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'É o pior dos cenários', afirmam especialistas paraenses sobre guerra entre Rússia e Ucrânia

Invasão da Ucrânia ordenada por Vladimir Putin é maior conflito militar no continente desde a 2ª Guerra Mundial

Eduardo Laviano
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A invasão da Ucrânia por parte da Rússia, iniciada na madrugada desta quinta-feira (24), pôs fim a quatro meses de dúvida sobre a possibilidade de uma guerra com ataques militares voltar a ocorrer no Leste Europeu, 77 anos após o fim da 2ª Guerra Mundial.

Em poucas horas, as tropas ordenadas por Vladimir Putin iniciaram uma sequência de bombardeios pelo ar, pelo mar e pela terra, com foco na região do Donbass, que conta com cidades-chave do conflito, como Donetsk, Lugansk e Mariupol, todas de maioria russa e recentemente reconhecidas por Moscou como autônomas em relação à Ucrânia.

Com as cidades do leste do país caindo uma a uma com rapidez, os olhos do mundo voltaram-se para Kiev, a capital ucraniana, que registrou explosões provocadas por mísseis tanto no aeroporto da cidade quanto em instalações militares vizinhas. A principal preocupação da comunidade internacional é a morte de civis, sem estimativas oficiais até o momento.

De um lado, Putin afirma que não haverá ocupação do território ucraniano e que a missão do que ele chamou de "operação especial" é apenas desmilitarizar a Ucrânia, destruindo equipamentos de guerra do país patrocinado pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Em entrevista para a TV estatal russa, ele invocou a lembrança da 2ª Guerra Mundial e prometeu "desnazificar" o país vizinho para proteger os russos.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, pediu o apoio da Otan e da Organização das Nações Unidas, anunciou a distribuição irrestrita de armas para a população civil, caso eles queiram defender o país, e afirmou que a Ucrânia está resistindo e combatendo os russos nas fronteiras.

O Kremlin nega, afirmando que não só os ucranianos da região não estão resistindo, como a Rússia já destruiu 70 alvos militares, 11 pistas de pouso, uma base naval e três centros de controle.

Especialistas avaliam crise

Tantas informações conflitantes criam um labirinto para analistas da geopolítica internacional que acompanham desde as primeiras horas do dia as movimentações da guerra. Mário Tito é Doutor em Relações Internacionais, tema que leciona na Universidade da Amazônia, e tem acompanhado com apreensão a escalada do conflito, mas evita fazer previsões sobre os próximos dias:

"A gente sabe como as guerras começam, mas nunca como elas terminam. A Rússia havia garantido, via acordo diplomático, que nunca usaria a Ucrânia como estado-tampão entre ela e a Otan, mas isso começou a ser desrespeitado", afirma ele.

Na opinião de Tito, a guerra nasceu da soma de diversos fatores que já vinham se acumulando ao longo dos últimos anos, especialmente por conta da crise na Crimeia, e que os impactos serão globais, já que diversos países que estavam envolvidos nas negociações devem seguir buscando uma solução livre de sangue.

"Qualquer afirmação decisiva sobre o conflito, um xeque-mate, é impossível. Temos um xadrez geopolítico com muitas pessoas e dimensões no conflito, desde a geopolítica pura, até questões de economia, culturais e identitárias. De um lado temos a Rússia e do outro a Ucrânia, mas esse conflito é mais que os dois, pois envolve a Otan, com os Estados Unidos em um papel decisivo, e espreitando no horizonte está efetivamente a China", diz.

image Policiais inspecionam área após aparente ataque russo em Kiev, na Ucrânia, nesta quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022 (Emílio Morenatti / Associated Press / Estadão Conteúdo)

Tito enxerga a ausência de um discurso de paz mais assertivo por parte dos primeiros países a serem indiretamente atingidos pelo conflito, no caso, os europeus. Segundo ele, os esforços anti-guerra por parte das autoridades não foram suficientes para deter Putin e isso pode custar muitas vidas, além dos impactos econômicos. Apesar das sanções econômicas e políticas anunciadas, o líder russo garantiu que possui mais de 53 bilhões de dólares disponíveis para arcar com todas as consequências das sanções ocidentais.

"Faltou maior disposição diplomática da Alemanha e do Reino Unido. Quem fez os tratos diplomáticos mais concretos foi o presidente francês Emmanuel Macron. Mas a maior ausência de todas, a mais sentida, é da ONU. A ONU não se resume ao conselho de segurança, tem vários conselhos diplomáticos, que nesse primeiro momento de crise pode fazer as nações conversarem antes que haja uma escalada. Não acredito nesse momento numa escalada irracional da guerra. Mas, ao mesmo tempo, não resta dúvida que o líder da Ucrânia é pró-Estados Unidos e pró-Otan. Já o líder russo representa uma ideologia militar forte que é a da "grande mãe Rússia", que precisa defender os russos a qualquer custo", avalia.  

Gustavo Freitas é articulista de assuntos da política internacional em O Liberal e relembra o texto que escreveu em novembro de 2021 afirmando que haveria uma guerra na região. Segundo ele, o Ocidente não soube manejar a situação da melhor maneira. No momento, Freitas avalia como difícil enxergar um cenário no qual o governo da Ucrânia continue de pé da maneira em que está, pois a Rússia está em todos os lados do país.

"Acho que as pessoas vão tomar um grande choque daqui a pouco porque esses assuntos só entram em destaque para o mundo quando a guerra já está acontecendo. As pessoas esperam que o Ocidente entre diretamente para evitar a guerra, mas acho que também vão se assustar ao ver que o Ocidente não vai entrar em uma guerra agora, pois não estão em condições. Vão se assustar com a realidade de que a Ucrânia não vai conseguir resistir muito tempo sem um acordo diplomático, pois o poderio bélico da Rússia é infinitamente maior", diz. 

O papel do Brasil

Ambos internacionalistas concordam que o Brasil terá pouco ou quase nenhum papel na resolução do conflito, considerando o quanto o papel do país no mundo se deteriorou nos últimos anos. Segundo Freitas, é hora do Itamaraty resguardar valores históricos da política externa brasileira, como a neutralidade, o diálogo e a cautela. "Esperamos que o presidente Bolsonaro esteja muito bem assessorado neste momento para não falar nada que possa ser mal interpretado. Qualquer deslize pode ser grave, virar uma enrascada diplomática. Não é uma entrevista de cercadinho", afirma.

Mário Tito concorda e lamenta que a importância do Brasil enquanto nação tenha sido tão reduzida nos últimos três anos, com alianças personalistas que encerram com o fim de governos como o de Donald Trump (EUA) e Benjamin Netanyahu (Israel). "O Brasil se tornou um pária diplomático errático a nível internacional, o que é uma tristeza. O Brasil ficou sem muleta dos EUA e afastado das discussões com a China e o Brics (bloco que ambos os países formam com a Rússia, Índia e África do Sul). De quebra, Bolsonaro foi visitar o Putin no meio disso tudo em uma manobra para os eleitores dele acharem que ele evitaria a guerra, apostando que a invasão não ocorreria. Olha no que deu. Agora, o Brasil está numa encruzilhada", diz.

Freitas lembra, porém, que guerras são constituídas de inúmeros fatores e interesses, tanto políticos quanto financeiros, e que elas não podem ser acompanhadas como filmes de super-herói. "Os países do Ocidente vão tentar se pintar com os bonzinhos da história e em geopolítica as coisas não são assim. Não há mocinho e vilão na história. As situações que levaram até esse ponto são densas, complexas. O Ocidente está financiando o armamento e o treinamento dos militares na Ucrânia e isso é um fato, que foi observado pela Rússia em uma área importante, estratégica. Tem gente lucrando muito nessa história", diz.

Ele lembra, porém, que o que Putin vem fazendo é inaceitável e desrespeita todas as leis internacionais, classificando-o como um "autocrata que sabe muito bem o que  faz". E acrescenta: "A personalidade do líder é sempre decisiva em situações assim, especialmente de um que está há tantos anos no poder e com tanto apoio. O que se faz necessário é a conversa, levar Putin para a mesa de discussão. Uma guerra nunca é boa. Precisamos pelo menos torcer para os líderes sentarem na mesma mesa. Conflito militar não é solução para nada. É o pior dos cenários".

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