Eleições 2026: Pará terá orçamento de R$ 92,9 milhões para logística e tecnologia

Montante recorde garante suporte para dois turnos em 144 municípios e inclui contratação de antenas satelitais e reforço no atendimento

Gabriel da Mota
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O Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA) projeta um orçamento de R$ 92,9 milhões para a realização das Eleições Gerais de 2026 em todos os municípios do estado. O montante, atualizado pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), é destinado a cobrir a infraestrutura necessária para dois turnos de votação, contemplando desde o suporte em quase 6 mil locais de votação até a operação de mil pontos de transmissão de resultados, visando assegurar a transparência e a celeridade do pleito diante das complexidades geográficas e climáticas da Amazônia.

Em entrevista ao Grupo Liberal, o diretor-geral do órgão, Bruno Giorgi Almeida, detalhou as estratégias para regularizar 350 mil eleitores sem biometria até o prazo de 6 de maio. O planejamento envolve a contratação de 1.100 técnicos especializados, o uso de 400 antenas satelitais para áreas remotas e a montagem de um mega posto de atendimento na Arena Guilherme Paraense (Mangueirinho), entre os dias 29 de abril e 6 de maio, para descentralizar o fluxo de cidadãos e reduzir filas.

Confira, abaixo, a entrevista completa.

O LIBERAL: Qual é o cenário do eleitorado sem biometria no Pará e como o TRE está se organizando para cadastrá-los até o prazo de 6 de maio?

Bruno Giorgi Almeida: O Pará possui mais de 6 milhões de eleitores, sendo que cerca de 350 mil ainda não têm biometria. Esse grupo se alistou durante a pandemia, quando a coleta foi suspensa por questões de saúde. Para regularizá-los, criamos o projeto "Retoma Bio – A Democracia em Movimento". A primeira fase, no ano passado, focou na inclusão de regiões remotas e periféricas. Já a segunda fase, iniciada este ano, prioriza as grandes cidades e as sedes das zonas eleitorais. Isso porque a maioria dos não biometrizados — especialmente jovens e pessoas com acesso à internet que se alistaram remotamente na pandemia — está na Região Metropolitana de Belém e nos grandes centros. Estamos utilizando o WhatsApp e os meios de comunicação para convocar esse público, que já é digitalmente incluído, para o cadastro biométrico.

O LIBERAL: Como o eleitor pode ter certeza de que a mensagem recebida pelo WhatsApp é, de fato, do TRE e não um golpe?

Bruno Giorgi Almeida: De forma inédita, o TRE do Pará está realizando disparos em massa para 500 mil eleitores — 300 mil sem biometria e 200 mil em seções saturadas. Para garantir a autenticidade, a conta exibe o nome oficial do Tribunal e o selo azul de verificação. Outro ponto fundamental: não enviamos links. A mensagem contém apenas botões de interação, como "Estou ciente" ou "Quero mais informações", que acionam o chatbot da nossa assistente virtual no próprio WhatsApp para tirar dúvidas.

image Bruno Giorgi Almeida, diretor-geral do TRE-PA (Cristino Martins / O Liberal)

O LIBERAL: Essa convocação é para as pessoas irem à sede do TRE? Onde ocorre essa reta final do recadastramento?

Bruno Giorgi Almeida: A mobilização ocorre em todos os cartórios e zonas eleitorais do Pará. O eleitor pode procurar o posto mais próximo de sua localização, independentemente de onde resida. Para atender quem trabalha ou estuda durante a semana (período em que o atendimento é das 8h às 13h), realizaremos mutirões aos fins de semana. Teremos ainda outros dois mutirões: nos dias 11 e 12 de abril, e 2 e 3 de maio, antecedendo o fechamento do cadastro, que ocorre no dia 6 de maio.

O LIBERAL: Qual a importância de realizar o cadastramento biométrico?

Bruno Giorgi Almeida: A biometria é fundamental para a segurança do processo. Por meio da foto e das impressões digitais, garantimos a integridade do voto e prevenimos fraudes, assegurando que o sistema reflita a vontade do eleitor. Além da segurança, há a questão da agilidade, que motiva nossa convocação para eleitores de seções saturadas.

Hoje, temos locais com quase 500 eleitores, quando o ideal seriam 370. Esse excesso concentra-se em grandes centros como Belém, Marabá, Santarém, Parauapebas e Canaã dos Carajás. Como a próxima eleição terá seis cargos, o tempo de votação será maior, o que pode gerar filas extensas e atrasar a apuração final. Por isso, convidamos esses eleitores a mudarem voluntariamente seu local de votação para garantir mais conforto e rapidez no dia do pleito.

Vale ressaltar que os convocados via WhatsApp — tanto para biometria quanto por estarem em seções saturadas — terão atendimento prioritário nos postos. Basta apresentar a mensagem no celular para acessar guichês exclusivos, respeitando-se apenas as prioridades legais, como cidadãos acima de 80 anos.

O LIBERAL: Qual é o orçamento estimado para as eleições deste ano?

Bruno Giorgi Almeida: O orçamento é de aproximadamente R$ 85 milhões [nota do TRE: o valor atualizado para as Eleições 2026 é de R$ 92.959.915,12, considerando a previsão de dois turnos em todo o estado e a atualização pelo IPCA]. Esse valor se justifica pelas dimensões continentais do Pará e pela necessidade de garantir que a urna chegue a cada eleitor. No ano passado, durante o fórum "VerDemocracia" — que contou com a ministra Cármen Lúcia —, debatemos justamente como o clima impacta essa logística.

Na eleição passada, por exemplo, a seca extrema impediu a navegação de lanchas em alguns rios. O plano B seria o uso de helicópteros, mas as queimadas intensas e a fumaça impediram o voo. O resultado foi o plano C: em certas regiões, a urna teve que ser transportada a cavalo pelo mesário para garantir o voto daquela comunidade.

Temos aldeias em São Félix do Xingu que ficam a seis horas de barco da sede. Como não possuímos frota própria de aeronaves e embarcações para toda a demanda, precisamos alugar esses meios de transporte. O orçamento elevado reflete, portanto, a complexidade de oferecer condições de votação em um território tão vasto e imprevisível.

image Bruno Giorgi Almeida, diretor-geral do TRE-PA, em entrevista ao Grupo Liberal (Cristino Martins / O Liberal)

O LIBERAL: Além do transporte e da logística, quais são os outros custos que compõem esse orçamento?

Bruno Giorgi Almeida: Os custos abrangem desde a contratação de pessoal especializado — como técnicos de urna, de satélite e equipes de apoio para o fechamento do cadastro — até a capacitação contínua. Treinamos mesários, servidores, juízes e membros da corte para garantir um atendimento eficiente e atualizado. Outra frente essencial é o investimento em tecnologia e inteligência artificial. O cenário digital muda diariamente, e precisamos de preparo técnico para monitorar e detectar irregularidades na propaganda eleitoral. Nosso objetivo é manter o Tribunal nivelado às inovações tecnológicas para proteger a integridade do processo.

O LIBERAL: Qual a estimativa de mesários para este ano? E o orçamento atual é muito superior ao da última eleição?

Bruno Giorgi Almeida: O orçamento sofre reajustes anuais devido à inflação e aos custos operacionais, sendo ligeiramente superior ao do pleito passado, mas sem saltos desproporcionais. Para esta eleição, contaremos com 90 mil mesários em todo o estado. Na Região Metropolitana de Belém, realizaremos uma ação inédita: um grande treinamento centralizado para todos os colaboradores da área. Estamos definindo o local e avaliando o uso de disparos em massa via WhatsApp para a convocação. O objetivo é unificar a capacitação — hoje feita de forma descentralizada por zona — com especialistas em atendimento e gestão de crises, garantindo que os mesários estejam preparados para lidar com o público e resolver qualquer intercorrência no dia da votação.

O LIBERAL: Em relação à desinformação e ao uso de deepfakes, o que o TRE planeja para fiscalizar esse tipo de crime nestas eleições?

Bruno Giorgi Almeida: Nossa Secretaria de Tecnologia da Informação está avaliando o desenvolvimento de uma ferramenta própria ou a adoção de parcerias com outros tribunais regionais. O ideal é que a Justiça Eleitoral utilize um sistema institucional unificado. Atualmente, estudamos modelos como o "GuaIA", de Goiás — desenvolvido com a universidade federal local e capaz de identificar detalhes técnicos de deepfakes —, além de soluções criadas em Pernambuco. Nossas equipes técnicas, de comunicação e do judiciário estão visitando esses estados para validar essas tecnologias. Em meados do ano, teremos um encontro nacional de diretores-gerais para tentar consolidar um sistema único. É uma preocupação central e sensível para todos os tribunais, e estamos agindo para garantir o controle sobre esses conteúdos.

image Bruno Giorgi Almeida, diretor-geral do TRE-PA, em entrevista ao Grupo Liberal (Cristino Martins / O Liberal)

O LIBERAL: Considerando as peculiaridades do Pará, onde muitas cidades se comunicam essencialmente por rádio ou carros de som, como o TRE adapta sua estratégia?

Bruno Giorgi Almeida: No Pará, o rádio comunitário e o carro de som — a popular "boca de ferro" — são fundamentais. Diferente da Paraíba, onde nasci, aqui os rios são as estradas, o que exige uma comunicação muito específica. Utilizamos esses canais para veicular spots informativos e combater a desinformação por meio da antecipação. Nossa assessoria mapeia o calendário eleitoral para prever possíveis boatos; um exemplo foi a cerimônia de lacração das urnas, onde filmagens de equipamentos sendo carregados na tomada foram distorcidas como tentativa de fraude. Agora, explicamos o procedimento antes que ele ocorra. Acreditamos que a melhor forma de neutralizar a desinformação é entregando a informação correta antecipadamente.

O LIBERAL: Cada vez mais esses processos internos se tornam transparentes justamente para evitar a desinformação, certo?

Bruno Giorgi Almeida: Justamente. Priorizamos a clareza em todas as etapas. Nas cerimônias de lacração das urnas — momento em que o juiz eleitoral assina o lacre e insere o flash card — convocamos representantes de partidos, advogados e candidatos. O acompanhamento é aberto a todos os interessados, garantindo a fiscalização direta de cada detalhe do processo.

O LIBERAL: Com o aumento da inclusão de nomes sociais e de seções com acessibilidade, como o senhor define o perfil do eleitor paraense atual?

Bruno Giorgi Almeida: O perfil do eleitor paraense está rejuvenescendo, impulsionado por iniciativas como o projeto "Jovem Eleitor", que realiza ações diretas em escolas. Ao mesmo tempo, notamos um forte engajamento dos idosos acima de 70 anos, que mantêm o compromisso com o voto mesmo quando ele se torna facultativo. De modo geral, percebemos um interesse crescente pela política; as últimas eleições trouxeram temas sensíveis e valores pessoais para o centro do debate, o que motivou a população a se informar e participar de forma mais ativa do processo democrático.

O LIBERAL: Para encerrar, qual o seu recado aos eleitores em situação irregular e quais as sanções que eles podem enfrentar?

Bruno Giorgi Almeida: O recado é direto: procurem o cartório eleitoral mais próximo o quanto antes. Nosso atendimento é descentralizado, o que permite realizar qualquer serviço — como primeiro alistamento, transferência, segunda via ou alteração de nome — em qualquer unidade do estado. É fundamental não deixar para a última hora para evitar as grandes filas previstas entre 1º e 6 de maio. Embora tenhamos uma estrutura climatizada no Mangueirinho para a semana final, o ideal é que o eleitor se antecipe para garantir seu próprio conforto. 

Quem não se regularizar até o prazo final enfrenta sérios prejuízos civis, tais como: suspensão de benefícios sociais e governamentais; impedimento para emissão de passaporte; proibição de posse em concursos públicos; impossibilidade de realizar matrícula em universidades.

Estar em dia com a Justiça Eleitoral vai além de evitar esses transtornos; é garantir o exercício do seu poder de escolha no único dia em que todos os cidadãos têm o mesmo peso na democracia.

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