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SAÚDE

Entre tabus e dilemas, conheça os desafios enfrentados por mulheres durante a amamentação

A campanha “Agosto Dourado” reforça a importância do aleitamento com leite materno, entretanto, a realidade de algumas mães não permite a oferta exclusiva

Lívia Ximenes

9 de agosto de 2026 às 08:00

Alana descobriu que Matteo tem alergia à proteína do leite de vaca e recalculou a rota da amamentação

Alana descobriu que Matteo tem alergia à proteína do leite de vaca e recalculou a rota da amamentação ( Foto: Foto: Carmem Helena | O Liberal )

Anualmente, no oitavo mês, a campanha "Agosto Dourado" entra em vigor para estimular o aleitamento materno. Apesar da importância nutricional para o bebê e emocional para a mãe, a amamentação exclusiva com leite humano não é a realidade de muitas mulheres. Seja devido a afazeres — como trabalho e estudos — ou problemas de saúde — fissuras mamárias ou alergia à proteína do leite de vaca (APLV), por exemplo —, algumas mães precisam recorrer a fórmulas.

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Em meio a tabus e dilemas, essas mulheres permanecem firmes com alimentação segura e saudável para os filhos. Por meio das fórmulas, as mães encontram uma alternativa que garanta saciedade, bom desenvolvimento e, também, conexão com os bebês.

Sonho abalado e nova vida

Entre mães resilientes, está a cantora Alana Lima. Há pouco mais de cinco meses, em março, ela deu à luz a Matteo e, desde então, teve o sonho de amamentar abalado. Alana imaginava que o momento seria natural e de conexão com o bebê, mas os planos foram frustrados.

O sonho foi frustrado, mas Alana tem superado cada desafio com força
O sonho foi frustrado, mas Alana tem superado cada desafio com força (Foto: Carmem Helena | O Liberal)

“Nunca imaginei que essa seria uma das maiores dores da minha maternidade. Desde o primeiro dia de vida, meu bebê chorava sem parar e tinha muita dificuldade para mamar. Eu percebia que algo não estava bem”, relata.

Enquanto ainda estavam na maternidade, Alana pediu e obteve ajuda de profissionais, mas, mesmo assim, o aleitamento materno não acontecia da forma devida. “Saí acreditando que o problema era comigo. Achei que eu não estava conseguindo amamentar porque não sabia fazer da forma certa”, lembra.

A mãe de Matteo se sentia culpada, sem saber que o filho, na verdade, tem alergia à proteína do leite de vaca. Durante um momento de desespero, ela optou por dar fórmula ao bebê.

“Foi uma das decisões mais difíceis que já tomei. Eu sentia que estava abrindo mão do sonho de amamentar, mas ver meu filho com fome doía muito mais”, fala. A decisão de Alana trouxe, então, uma onda de julgamentos e comentários negativos. A cada palavra, a culpa crescia.

“Quando achei que finalmente o problema havia sido resolvido com a fórmula, uma nova batalha começou. Meu bebê passou a apresentar diarreia frequente, refluxo recorrente e alergias pelo corpo. Mais uma vez, voltamos ao médico em busca de respostas. Foi então que recebemos uma notícia que jamais imaginávamos: a suspeita de alergia à proteína do leite de vaca”, afirma.

O diagnóstico de Matteo trouxe esclarecimento para Alana, que entendeu o motivo de tantas dificuldades. Desde então, o bebê passou a consumir uma fórmula própria, que não provoca reações. Assim, Alana teve a vida transformada — e para melhor.

Durante o processo de medos e descobertas, a cantora recebeu apoio da mãe, Arlene Lima, e do esposo, Rodrigo Santos. Ela fala que também teve dificuldades para mamar quando bebê, segundo relatos de Arlene, e, atualmente, desconfia que era portadora da APLV.

Alana contou com o apoio do marido, Rodrigo, para enfrentrar as mudanças
Alana contou com o apoio do marido, Rodrigo, para enfrentrar as mudanças (Foto: Carmem Helena | O Liberal)

“Hoje entendo que a maternidade real é muito diferente daquela que idealizamos. Nem toda mulher consegue amamentar e isso não significa falta de amor, dedicação ou esforço”, destaca Alana.

A fórmula

A nutricionista infantil Débora Melo explica que as fórmulas são ideais para suprir necessidades nutricionais quando o leite materno não pode. Ela alerta que, durante a adaptação, os bebês podem ter episódios de constipação leve ou gases.

Débora orienta que é necessário atenção durante a manipulação: “[As fórmulas] exigem cuidados redobrados no preparo. O estômago digere a fórmula mais devagar que o leite materno.” Devido à velocidade de digestão, em casos nos quais a mulher ainda oferta o leite humano, pode haver mudanças nos ritmos das mamadas.

As mães que possuem dificuldades para amamentar com leite materno e ainda não possuem diagnóstico de alergias podem ofertar o alimento livremente. Para elas, a nutricionista afirma que é preciso acalmar o bebê antes de oferecer a mama.

“Busque um local calmo, sem distrações. Ajuste a posição e a pega correta, e mantenha o contato pele a pele. Observe se há o nascimento de dentes, sapinho, otite ou refluxo. Se persistir, retire o leite com uma bomba para não secar e procure o pediatra”, ensina Débora.

Amamentação mista

A empresária e influenciadora digital Laila Brito, mãe de Lara Vitória, foi impactada com as dificuldades para a amamentar desde a primeira tentativa. Ela conta que o colostro, o primeiro líquido produzido pelas glândulas mamárias após o parto, era insuficiente para a bebê. O fato foi constatado ainda na maternidade, há pouco menos de um mês.

Laila reccoreu à fórmula por indicação profissional, após ter baixa produção de colostro
Laila reccoreu à fórmula por indicação profissional, após ter baixa produção de colostro (Foto: Arquivo Pessoal)

Em meio ao puerpério, a empresária sofreu e chorou bastante, pois planejou os mínimos detalhes da amamentação. Ela afirma que chegou a consumir alimentos estimulantes e comprar roupas específicas. “No início fiquei frustrada pois eu idealizei amamentar, acredito que toda mulher idealiza esse momento”, conta.

“Nós percebemos que o pézinho dela, Às vezes, ficava roxinho. Aí, na maternidade, eles verificaram que a glicemia dela estava dando abaixo de 40”, diz. Por isso, os profissionais acharam melhor introduzir a fórmula na alimentação de Lara.

Laila fala que a alternativa está presente na vida da bebê desde as primeiras horas. Quando tentava ofertar leite materno, não saía da mama e, por isso, ofereciam a fórmula em uma seringa.

“Quando chegamos em casa, parece que automaticamente já começou a sair o colostro do meu peito e ela iria mamar, só que ela não quis, ela não gostava de fazer a sucção. Ela chorava muito, muito mesmo”, conta a empresária.

Por medo de que a glicemia da filha baixasse e problemas maiores surgissem, Laila decidiu que permaneceria com a fórmula. Entretanto, como havia produção de leite humano, ela insistia em ofrecer à filha: “Ela não gostava, gritava e chorava. Ela mamou uma vez só e mamou chorando.”

Devido ao costume com a seringa e a mamadeira, Laila desistiu de oferecer a mama e passou a utilizar uma bomba extratora. “Eu tiro na bomba e dou paraela na mamadeira. Faço a ordenha todos os dias. Então, a amamentação dela é mista, ela toma a fórmula e o leite na mamadeira”, relata.

Durante o processo de tentativas, aceitação e mudança de planos, Laila lembra que teve apoio do marido, o funcionário público Vitor Marinho. Enquanto estavam na maternidade, ele a acolheu e incentivou. Porém, assim como aconteceu com Alana, a empresária sofreu — e ainda sofre — com julgamentos.

O desafio iniciou para Laila logo após o parto e, a todo momento, ela teve apoio do esposo, Vitor
O desafio iniciou para Laila logo após o parto e, a todo momento, ela teve apoio do esposo, Vitor (Foto: Arquivo Pessoal)

A mães que vivem a mesma experiência, Alana deixa um recado de conforto: “Entender o processo de forma individual, ver que cada bebê é único, cada mãe é única. Acredito que o mais importante é alimentar nossos bebês, independente da forma.”

Impactos emocionais

A psióloga Luisa Bitar explica que a amamentação é influenciada por diversos fatores, como orientação recebida pela mãe, formação dos profissionais de saúde que a acompanham, estilo de vida, status financeiro e influências midiáticas. “Por isso, quando pensamos sobre possíveis impactos emocionais, devemos considerar a realidade individual de cada pessoa”, diz.

“Quando a amamentação é marcada por dificuldades, podem surgir sentimentos de frustração, culpa, ansiedade tristeza e sensação de incapacidade e/ou fracasso. Em alguns casos, essas dificuldades podem contribuir para o sofrimento emocional”, aponta a psicóloga.

Luisa comenta que o vínculo firmado durante a amamentação é por conta da sucção, responsável por auxiliar na produção de hormônios na mulher. Além disso, o ato também gera estímulos sensoriais importantes para o desenvolvimento do bebê. Entretanto, apenas o aleitamento materno não garante o estabelecimento real da ligação entre a mãe e o filho.

“O vínculo afetivo é resultado de uma interação contínua, construída por meio de cuidados sensíveis e responsivos, como acolher o choro, oferecer conforto, manter contato visual, conversar, brincar, acariciar e atender às necessidades do bebê de forma consistente”, destaca.

A psicóloga explica que, na sociedade, a amamentação também é impactada pela cultura e a história. Por isso, é possível encontrar mães que se sentem bem sem amamentar e que sofrem ofertando o leite humano aos bebês.

“O perfeccionismo na amamentação, por exemplo, pode gerar uma autocobrança extrema, expectativas irreais, forte culpa materna, sentimentos de raiva e frustração e impactar na forma que essa mulher se enxerga e em sua autoestima”, pondera.

Luisa fala que o ideal é buscar cuidado psicológico com profissionais desde a gestação, visto que durante a gravidez e o puerpério a mulher passa por inúmeras transformações. Entretanto, se há sintomas mais sérios, a procura deve ser urgente. Entre os sinais estão choro, irritabilidade, apatia, isolamento e incapacidade de gerenciar e responder a emoções equilibradamente, além de alterações comportamentais, alimentares e de sono.

“A impossibilidade de amamentar não define o amor, o afeto, o valor e a capacidade materna. É possível a criação e estabelecimento do vínculo com o bebê independente da via de alimentação e o contato pode ser proporcionado de várias formas”, conclui a psicóloga.

Cuidados com as mamas

Além de alergias, baixa produção de leite humano e alterações glicêmicas, as mulheres também podem enfrentar problemas nas mamas durante a amamentação. A fisioterapeuta Natália Duarte comenta que as principais ocorrências são dores, fissuras e feridas, ingurgitamento mamário e mastite.

“Alguns sinais de alerta são: dor intensa ou persistente ao amamentar; fissuras, sangramento ou feridas no mamilo; mama endurecida, quente, avermelhada ou muito dolorosa; febre; e bebê que mama por muito tempo sem parecer satisfeito, faz poucos xixis ou apresenta dificuldade de ganho de peso”, alerta.

Natália afirma que o trabalho em equipe, com diferentes profissionais da saúde, é essencial. Dessa forma, ao notar alterações, é necessário comunicar ao obstreta. “Também aconselho as pacientes a procurarem uma consultora de amamentação, para que seja oprientada sobre o melhor posicionamento, a pega e o gerencimento da amamentação”, diz.

Quando há lesões locais, a fisioterapeuta destaca a administração de laser de baixa potência, indicado para a cicatrização. Para além de tratamentos locais que auxiliem na amamentação, Natália orienta o esmavizamento adequado das mamas, boa hidratação, alimentação equilibrada, tempo de descanso e apoio emocional.

“Em alguns casos, recursos como compressas mornas antes da mamada podem ajudar”, sugere a fisioterapeuta. Ela conta que a opção é indicada quando há problemas no fluxo de leite devido ao ingurgitamento.

Doação de leite materno

A campanha “Agosto Dourado” é incentivada, também, pelo Banco de Leite Humano (BLH) da Fundação Santa Casa do Pará, localizada em Belém. Em funcionamento desde 1997, o BLH é voltado ao atendimento de bebês internados em risco, com prematuridade ou em situações críticas que não conseguem mamar diretamente na mãe. Além das mulheres atendidas pela Santa Casa, outras lactantes também podem doar.

Cynara Souza, coordenadora do Banco de Leite Humano da Fundação Santa Casa do Pará
Cynara Souza, coordenadora do Banco de Leite Humano da Fundação Santa Casa do Pará (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

“Toda mãe que amamenta é uma doadora em potencial. Ela manifestou a vontade de doar e observou que tem leite sobrando, ela pode fazer contato”, afirma a coordenadora do BLH Cynara Souza. Aquelas que quiserem doar podem se cadastrar por meio do site www.doacao-blh.santacasa.pa.gov.br.

Após a triagem e conclusão de aptidão para a doação, a mulher leva uma amostra de leite, que passa por análise. Sendo aprovada, ela entra na rota semanal dos Bombeiros da Vida, que vão até a residência para coletar.

O Banco de Leite Humano da Fundação Santa Casa do Pará está aberto para doações
O Banco de Leite Humano da Fundação Santa Casa do Pará está aberto para doações (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

“Nós ainda não temos uma doação que nos deixe de forma confortável para ofertar para outras crianças externas”, explica Cynara. Por isso, o estímulo constante à doação é firmado pela fundação, que, agora, passa a atender o Hospital Materno-Infantil Anita Gerosa, de acordo com a coordenadora.