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Eleições em 2026 redesenham cenário político global e acendem alertas na América Latina

Eleições previstas para 2026 na América Latina, nos Estados Unidos e na Europa indicam rearranjos ideológicos, possíveis mudanças de alianças e impactos diretos sobre blocos regionais e a geopolítica global

Fabyo Cruz e Maycon Marte

O ano de 2026 desponta como um período decisivo para a política internacional, marcado por eleições estratégicas em diferentes regiões do mundo e por disputas que podem alterar o equilíbrio geopolítico global. Na América Latina, na América do Norte e na Europa, pleitos previstos para o próximo ano ocorrem em um contexto de polarização ideológica, instabilidade econômica e redefinição de alianças internacionais, com impactos diretos sobre blocos regionais, fluxos comerciais e agendas multilaterais.

Na América do Sul, um dos fatos mais emblemáticos recentes foi a vitória da direita na Bolívia, com a eleição de Rodrigo Paz, em 2025, movimento que reposiciona o país no tabuleiro regional. Para o cientista político André Buna, esse cenário é reflexo direto de dinâmicas externas. “As eleições latino-americanas ainda caminham muito a reboque do que acontece nos Estados Unidos. Esse movimento não nasce isolado, ele responde a um contexto internacional mais amplo”, avalia.

Segundo Buna, a reorganização da direita no continente está inserida em uma lógica global iniciada ainda na década passada. “Desde o Brexit e da eleição de Trump em 2016, houve uma reorganização das redes ideológicas, especialmente da direita, que passou a atuar de forma muito mais articulada em escala global”, explica. Para ele, o fortalecimento de candidaturas conservadoras na América Latina reflete essa capilaridade internacional. “Não é apenas economia, é também uma disputa simbólica, ideológica e cultural que atravessa fronteiras”.

No Chile, as eleições presidenciais previstas para novembro de 2026 são vistas como um dos principais testes deste novo momento político. O atual presidente Gabriel Boric enfrenta altos índices de desaprovação, o que amplia o espaço para a oposição. “O Boric conseguiu se eleger em um contexto de forte mobilização social, mas perdeu rapidamente capacidade de resposta política”, analisa Buna. Ele acrescenta que, atualmente, “as pesquisas indicam um cenário muito desfavorável à continuidade da esquerda, com chances reais de vitória de um candidato de direita no segundo turno”.

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Na Argentina, o ambiente também é de instabilidade. O governo de Javier Milei enfrenta dificuldades no Congresso e desgaste crescente junto ao eleitorado. “Milei já assumiu sem maioria parlamentar, o que sempre foi um problema. Agora, com derrotas legislativas recentes, a governabilidade se tornou ainda mais frágil”, afirma Buna. Para ele, “há uma grande possibilidade de revisão de reformas e isso tende a aprofundar a insatisfação popular”.

A cientista política Ana Carol Aldapi Vaquera observa que o caso boliviano simboliza o encerramento de um ciclo histórico. “A Bolívia vive o desgaste de um modelo estatista que foi referência regional, mas que entrou em colapso econômico e político”, afirma. Para ela, a vitória de Rodrigo Paz “marca o fim de uma era liderada pelo MAS e inaugura um período de incertezas, especialmente para as políticas de inclusão social”.

Ana Carol destaca ainda os impactos internacionais imediatos da mudança de governo. “Espera-se uma reaproximação com os Estados Unidos e a reabertura de canais diplomáticos interrompidos durante o governo Evo Morales”, explica. Ao mesmo tempo, ela alerta para riscos: “O retorno a uma agenda econômica liberal pode representar um retrocesso nas políticas redistributivas e aprofundar dependências externas históricas”.

EUA

Fora da América Latina, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em 2026, são apontadas como decisivas para o restante do mundo. Para o internacionalista Lucas Moraes, o impacto vai muito além da política doméstica. “O Congresso norte-americano tem papel central na aprovação de orçamentos, sanções internacionais e acordos comerciais. Uma mudança na correlação de forças altera diretamente a atuação externa dos Estados Unidos”, afirma.

Ele acrescenta que um Congresso fragmentado pode gerar instabilidade global. “Quando o partido do presidente perde força no Legislativo, cresce a imprevisibilidade. Compromissos internacionais passam a enfrentar resistência interna, o que afeta aliados, mercados e cadeias globais de produção”, diz. Moraes ressalta ainda que “anos eleitorais costumam endurecer a postura dos Estados Unidos em relação à China, o que tende a impactar economias interligadas ao comércio internacional”.

Portugal

Na Europa, Portugal também viverá um momento-chave com a eleição presidencial marcada para janeiro de 2026, após o fim do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa. Para o jurista eleitoral Breno Guimarães, a sucessão ocorre em um ambiente de instabilidade política. “Portugal vive um crescimento visível da extrema-direita e um governo de minoria, o que torna a eleição presidencial ainda mais sensível”, analisa.

Segundo Guimarães, o perfil do próximo presidente poderá influenciar diretamente a governabilidade. “Como o chefe de Estado tem o poder de dissolver o Parlamento, a escolha do novo presidente pode provocar novas eleições legislativas e redefinir o equilíbrio político no país”, afirma. Ele destaca ainda a importância da relação com o Brasil: “São países profundamente conectados por acordos, migração e laços históricos, o que exige estabilidade institucional e diálogo permanente”.