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Confira o depoimento completo da vítima no caso Bruno Mafra

Filha do cantor se manifesta após Justiça do Pará manter condenação por abuso sexual em segunda instância

Hannah Franco

A filha do cantor Bruno Mafra, Melissa Mafra, publicou um depoimento nas redes sociais na noite desta sexta-feira (27), após a Justiça do Pará manter a condenação do artista por estupro de vulnerável contra duas crianças. A decisão foi confirmada por unanimidade pela 1ª Turma de Direito Penal.

O caso ganhou repercussão após a manutenção da pena de 30 anos, 4 meses e 24 dias de prisão em regime inicial fechado. A manifestação ocorre após sete anos desde o início da denúncia, que veio a público em 2019, quando as vítimas já eram adultas.

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No pronunciamento, Melissa afirma que decidiu falar diante da repercussão do caso e destaca que a decisão judicial já reconheceu os fatos. O cantor nega as acusações.


Confira o depoimento completo da vítima

“Foram anos de luta e hoje eu vivo um luto, porque hoje eu enterrei o meu genitor, que por muitos anos eu quis que fosse meu pai, tivesse tido esse papel na minha vida. Eu me chamo Melissa Mafra e diante dessa repercussão, eu decidi me pronunciar. Pensei de diversas maneiras como eu poderia fazer isso, pois não é um assunto fácil, não é algo que eu consigo ainda falar de maneira que não me machuque.

Eu sempre digo que a apesar de eu ter sido vítima, eu sou combativa. Eu lutei. E foram 7 anos de luta para que a gente tivesse uma resposta.

Como vocês puderam ver nas reportagens, ele foi condenado em 2024, a primeira vez em primeira instância há quase 32 anos de prisão, mas recorreu e assim me mantive calada para que se tivesse ainda o entendimento do segundo grau, mantivemos eu e a minha irmã, e ontem saiu a confirmação da sentença, foi pública.

As pessoas conseguem ter acesso na no YouTube, enfim, então foi pública e por ele ser uma pessoa pública tomou essa proporção que está tomando. E eu gostaria de deixar claro que não é uma denúncia, não é uma suspeita, é uma condenação em segundo grau. Eh, inclusive uma condenação que foi de maneira unânime pelo entendimento das desembargadoras.

Como vocês podem ver nas reportagens, o meu advogado chegou a pronunciar e explicou que há sim possibilidade de recurso, porque no Brasil quem tem dinheiro pode recorrer sempre e há a possibilidade, mas não se discute mais os fatos. O que aconteceu. O que eu e a minha irmã falamos, expusemos, o nosso depoimento, toda análise técnica que foi feito, foi confirmado e já foi considerado como concreto.

O que vai ser discutido, o que pode ser discutido ainda é matéria de direito, que no caso, é processo falha processual, que inclusive até isso também já foi analisado as desembargadoras e nenhuma encontrou nenhum tipo de irregularidade, enfim, foi o foi contra tudo o que eles apontaram nessa fase do processo.

Então, eu sei que vão surgir, que já está surgindo várias especulações a respeito da situação do caso, e enfim, vários questionamentos de pessoas que fazem alguns comentários infelizes do tipo: "Ah, só agora que a mídia quer chamar atenção". Eu sei que tem gente que vai pensar isso, mas sinceramente, eu fiquei calada por tanto tempo que agora eu não vou realmente me importar com esses comentários, porque eu sei a minha verdade e a justiça reconhece a nossa verdade. Né?

Então, é, eu eu também vim aqui com uma maneira de ser uma alerta para que outras vítimas que possam ter passado por isso na fase da infância, saibam que é possível sim denunciar na fase adulta. Porque a gente não entende quando acontece na nossa infância, a gente não não consegue compreender de fato. Quando a gente cresce, a gente vai entendendo e a gente vai identificando, é é ali que a gente vai ter discernimento para decidir. Então é possível e hoje, é, com essa repercussão e com a decisão de ontem, eu vejo que a justiça isso pode ser feita.

Infelizmente a gente vive num num mundo e num país que é misógino, que as mulheres precisam constantemente tá se tá sempre provando o que falam, né? E E essa decisão, essa permanência, essa confirmação dessa sentença, ela é a prova de que o nosso depoimento ele tem força, ele tem força e que elas identificaram pela uma sequência lógica, por uma análise técnica de profissionais, peritos, psicólogos, enfim, então nada disso foi decidido por mera por mera conversa.

tá por mero, é, chateação. Eu já vi, já vi alguns comentários falando sobre a questão financeira. Ah, querem dinheiro. Gente, não tá ganhando nada com isso. Ninguém tá ganhando nada com isso. Na verdade, no fundo, tudo isso é muito triste, muito triste. Eu sempre falo isso para todo mundo que sabe da minha história. O quanto que eu queria que o meu pai tivesse sido só um pai ausente, que ele não é pai, é genitor. Que o meu genitor tivesse sido só um pai ausente. Eu, eu falo muito com a minha psicóloga, converso muito com a minha família, que restou, né?

Que eu, eu queria se eu pudesse fazer um pedido por gênero da lâmpada, é que ele nunca tivesse feito isso e que ele tivesse sido só um pai ausente, porque além dele ter sido dele ter feito o que ele fez, ele era um pai extremamente ausente. Ele nunca foi participativo na minha vida, inclusive as pessoas falam de financeiro, ah porque que há dinheiro, e nem a minha pensão ele pagou. Nunca ele pagou direito a minha pensão. Então assim, é muito absurdo olhar alguns comentários que ainda consegue questionar, mas assim, eu já esperava que isso fosse acontecer, até porque a gente vê isso todos os dias. A mulher tem vídeo gravado, a mulher sendo espancada, as pessoas dizem: "Ah, mas por quê? Ah, mas também ela estava fazendo o quê? O que ela fez?".

Então as pessoas as pessoas vão sempre questionar a palavra da mulher. E eu, sinceramente, não me importo com isso. Eu só me importo de que outras vítimas estejam em e fiquem alerta que é possível. Eh, eu não vou entrar em detalhes dos apuros, do que aconteceu, porque sim, são memórias que ainda machucam muito. Eu e minha irmã nos tratamos até hoje com terapia, então é algo que quando nós revisitamos é muito doloroso. Eu quero dizer que apesar de tudo isso, eu eu consegui.

Eu estudei, eu trabalhei, tenho hoje a minha empresa, tô conquistando dando, graças a Deus, muitas coisas e ele não me paralisou. E isso é um recado para toda vítima que não deixe eles paralisarem você. Não deixe ele paralisar você. Você não é o abuso que você sofreu, você não é a a humilhação que você sofreu, você é muito além disso e existe esperança. A gente consegue, a gente segue, a gente sobrevive. E para finalizar esse vídeo que já está muito longo, mas que realmente é muito difícil resumir tudo em um vídeo só.

É, eu quero agradecer principalmente e primeiramente a Deus por tudo, porque ele nunca me desamparou todo esse tempo. É, que ele fez o papel de pai, que ele é o nosso pai. Então ele supriu o papel que eu não tive. É, ele é tão maravilhoso que ele providenciou pessoas na minha vida, providenciou a família da minha irmã, a minha família, que nos apoiou todo esse tempo, esteve ao nosso lado, viu o nosso sofrimento, que nunca nos abandonou, os avós da minha irmã, a mãe da minha irmã, que é a minha mãe de coração, a família do meu noivo, que é a minha família que ele colocou para cuidar, para proteger, para estar do meu lado e sobretudo a minha mãe, que apesar de todas as dificuldades nunca me abandonou. Ela é o motivo de eu ter continuado, de eu ter lutado até aqui por ela, porque ela precisa muito de mim.

Então, eu sei que para muita gente, ele é um artista admirável que marcou uma geração. Mas para mim, para minha irmã, ele é o começo de uma história que a gente quer encerrar, que a gente tá tendo a coragem de encerrar. Hoje, mais uma vez, eu não como mero. Hoje, eu sinto um alívio, mas eu tô vivendo um luto. Um luto de enterrar um genitor em vida.”