Pará tem mais de 25 mil armas registradas por CACs, mas porte pessoal cai ano a ano, aponta PF
Os dados divulgados pela Polícia Federal refletem o comportamento dos registros e autorizações relacionados a armas de fogo no estado ao longo dos últimos anos
O Pará tem mais de 25 mil armas registradas por Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores (CACs), mas porte pessoal cai ano a ano. Os dados da Polícia Federal também mostram oscilações significativas nos registros e autorizações relacionadas a armas de fogo no Estado entre 2023 e 2026, incluindo registros gerais, cadastros de CACs e concessões de porte para defesa pessoal.
De acordo com a PF, o número de registros de armas de fogo no estado foi de 539 em 2023. Em 2024, houve queda para 409 registros. Já em 2025, os números voltaram a subir, alcançando 690 registros. Em 2026, até o momento, foram contabilizados 28 registros. No caso específico de armas de fogo registradas por Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores (CACs), o Pará acumula 25.239 registros de armas de fogo, considerando apenas CACs ativos. A série histórica tem início em 1965, ano a partir do qual os dados passaram a ser contabilizados.
Os números referentes ao Certificado de Registro de CAC também apresentam variação ao longo dos anos. Em 2023, foram concedidos 11 certificados no estado. Em 2024, o total saltou para 957. No ano seguinte, 2025, o número chegou a 1.662 certificados. Já em 2026, até agora, foram emitidos 18 registros. Já os portes de arma de fogo para defesa pessoal vêm apresentando queda progressiva no Pará. Em 2023, foram concedidos 370 portes. Em 2024, o número caiu para 314 e, em 2025, para 272. Em 2026, até o momento, apenas cinco portes para defesa pessoal foram autorizados.
Os dados fazem parte do levantamento oficial da Polícia Federal e refletem o comportamento dos registros e autorizações relacionados a armas de fogo no estado ao longo dos últimos anos. Em Belém, o Clube de Tiro Bala de Prata e o Clube de Tiro Esportivo do Grão-Pará, ambos presididos por Flávio Mansos, atuam como espaços destinados à prática do tiro esportivo com foco na segurança, no controle e no cumprimento rigoroso da legislação brasileira. Segundo ele, o clube é um ambiente totalmente controlado, preparado para garantir segurança tanto aos atletas quanto à população ao redor.
Segundo Flávio, o papel do clube de tiro é justamente oferecer um local apropriado para a prática esportiva. “O Clube de Tiro é o local onde se faz a prática do tiro esportivo com segurança e com controle. Nós estamos num ambiente controlado, totalmente seguro para essa prática, seja para os nossos atletas e seja para os cidadãos ao redor”, explica.
No local, são realizadas competições e treinamentos em diversas modalidades, como tiro esportivo, tiro prático e tiro defensivo. Para frequentar o clube, há critérios definidos. Podem participar cidadãos maiores de 18 anos que não possuam inquérito policial ou antecedentes criminais, além de serem submetidos a exames psicológico e técnico de tiro, tanto teórico quanto prático.
O perfil predominante dos frequentadores, segundo Mansos, é de pessoas que buscam um esporte que exige disciplina, autocontrole e consistência emocional. O presidente disse ainda o papel do clube na promoção do uso responsável e seguro das armas de fogo. “Somos um órgão auxiliar de fiscalização do Exército brasileiro. Nesse contexto, fazemos cursos de capacitação, fiscalizamos atletas durante treinamentos e competições e oferece, à população em geral, cursos voltados ao uso da arma de fogo para defesa pessoal”, afirmou.
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Prática do tiro esportivo reduz estresse diário
Ainda segundo Flávio Mansos, a prática do tiro esportivo traz reflexos positivos para o dia a dia dos praticantes. “Na prática, o tiro esportivo torna você, primeiro, extremamente responsável para com a legislação. É exigida uma série de obrigações dos atletas do tiro esportivo. E, quanto aos benefícios individuais, ele cita melhora na concentração, redução do estresse cotidiano, maior autocontrole e demandas físicas e fisiológicas específicas, já que o atleta precisa assumir posições e determinadas condições que não são utilizadas normalmente. “O condicionamento físico é muito importante no tiro”, ressalta.
Em relação à rotina de treinos, um atleta considerado normal costuma treinar cerca de uma hora por dia. Já atletas de alto desempenho chegam a treinar em torno de quatro horas diárias. Flávio Mansos reforçou que a prática do tiro esportivo não significa autorização para portar arma de fogo em via pública. “Nós temos atletas de alto desempenho que não têm arma de fogo. A arma, na verdade, é apenas um instrumento, um equipamento esportivo”, explica.
Ele também esclarece que, para adquirir uma arma de fogo, é necessário ter pelo menos 25 anos. No entanto, atletas do tiro olímpico podem iniciar a prática a partir dos 14 anos, mesmo sem possuir armas próprias. Nesses casos, os jovens utilizam armamentos fornecidos pelo clube ou por seus responsáveis legais.
Durante a entrevista, Flávio Mansos também comentou sobre o armamento exposto no local, destacando que se trata de uma loja autorizada a funcionar pelo Exército Brasileiro e pela Polícia Federal. Os equipamentos disponíveis são voltados tanto para o tiro esportivo quanto para a defesa pessoal, uma demanda que, segundo ele, tem crescido no país. Ele ressalta que possuir uma arma para defesa residencial não autoriza o porte fora de casa. O porte é proibido no Brasil, com exceções determinadas em lei.
Ao falar sobre a importância do tiro esportivo para a sociedade, Mansos relembra que a primeira medalha de ouro olímpica do Brasil veio justamente dessa modalidade, conquistada pelo paraense Guilherme Paraense, nascido em Belém. Nós ainda estamos relegados a um segundo plano, seja em patrocínio, seja em investimentos, seja em recursos que possam fomentar o esporte.
“Todas essas estruturas que você está vendo aqui são privadas, mantidas por pessoas privadas”, afirma. Eu penso que ainda tem um grande espaço para que nós possamos colocar atletas de alto desempenho, como Estados Unidos e a China, com idades compatíveis com a alta performance. Nós não fazemos atletas com 30, 40 anos. Não tem como fazer isso. Temos que fazer atletas desde a base, desde o início, principalmente os universitários. E eu penso que o Brasil ainda pode trazer muita alegria no tiro olímpico, no tiro esportivo, com os nossos jovens.
Microempresário explica por que frequenta clube de tiro em Belém
O microempresário Eric Leão contou os motivos que o levaram a frequentar um clube de tiro em Belém, destacando a relação afetiva com armas de fogo construída ainda na infância, em atividades familiares no interior do Pará, e as dificuldades impostas pelas regras atuais para colecionadores, atiradores e caçadores (CACs).
Segundo ele, o interesse pelo tiro esportivo surgiu a partir da convivência com o avô, pai de seu pai, em uma época em que a compra de armamentos era mais simples, mediante apresentação de documento de identidade e comprovante de residência. Naquele período, as viagens em família para fazendas no interior incluíam práticas de tiro ao alvo, vivenciadas como lazer familiar. “Aquilo ficou gravado na minha cabeça”, contou.
Com a mudança de governos e o endurecimento da legislação, Eric disse que o acesso às armas passou a exigir um processo mais rigoroso, o que, somado ao falecimento do avô, interrompeu aquele convívio familiar ligado ao tiro esportivo. Já adulto, ele decidiu buscar meios legais para retomar a prática, com o objetivo de preservar a tradição e transmiti-la à filha e às futuras gerações.
Entre os bens de família, ele mantém um armamento antigo que pertenceu ao avô, herdado ao longo de gerações. Atualmente, a peça integra um acervo de colecionador, sem utilidade prática, mantida apenas como lembrança familiar. A partir dessa motivação, Eric afirmou que pesquisou clubes de tiro no Pará e encontrou a instituição que frequenta atualmente. No local, o Clube de Tiro Bala de Prata, disse ter recebido orientação de instrutores, dirigentes e atletas, que o ajudaram a compreender os procedimentos necessários para ingressar legalmente no esporte. “Mostraram um caminho que eu achava muito difícil, mas que não foi”, contou.
Processo para se tornar um CAC
O microempresário detalhou o processo para se tornar CAC, que inclui laudo psicotécnico, treinamento com instrutor do clube, prova de aptidão com instrutor credenciado à Polícia Federal e, após a aprovação, o envio da documentação ao órgão responsável, que antes era o Exército e hoje é a Polícia Federal. Somente após cumprir todas essas etapas ele teve acesso à primeira arma, comparando o procedimento à obtenção de uma carteira de habilitação para dirigir.
De acordo com Eric, quando o controle era feito pelo Exército, o processo levava em média três meses. Atualmente, sob responsabilidade da Polícia Federal, o prazo pode chegar a cerca de seis meses. Ele também afirmou que os custos aumentaram significativamente devido à incidência de novos impostos. Segundo sua estimativa, o investimento que antes representava cerca de 50% do valor atual, hoje pode chegar a um acréscimo de aproximadamente 90%.
Ele ressaltou que, no caso dos atletas, as armas adquiridas como CAC não podem ser utilizadas para defesa pessoal, sendo permitidas exclusivamente para o esporte. A legislação também determina regras rígidas para o transporte: o armamento deve estar desmuniciado, acondicionado em estojos apropriados, com a munição separada, tanto no trajeto de casa para o clube quanto no retorno.
Para o atirador, essas exigências aumentam a vulnerabilidade dos atletas. Eric Leão afirmou que, durante o transporte do acervo, não há meios legais de defesa, o que, em caso de abordagem criminosa, facilitaria o roubo das armas. “Nós somos cobrados a defender o nosso acervo, mas com o novo decreto não temos como defendê-lo”, declarou.
Dentro da residência, Eric explicou que a lei exige que o armamento esportivo fique guardado em cofre, desmuniciado, com a munição armazenada separadamente. Em uma situação de invasão domiciliar, segundo ele, a única possibilidade de reação seria abrir o cofre, municiar a arma e se defender, mesmo correndo o risco de responder judicialmente por utilizar um equipamento classificado como esportivo.
Questionado se pretende ter uma arma para autodefesa, o microempresário afirmou que considera a posse necessária, não por desejo pessoal, mas para proteger o acervo, conforme a lei exige, e garantir a segurança da família. Ele comparou a situação à condução de veículos, argumentando que pessoas habilitadas, treinadas e avaliadas psicologicamente têm condições de utilizar o equipamento de forma segura.
Sobre a segurança da família, ele explicou que o acesso às armas é restrito, com o cofre trancado e sob sua responsabilidade, fazendo um paralelo com o cuidado de não deixar a chave de um carro ao alcance de quem não é habilitado. Para ele, o risco não está no equipamento em si, mas no uso por pessoas sem preparo, reforçando que defende o cumprimento dos cursos, avaliações e regras legais para quem deseja possuir armas de fogo.
Dados importantes:
Oscilação nos registros e queda no porte de armas no Pará
A Polícia Federal aponta variações nos registros de armas de fogo entre 2023 e 2026, com crescimento em 2025 e redução em 2026 até o momento. Em contraste, os portes para defesa pessoal apresentam queda contínua ano a ano, chegando a apenas cinco autorizações em 2026.
Expressivo número de armas registradas por CACs
O Pará acumula mais de 25 mil armas de fogo registradas por Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores ativos desde 1965, evidenciando a relevância do segmento CAC no cenário estadual, apesar das restrições legais ao porte.
Papel dos clubes de tiro na segurança e no controle
Segundo Flávio Mansos, os clubes de tiro funcionam como ambientes controlados e seguros para a prática esportiva, com critérios rigorosos de acesso, exigência de exames técnicos e psicológicos, além de atuação como órgãos auxiliares de fiscalização, promovendo o uso responsável das armas.
Tiro esportivo como atividade disciplinadora e benéfica
O presidente dos clubes destaca que o tiro esportivo exige autocontrole, disciplina e preparo físico, além de contribuir para a redução do estresse e melhoria da concentração, reforçando que a prática não autoriza o porte de arma em via pública.
Críticas às regras atuais e sensação de vulnerabilidade dos CACs
O microempresário Eric Leão relata dificuldades impostas pela legislação atual, como o aumento de custos, maior tempo de espera e regras rígidas de transporte e guarda das armas. Ele aponta a vulnerabilidade dos atletas durante o deslocamento e defende a necessidade de uma arma para autodefesa, sobretudo para proteger o acervo e a família, ressaltando que passou por todos os treinamentos e avaliações exigidos por lei.
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