do fim do Ramadã, os muçulmanos devem destinar uma caridade para pessoas necessitadas, em nome de cada membro da família.
4. Jejum também envolve comportamento e autocontrole
Além da abstinência alimentar, o Ramadã propõe uma reeducação comportamental. Durante esse período, os fiéis devem evitar discussões, insultos, nervosismo ou reações agressivas. Caso alguém seja ofendido, a orientação é responder apenas: “Estou em jejum”, mantendo a calma.
5. O Ramadã é um dos cinco pilares do Islã
A prática do jejum no mês do Ramadã é considerada o quarto pilar do Islã. Os cinco pilares da religião são:
• a profissão de fé em Deus e no profeta Muhammad;
• as cinco orações diárias;
• o Zakat, que é a caridade obrigatória para quem tem condições;
• o jejum no Ramadã;
• e a peregrinação a Meca, quando o fiel possui condições de realizá-la.
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