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Casos de desaparecimento sobem 13,47% em um ano no Pará

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 mostram que, em 2024, foram notificados 943 casos de desaparecimento no estado, enquanto em 2025 o número subiu para 1.070

Saul Anjos

Em um ano, o número de desaparecimentos no Pará aumentou 13,47%. Segundo os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, divulgado no dia 23 deste mês, em 2024 foram notificados 943 casos de desaparecimento no estado, enquanto em 2025 o número subiu para 1.070. Neste período, o Anuário contabilizou ainda um leve crescimento de aproximadamente 2,8% nos registros de pessoas localizadas entre 2024, que foi 795, e 2025, 817, no estado. Em 2026, um dos casos de desaparecimentos que ainda não foram solucionados é o de José Artur Souza Barros, de 1 ano e 11 meses, ocorrido em Eldorado dos Carajás, no sudeste paraense.  No dia 26 de julho, o sumiço dele completou quatro meses e, até agora, a família não sabe o que aconteceu com ele.

A delegada Daiane Monteiro, diretora da Delegacia de Pessoas Desaparecidas, explicou que, quando comparados com os números de outros estados do país, os registros de desaparecimento no Pará são considerados proporcionais ao número de habitantes. Daiane contou que muitos estão ligados a usuários de drogas, pessoas que vivem em situação de rua, idosos com doenças neurodegenerativas, pessoas com transtornos mentais. Porém, de acordo com a policial civil, nem todos esses casos estão relacionados a crimes, e sim a outras circunstâncias.

“Existem muitos desaparecimentos que são voluntários, pessoas que se deslocam para outros estados e perdem o contato com familiares e, às vezes, também por conflitos familiares cortam contato sem avisar. Assim como tem vários casos de pessoas em vulnerabilidade social. A gente avalia que o cenário aqui é um padrão a nível nacional”, informou.

O desaparecimento de uma pessoa costuma ser um momento de desespero para familiares e amigos. Em meio à angústia, muitas pessoas ainda acreditam que é necessário esperar 24 ou até 48 horas para registrar a ocorrência. No entanto, essa informação é um mito. O boletim de ocorrência pode ser registrado imediatamente, e as primeiras horas após o desaparecimento são consideradas fundamentais para aumentar as chances de localização.

Ela detalhou que, após o registro de um boletim de ocorrência, a Polícia Civil coleta todas as informações sobre a pessoa desaparecida, circunstâncias do desaparecimento e coleta depoimentos. Uma das orientações dadas pelos agentes é que a família faça buscas em hospitais, unidades de acolhimento e de saúde, sistema de segurança e procure a imprensa para a divulgação do caso.

"A tecnologia é fundamental na localização de pessoas desaparecidas. Porque a gente consegue encontrar muitas provas por meio dela, principalmente avaliando imagens de videomonitoramento, a geolocalização da pessoa desaparecida, quando se tem um smartphone, por exemplo, o cruzamento de banco de dados tanto na Polícia Civil como com outros órgãos”, disse.

Por isso, ela alertou que, sempre que a família perceber uma mudança na rotina de alguém que levante suspeitas, procure a polícia. “Aumenta significativamente as chances de localizar a pessoa e também preserva provas importantes, como imagens de câmeras de segurança que, na maioria das vezes, têm um curto período de tempo em que essas imagens se perdem. No geral, quanto mais a gente demora a investigar algo, maior é a chance de que os vestígios se percam. O principal desafio (das investigações) é a ausência de informações precisas nas primeiras horas do desaparecimento”, declarou.

A delegada Daiane também comentou que a população pode ajudar nos casos de desaparecimento. Um deles é o contato funcional da Delegacia de Pessoas Desaparecidas (91) 99991-0047 e também pelo Disque-Denúncia, no número 181. “Ela pode colaborar passando informações diretamente para a Polícia Civil, inclusive oficiais, e também evitando divulgar informações não confirmadas ou boatos em redes sociais, o que acontece muito”, disse.

Na hora de registrar um boletim de ocorrência, é importante que a família leve uma foto atualizada da pessoa que sumiu, informe as características físicas dela, roupa que utilizava antes de desaparecer, locais que costumava frequentar e pessoas com quem mantinha contato, inclusive as que moram em outros locais.

A Delegacia de Pessoas Desaparecidas, que é vinculada à Divisão de Homicídios, fica na avenida Governador Magalhães Barata com a travessa Francisco Caldeira Castelo Branco, e funciona em horário comercial, de segunda a sexta. A unidade policial é responsável pelos casos de desaparecimento de pessoas maiores de 18 anos na Região Metropolitana de Belém. Casos envolvendo crianças e adolescentes devem ser registrados na Divisão de Atendimento ao Adolescente (DATA). Se a ocorrência acontecer no interior do Pará, a delegacia do município em questão será responsável pela investigação. 

Bebê desaparecido há quatro meses

Geiciara Souza, 26 anos, autônoma, é mãe de José Artur Souza Barros, de 1 ano e 11 meses. Ela relembra que estava lavando roupa no dia 26 de março e havia pedido ajuda do marido para entender as vestimentas no varal por volta das 17h. O filho dela brincava com os primos em frente à casa da família, na Vila Peruana, no Assentamento Lourival Santana. De forma rápida, José sumiu e, desde então, nunca mais foi visto. Ninguém soube dizer o que houve. 

Para localizá-lo, foi instituída uma força-tarefa integrada, com a participação das polícias Civil, Militar e Científica, além da Marinha do Brasil, Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e do Ministério Público. O trabalho teve apoio de cães farejadores, drones, uso de sonar em cursos d’água, atuação de mergulhadores, análise de imagens de câmeras de segurança e perícia em veículos. Moradores da área e familiares foram ouvidos pelas autoridades. 

No dia 10 de abril, dois homens foram presos por suspeita de envolvimento no sumiço do menino. Na época, a Polícia Civil do Pará (PCPA) informou que a ação foi resultado de uma operação conjunta envolvendo a Superintendência Regional de Carajás, a Delegacia de E​ldorado dos Carajás e a Delegacia de Pessoas Desaparecidas.

“Até agora, não tivemos informações, porque o caso estava sendo investigado em Eldorado, mas pedimos que fosse transferido para Marabá. Estamos esperando apenas a oficialização do caso em Marabá para o delegado de lá iniciar as investigações.  É muita demanda em Eldorado e só um delegado não está dando conta. A gente achou melhor passar para Marabá ficar com o caso do neném, porque já tem quatro meses e até agora nada”, afirmou.

Apesar da dor do sumiço do filho e da falta de resposta, ela destacou que nunca perdeu a esperança.  E, conforme Geiciara, essa ferida aumenta ainda mais com pessoas que passam trotes para ela sobre o caso. “Estamos à espera de receber uma notícia boa de que o encontrou. Tem dias que não são fáceis. Toda vez que vou fazer uma coisa, só lembro desse dia (do desaparecimento). De um tempo para cá, tem muita criança, cujos pais não colocam ordem, me ligando, mandando mensagem, fazendo trote e pedindo dinheiro. Os pais precisam tomar providências para que os filhos não fiquem passando esses trotes para nós. Eles não sabem o quanto isso nos magoa ainda mais. Já estamos sofrendo”, destacou.

Para as famílias que estejam passando pela mesma luta de um desaparecimento, Souza deixou a mensagem: “Não perca a . Sempre continue procurando. Ore muito, porque não é fácil. Só quem está passando por isso sabe o quão é difícil e complicado. Mas nada para Deus é impossível”.

Nas redes sociais, o advogado criminalista Elisson Araújo, que representa a família de José Artur, contou que fez buscas pelo menino e, em uma dessas diligências, localizou uma bermuda infantil parcialmente queimada em uma propriedade próxima ao local do desaparecimento. Segundo ele, o material foi recolhido pelo delegado responsável, com preservação da cadeia de custódia. Na publicação, Elisson comenta que o imóvel onde estava a roupa estaria ligado a uma pessoa que é investigada pelo sumiço do bebê.

“Agora, precisamos de respostas.  Esse material foi periciado? Em que estágio está a análise? Qual prioridade foi dada a esse possível vestígio? Também solicitei ao delegado-geral (Raimundo Benassuly) a avocatura da investigação de Eldorado dos Carajás para Marabá, por entender que possui maior estrutura operacional”, disse ele.

Em nota, a PCPA informou que as investigações estão em andamento pela Delegacia de Eldorado dos Carajás e que informações podem ser repassadas pelo Disque-Denúncia, no número 181. O sigilo é garantido.