#if(!$m.request.preview.inPreviewMode)
CONTINUE EM OLIBERAL.COM
X
#end

Repatriação de venezuelanos ganha força na fronteira e revela expectativas por mudanças profundas

Retorno em massa expõe esperança cautelosa, enquanto análise de cientista político aponta crise estrutural e limites na transição pós-Chávez como entraves à reconstrução do país latino-americano

Meg Martins (Enviada especial à Venezuela) e Jéssica Nascimento (Da redação)
fonte

A movimentação na fronteira entre Brasil e Venezuela se intensificou nas últimas semanas, marcada pelo retorno de centenas de venezuelanos que haviam deixado o país nos últimos anos. A reportagem do Grupo Liberal acompanhou, in loco, a travessia entre Pacaraima (RR) e Santa Elena de Uairén, onde relatos de esperança, cautela e cobrança por transformações estruturais dominam o discurso de quem decide voltar.

Na rodoviária de Santa Elena, ponto de chegada e redistribuição para outras regiões do país, histórias pessoais ajudam a dimensionar o impacto do processo de repatriação. Entre os recém-chegados está o venezuelano Robert Vázquez, de 30 anos, que viveu por dois anos em Santa Catarina, no Brasil.

“Trabalhei todos os dias, sem descanso, só para ajudar minha família que ficou aqui. Agora estou voltando para casa, para perto dos meus pais. Quero uma vida simples, trabalhar no campo, reconstruir o que perdi”, afirmou. 

Apesar da expectativa, ele demonstra preocupação com a permanência de figuras ligadas ao antigo governo. “Não basta só prender Maduro. Se outras lideranças continuarem no poder, nada muda de verdade”, disse.

image Robert Vasquez. (Foto: Meg Martins | Especial para O Liberal)

A percepção de que as mudanças precisam ir além também é compartilhada por Eduardo Rojas Romero, de 27 anos, que morava em Fortaleza. Ele retorna temporariamente para rever a mãe, mas acompanha com atenção o cenário político. 

“A gente quer acreditar que vai melhorar, mas ainda há muita coisa que precisa ser resolvida. Não é só uma pessoa, é todo um sistema”, declarou.

Entre as famílias, o retorno é cercado de emoção. Milagros Mendoza, de 45 anos, viaja com o marido e três filhos após três anos no Brasil. Para ela, o momento é de alívio, mas também de memória dolorosa.

image Fronteira entre Venezuela e Brasil. (Foto: Meg Martins | Especial para O Liberal)

“É um misto de felicidade e tristeza. A gente volta, mas lembra de tudo que passou. Não quero que meus filhos vivam o que vivemos. Queremos um país onde possamos viver com dignidade”, disse.

No trajeto entre Boa Vista e a fronteira, motoristas relatam uma mudança significativa no fluxo migratório. Júlio César Marcano, de 35 anos, trabalha em uma cooperativa de transporte e afirma que o movimento se inverteu.

“Antes, os carros saíam lotados da Venezuela e voltavam vazios. Agora é o contrário. Todo dia levamos pessoas de volta. Só na nossa cooperativa são mais de 300 por dia”, explicou.

Segundo ele, ainda não há números oficiais consolidados sobre o total de repatriados, mas a tendência é de crescimento contínuo. “Cada dia chega mais gente querendo voltar”, acrescentou.

image Júlio César Marcano. (Foto: Meg Martins | Especial para O Liberal)

Na fronteira, o clima é descrito como de acolhimento. A travessia ocorre sem grande rigidez, e há uma percepção de abertura para o retorno dos nacionais. Já nas cidades venezuelanas próximas à divisa, comerciantes relatam aumento no movimento e uma retomada gradual da atividade econômica.

image (Foto: Meg Martins | Especial para O Liberal)

Apesar do cenário de otimismo moderado, os depoimentos indicam que a confiança plena ainda depende de mudanças políticas mais amplas. Muitos dos entrevistados destacam que o retorno está diretamente ligado à expectativa de reconstrução institucional e econômica do país.

Comparação entre Chávez e Maduro marca percepção popular

Para o cientista político paraense e pesquisador da UFPA (Universidade Federal do Pará), Ribamar Braun, a leitura que muitos venezuelanos fazem do momento atual passa, necessariamente, pela comparação entre os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro.

Segundo ele, o período chavista ainda é lembrado por políticas sociais robustas.

“A população compara ainda muito o governo do Nicolás Maduro ao governo Hugo Chávez, até 2012. Ele teve um governo populista e carismático, mas, acima de tudo, com elevadíssimos investimentos no combate ao analfabetismo, na reforma agrária, infraestruturas internas e abastecimento alimentar”, explicou.

Braun ressalta que, apesar do caráter autoritário, houve avanços sociais significativos. “Nós vimos um governo ditatorial, controlador, mas de bem-estar social”, afirmou.

Herança política e crise de sucessão

O pesquisador destaca que o cenário começou a se deteriorar após a morte de Chávez e a transição de poder. “Os números do crescimento social e do IDH da Venezuela estavam diretamente ligados aos investimentos da época, inclusive na infraestrutura petrolífera, que ainda não estava tão sucateada”, disse.

Ele compara a situação venezuelana a outros regimes socialistas históricos.

“O Nicolás Maduro, assim como em outras experiências, não conseguiu manter o mesmo precedente. Esse fenômeno chega a ser normal por conta do personalismo criado e da identidade do povo com o seu líder”, avaliou.

Braun cita exemplos como a sucessão na União Soviética após Joseph Stalin e em Cuba após Fidel Castro, quando houve perda de popularidade dos governos subsequentes.

Crise econômica, sanções e isolamento

De acordo com o cientista político, Nicolás Maduro assumiu o país já em declínio. “A partir de 2013, ele pegou um governo em decadência, com perseguições políticas, falta de liberdade de imprensa e sucateamento da produção de petróleo”, afirmou.

Ele também aponta o impacto das sanções internacionais, especialmente dos Estados Unidos.

“Os embargos econômicos prejudicaram muito e acabaram polarizando ainda mais a questão política na Venezuela”, disse.

Questionamentos eleitorais e falta de legitimidade

Outro ponto central é a desconfiança em relação ao sistema eleitoral venezuelano.

“As duas últimas eleições foram de fato controladas pelo governo, o que impediu a transparência na escolha eleitoral”, afirmou Braun.

Segundo ele, há contestação internacional sobre a legitimidade do processo. “O direito internacional e a própria Organização das Nações Unidas classificam a Venezuela como um governo autoritário sem diretriz democrática”, destacou.

Fragilidades estruturais e atraso econômico

Apesar de possuir vastos recursos naturais, a Venezuela enfrenta entraves históricos.

“É um país com terras férteis, mas com problemas singulares, como populações indígenas sem amparo estatal e poucos investimentos em inovação tecnológica”, explicou.

Braun observa que, enquanto países vizinhos avançaram, a Venezuela perdeu competitividade. “Houve um certo desenvolvimento no Brasil, Colômbia e Argentina, e a Venezuela acabou ficando para trás”, disse.

Migração, polarização e desafios para o futuro

O pesquisador da UFPA também relaciona o fluxo migratório às condições internas e ao contexto internacional.

“Os problemas sociais graves e a estabilidade maior no Brasil acabaram incentivando a saída da população venezuelana”, afirmou.

Ele comenta ainda as acusações feitas pelos Estados Unidos ao governo Maduro.

“Havia negligência em relação ao narcotráfico, mas não necessariamente apoio direto a cartéis, como foi colocado”, ponderou.

Por fim, Braun faz um alerta sobre o futuro do país. “Os problemas políticos de uma nação devem ser resolvidos internamente. Essa transição, da forma como ocorreu, pode não trazer os ajustes necessários para estabilizar socialmente a Venezuela”, concluiu.

 

Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞
Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱
Política
.
Ícone cancelar

Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo!

Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é.

Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos.

Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!

RELACIONADAS EM POLÍTICA

MAIS LIDAS EM POLÍTICA