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Problemas no trânsito de Belém desafiam motoristas, que adotam estratégias pelas ruas da capital

Semáforos inteligentes, novos ônibus e fiscalização são estratégias para melhorar a mobilidade, aponta prefeitura

Dilson Pimentel

O trânsito de Belém continua sendo motivo de preocupação para quem precisa se deslocar diariamente pela cidade. Relatos de condutores mostram que os congestionamentos frequentes, aliados a problemas estruturais, impactam diretamente a rotina e exigem estratégias para minimizar os prejuízos. Motorista profissional, Arcângelo Miguel, de 50 anos, disse que perde tempo no trânsito, mas utiliza a experiência ao volante para lidar com a situação. “Pelo fato de eu ter meus cursos na carteira, porque eu sou categoria E, a gente usa essa estratégia de desenrolar no decorrer do engarrafamento, ver qual a melhor rota a gente fazer”, disse.


Segundo ele, a antecipação do horário de saída é essencial. “Se antecipar do nosso horário é um fator primordial com o motorista profissional”, afirmou. Arcângelo também apontou que motoristas particulares contribuem para a lentidão, principalmente por falta de experiência em situações como buracos e alagamentos após a chuva. “Certos buracos, inundações pós-chuva dificultam muito. Aí não tem aquela experiência, fica mais lento ainda”, observou.

Arcângelo também demonstrou preocupação com motociclistas, que enfrentam riscos maiores diante das condições das vias e da necessidade de cumprir entregas. Como orientação, reforçou a importância de sair mais cedo e buscar rotas alternativas, evitando depender exclusivamente de aplicativos de navegação. “Se antecipa pelo menos uns 40 minutos antes, aí vai dar tudo certo”, sugeriu.

Já a servidora pública estadual Edilena Teixeira, de 56 anos, destacou a perda de tempo, especialmente nos horários de pico. “Perde-se tempo sim, principalmente de manhã, de 7 às 9, e à tarde, de 5 da tarde às 7 da noite, fica muito congestionado”, contou. Para ela, uma das soluções seria uma atuação mais efetiva dos agentes de trânsito na avenida Almirante Barroso. “Eles deveriam ajudar a diminuir esse fluxo, colocando alguns carros para entrar no BRT. Às vezes, o trânsito está muito congestionado e o BRT está vazio, não tem nem ônibus”, sugeriu, lembrando de ações semelhantes realizadas durante a COP 30, em 2025.

Edilena também observou que, mesmo com diferentes opções de vias, o problema persiste. “Tanto faz ir pela Pedro Álvares Cabral, pela Duque ou pela João Paulo, é engarrafamento do mesmo jeito”, afirmou. Para tentar reduzir os impactos, ela recorre a aplicativos de trânsito para identificar rotas com menor fluxo, embora reconheça que nem sempre consegue evitar os trechos mais congestionados. “Acaba sendo um estresse diário”, contou. Em alguns casos, a alternativa é sair mais tarde de casa para fugir do horário mais crítico.

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Fatores estruturais

Os congestionamentos frequentes em importantes corredores viários da Região Metropolitana de Belém, como as avenidas Augusto Montenegro e Almirante Barroso e a rodovia BR-316, estão diretamente relacionados a uma combinação de fatores estruturais, urbanísticos e comportamentais. A avaliação é do diretor-presidente do Instituto de Segurança Viária da Amazônia, Rafael Cristo.

Segundo ele, um dos principais desafios está na falta de incentivo ao transporte público em comparação ao transporte individual, além da necessidade de políticas públicas voltadas à reorganização do crescimento urbano. “A taxa de motorização na Região Metropolitana de Belém, a individualização do uso do transporte, inclusive por aplicativos de mobilidade, e a própria configuração espacial dos municípios contribuem para esse cenário”, explicou.

Rafael Cristo destacou, ainda, que a expansão urbana desordenada, com formação de áreas extensas e cidades-dormitório, como o distrito de Icoaraci e o município de Marituba, somada à centralização das atividades econômicas, aumenta a pressão sobre os principais eixos viários. Nesse contexto, ele destacou a importância do Relatório de Impacto de Trânsito (RIT), estudo técnico previsto em legislações municipais, que avalia os efeitos de novos empreendimentos sobre o sistema viário e propõe medidas para garantir fluidez e segurança.

No caso da avenida Augusto Montenegro, o especialista apontou que houve crescimento habitacional expressivo sem o devido acompanhamento da oferta de transporte público. Além disso, a instalação de polos geradores de tráfego - como supermercados, órgãos públicos e shopping centers - intensificou o volume de veículos. Ele citou o artigo 93 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), que exige análise prévia de impacto viário para empreendimentos que possam atrair grande fluxo.

Já a avenida Almirante Barroso é caracterizada como principal corredor de acesso ao centro da capital, com influência que se estende até o quilômetro 12 da BR-316, abrangendo os municípios de Belém, Ananindeua e Marituba. A via também enfrenta problemas recorrentes de alagamento em períodos chuvosos, o que agrava ainda mais os congestionamentos. Ainda segundo ele, a região apresenta características semelhantes às da Augusto Montenegro, incluindo a falta de aplicação adequada das normas previstas no CTB.

Investimentos em tecnologia

Para melhorar a fluidez do trânsito, especialmente nos horários de pico, Rafael Cristo defendeu investimentos em tecnologia. Entre as medidas sugeridas estão a implantação de uma central de monitoramento de tráfego e a sincronização dos semáforos no modelo conhecido como “onda verde”. “É algo que já deveria existir na capital”, disse. Ele detalhou que, na Almirante Barroso, seria necessário sincronizar os semáforos considerando o volume de veículos nas vias transversais, no trecho entre as avenidas Ceará e Tavares Bastos. Já na Augusto Montenegro, propõe a substituição de retornos à esquerda por retornos operacionais, como os existentes na entrada do conjunto Satélite/Tapanã, além da integração com sistemas inteligentes de controle semafórico.

O especialista também destacou que a melhoria do transporte público é fundamental para reduzir os congestionamentos. Atualmente, a Região Metropolitana conta basicamente com o sistema BRT (Bus Rapid Transit), considerado insuficiente diante da demanda. Ele defendeu a ampliação de modais de maior capacidade, como metrôs e trens urbanos.

Como exemplo, citoy a possibilidade de criação de linhas expressas que atendam bairros como a Marambaia, conhecido pelo setor gastronômico, utilizando corredores periféricos. O modelo se inspira no conceito de “Superloop”, adotado em Londres, que consiste em uma rede de ônibus expressos formando um anel ao redor da cidade, facilitando a mobilidade fora das regiões centrais. Para Rafael Cristo, soluções integradas que combinem planejamento urbano, fiscalização, investimento em transporte público e uso de tecnologia são essenciais para enfrentar os desafios da mobilidade na capital paraense e em sua região metropolitana.

Prefeitura cita medidas para melhorar fluidez no trânsito

A Secretaria Municipal de Segurança, Ordem Pública e Mobilidade de Belém (Segbel) informou que, diante do crescimento contínuo da frota de veículos na capital, a gestão municipal tem adotado um conjunto de medidas integradas voltadas à melhoria da fluidez do trânsito, especialmente em corredores estratégicos da capital. Entre as principais ações está o investimento em tecnologia para gestão do tráfego, com a instalação de cerca de 300 semáforos inteligentes, equipados com sistemas de inteligência artificial, já em funcionamento em aproximadamente 40 cruzamentos da cidade.

Esses equipamentos permitem ajustar o tempo dos sinais de acordo com o fluxo de veículos, contribuindo diretamente para a melhoria da circulação, sobretudo nos horários de pico. A Segbel também intensificou a fiscalização e o ordenamento do trânsito por meio do "Programa Belém em Ordem”, realizado em parceria com a Guarda Municipal e a Polícia Militar. As operações são concentradas em pontos de maior fluxo, com foco na redução de infrações, organização viária e aumento da segurança, o que impacta diretamente na diminuição de congestionamentos.

No campo do transporte público, a Prefeitura de Belém informou que tem priorizado a qualificação do serviço como alternativa ao uso do transporte individual. Um dos principais avanços é a renovação da frota, com a entrega de 300 novos ônibus equipados com ar-condicionado, Wi-Fi e tecnologia menos poluente, proporcionando mais conforto e eficiência aos usuários. A modernização também resultou na redução de 23% nas emissões de dióxido de carbono, o equivalente a cerca de 1.656 toneladas a menos de CO₂ lançadas mensalmente na atmosfera.

Outra medida importante apontada pela gestão municipal é a gratuidade da tarifa de ônibus aos domingos e feriados, iniciativa que amplia o acesso da população ao transporte coletivo, estimula o uso do sistema e contribui para a redução do número de veículos particulares em circulação nesses períodos. A Prefeitura informou que também tem investido na diversificação dos modais de transporte, com destaque para a implantação de mais de mil patinetes elétricos compartilhados e a ampliação da malha cicloviária, que já soma 170 quilômetros entre ciclovias e ciclofaixas.

Ainda segundo a prefeitura, as ações fortalecem a mobilidade ativa e oferecem alternativas sustentáveis para deslocamentos de curta distância. Paralelamente, a gestão municipal, em parceria com o Governo do Estado, tem avançado em projetos de reestruturação da infraestrutura urbana, incluindo a modernização da sinalização viária e intervenções que visam otimizar o fluxo de veículos nos principais corredores da cidade.

A Segbel também destacou que segue utilizando monitoramento viário e ferramentas digitais para acompanhar, em tempo real, as condições do trânsito, permitindo ajustes operacionais e respostas mais rápidas, especialmente em horários de maior movimento e em períodos de maior impacto climático, como o inverno amazônico. A secretaria reforçou que o conjunto dessas iniciativas marca um novo momento para a mobilidade urbana de Belém, alinhado a práticas modernas e sustentáveis, com foco na redução dos congestionamentos, incentivo ao transporte coletivo e promoção de uma cidade mais acessível, eficiente e ambientalmente responsável. A Redação Integrada de O Liberal entrou em contato com o Detran e com o governo do Estado e aguarda retorno.

Alternativas sugeridas pelo especialista Rafael Cristo

Implantação de central de monitoramento de tráfego para acompanhar e gerenciar o fluxo em tempo real.

Sincronização de semáforos (“onda verde”), ajustando os tempos conforme o volume de veículos.

Reorganização viária, com substituição de retornos à esquerda por retornos operacionais.

Ampliação e diversificação do transporte público, incluindo modais de maior capacidade (metrôs, trens urbanos e linhas expressas no modelo “Superloop”).

Ações destacadas pela Segbel

Instalação de cerca de 300 semáforos inteligentes

Intensificação da fiscalização e ordenamento do trânsito, por meio do programa “Belém em Ordem”.

Renovação da frota, com a entrega de 300 novos ônibus equipados com ar-condicionado, Wi-Fi e tecnologia menos poluente

Implantação de mais de mil patinetes elétricos compartilhados e ampliação da malha cicloviária, que já soma 170 quilômetros entre ciclovias e ciclofaixas