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O que fazer ao encontrar um animal silvestre? Veja orientações após casos com botos em Belém

Resgates recentes reforçam importância de acionar órgãos ambientais e evitar contato direto

Dilson Pimentel

O resgate recente de botos-cor-de-rosa em Belém - incluindo um caso no bairro do Marco e outro em Mosqueiro, ambos com desfecho de morte - acendeu um alerta: a população não deve tentar capturar ou manusear animais silvestres por conta própria. A orientação de especialistas é que, ao avistar esses animais, o procedimento correto é manter distância e acionar imediatamente os órgãos competentes, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Batalhão de Polícia Ambiental (BPA) da Polícia Militar, entre outros.


Em entrevista à Redação Integrada de O Liberal, o superintendente do Ibama no Pará, Alex Lacerda de Souza, que é biólogo e analista ambiental, explicou como a população deve agir nesses casos. “Evitar o contato direto com o animal silvestre, evitar contato também do animal silvestre com animais domésticos como cães, gatos, galinhas e outros, e entrar imediatamente em contanto com o órgão ambiental mais próximo”, disse. As pessoas também não devem manusear o animal silvestre, pois isso causa problemas e estresse, até mesmo ossos podem ser fraturados em um manejo errado. “Cães e gatos podem ser predadores de algumas espécies silvestres e o simples avistamento de predadores já é responsável pelo aumento do estresse do animal silvestre”, disse.

Também não se deve permitir que aves, como galinhas e patos, cheguem perto do animal silvestre, principalmente se o animal for uma ave e estiver com sinais de cansaço ou prostrado - aves, humanos e outros animais podem ser contaminadas com o vírus da gripe aviaria e outras zoonoses. Por isso, afirmou, o contato deve ser evitado a menos que a pessoa seja capacitada, com um biólogo, veterinário ou zoólogo com conhecimento em manejo de animais silvestres.

“Deve ser acionado o órgão ambiental mais próximo, secretaria municipal ou estadual de meio ambiente, Corpo de Bombeiros e Batalhão de Polícia Ambiental da PM/PA”, explicou o superintendente Alex Lacerda de Souza. No caso de encalhe de botos, peixes-boi e outros mamíferos aquáticos, ele explicou que pode ser acionado o Instituto Bicho d`água ou a Superintendência do Ibama.

Ele também informou que o Ibama deve ser acionado em casos de animais ameaçados de extinção – peixe-boi, ararajubas, onças, por exemplo, devido a competência legal para atuar. E, após o resgate, os animais sob a responsabilidade do Ibama são encaminhados ao Cetras, para avaliação, controle e recuperação quando for o caso. “Após estar apto a retornar ao hábitat natural, o animal silvestre é solto em uma área de soltura de animais silvestres (ASAS), previamente cadastrada e apta para receber aquela espécie”, afirmou. O Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Selvagens (Cetras) é mantido pela Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) em Belém.

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O animal pode ter sido levado ao local após a elevação do nível da água devido às fortes chuvas

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A informação foi confirmada pelo Ibama, que informou a observação de diversas escoriações no animal, que estava abaixo do peso e estressado

Boto-cor-de-rosa é encontrado morto em praia de Mosqueiro, distrito de Belém
O animal foi retirado da água na manhã desta terça-feira (24)

Condutas adequadas

Em 2026, o Batalhão de Polícia Ambiental (BPA) resgatou 289 animais no Pará. Desse total, 260 foram só na Região Metropolitana de Belém. A maioria desses registros, conforme o balanço da Polícia Militar (PM), são ocorrências com ofídios, sendo um total de 56 ocorrências. De acordo com a PM, clima chuvoso, típico do chamado inverno amazônico, também propicia o aumento significativo nas demandas relacionadas ao aparecimento de animais silvestres em áreas urbanas e residenciais. Por isso, a corporação alerta que a população precisa tomar cuidados nesses momentos.

O tenente PM Fagner Batista, do BPA, explicou que é fundamental que a população adote condutas adequadas, visando garantir a segurança das pessoas e a preservação da fauna silvestre. Ao avistar um animal silvestre, não se deve tentar capturá-lo, tocá-lo ou alimentá-lo, pois tais atitudes podem provocar reações defensivas, resultando em acidentes, além de causar estresse ao animal. “Ressalta-se que muitos animais silvestres podem transmitir zoonoses, bem como apresentar comportamento imprevisível quando se sentem ameaçados”, disse.

Ele informou que a conduta correta consiste em manter distância segura, evitar aglomerações e acionar imediatamente o serviço da unidade especializado por meio do telefone 190 - Ciop, solicitando o apoio do BPA, que possui treinamento técnico e equipamentos apropriados para realizar o resgate seguro do animal silvestre. Ainda segundo o tenente Fagner, os acionamentos recebidos envolvem, em sua maioria, situações relacionadas ao aparecimento de animais silvestres em áreas urbanas ou residenciais, que geralmente encontram-se feridos, debilitados ou em situação de risco, assim como ocorrências que indicam possíveis crimes ambientais, tais como captura ilegal, criação irregular de animais em cativeiro, maus-tratos e tráfico de fauna silvestre. “Após o registro da ocorrência por meio do Ciop, a demanda é submetida à triagem operacional, sendo posteriormente direcionada à guarnição especializada mais próxima da área de atendimento”, explicou.

Após o resgate, todos os animais silvestres são submetidos a uma avaliação clínica inicial, com o objetivo de verificar seu estado de saúde e definir os procedimentos adequados para cada caso. “Indivíduos que apresentam debilidade, lesões ou quaisquer alterações fisiológicas são encaminhados a instituições parceiras especializadas em atendimento médico veterinário, tais como o Bosque Rodrigues Alves – Jardim Zoobotânico da Amazônia, o Museu Paraense Emílio Goeldi, o Hospital Veterinário da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e o Centro Amazônico de Herpetologia, entre outros colaboradores técnicos”, afirmou.

Por outro lado, explicou, os animais considerados clinicamente aptos, que não apresentam sinais de domesticação ou dependência antrópica, são destinados à soltura em seu habitat natural, seguindo critérios técnicos e legais. Ele acrescentou que as principais áreas utilizadas para esse fim são Unidades de Conservação, com destaque para o Parque Estadual do Utinga no município de Belém e o Refúgio de Vida Silvestre Metrópole da Amazônia, localizado no município de Marituba.

Casos recentes

17 de março:

Um boto-cor-de-rosa foi resgatado na manhã do dia 17 após encalhar em um canal na rua União, com a travessa Mauriti, no bairro do Marco, em Belém. A retirada do animal foi realizada por uma equipe do Instituto BioMA (Biologia e Conservação de Mamíferos Aquáticos da Amazônia), ligado à Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), com apoio do Corpo de Bombeiros e do BPA.

De acordo com as informações iniciais, o animal pode ter sido levado ao local após a elevação do nível da água provocada pelas fortes chuvas que atingiram a capital paraense nos últimos dias. A área onde ele foi encontrado é um dos braços do rio Tucunduba. Segundo relatos, o boto teria chegado ao canal ainda na noite de segunda-feira (16), mas só foi avistado por moradores nas primeiras horas de terça-feira (17).

No local, o animal foi identificado por biólogos como sendo uma fêmea e apresentava ferimentos, possivelmente causados pelo contato com pedras e outros objetos após a diminuição do nível da água. Mas o boto-cor-de-rosa morreu na madrugada desta quinta-feira (19). Segundo o Ibama, que confirmou a morte do mamífero, desde o primeiro atendimento, foram observadas diversas escoriações no animal, baixo escore corporal (abaixo do peso) e estresse, devido à situação pela qual havia passado.

24 de março:

Um boto-cor-de-rosa foi encontrado morto na manhã de terça-feira (24) na Praia do Farol, localizada em Mosqueiro, distrito de Belém. De acordo com o Corpo de Bombeiros Militar do Pará, uma equipe especializada do 20º Grupamento Bombeiro Militar foi acionada para atender à ocorrência e realizou a retirada do animal, que já estava sem vida.

“O animal foi encaminhado ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), responsável pelos procedimentos necessários”, informou o CBM.

O Ibama também informou que, até a tarde de quarta (18/3), o boto vinha apresentando boa evolução, tendo se alimentado e com comportamento ativo. “Entretanto, à noite, houve uma piora, sendo prontamente assistido pelos médicos veterinários que estavam no local. O espécime chegou a ser encaminhado para o centro do Instituto Bicho D'Água, em Castanhal (PA), onde veio a óbito, por volta das 4h”, afirmou.

O que fazer ao encontrar um animal silvestre

Cuidados essenciais

• Não tocar, capturar ou tentar resgatar o animal

• Manter distância segura e evitar aglomerações

• Não permitir aproximação de cães, gatos ou outras espécies domésticas

• Não alimentar o animal

• Evitar contato com aves (risco de doenças)

• Observar à distância e aguardar orientação de profissionais

Por quê?

O manejo inadequado pode causar estresse, ferimentos e até a morte do animal, além de risco de acidentes e transmissão de zoonoses.

Quem acionar

Batalhão de Polícia Ambiental (BPA)

• Telefone: 190 (Ciop)

• Atua no resgate, triagem e encaminhamento dos animais

Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis)

• Linha Verde: 0800-061 8080

• Belém: (91) 3284-5800

• Santarém: (93) 3522-3032

• Marabá: (94) 3323-7400

• Altamira: (93) 3191-0921

• Atua em casos de espécies ameaçadas e na destinação dos animais

Instituto Bicho D’Água

• Telefone: (91) 98226-5005

• Especializado em mamíferos aquáticos (botos e peixes-boi)

• A Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas) disponibiliza um canal para denúncias por meio do app "Semas Pará", ou pelos canais de ouvidoria por meio dos contatos: ouvidoria@semas.pa.gov.br e (91) 3284-9143.