Pescadores denunciam suposta extorsão em casas lotéricas

O pagamento do seguro-defeso estaria condicionado à aposta com valor mínimo de R$ 29,90 em Belém e Salvaterra

Cleide Magalhães

Pescadores da ilha do Marajó que recebem o seguro-defeso denunciam serem alvos de extorsão em casas lotéricas da região e também em Belém. De acordo com os relatos, trabalhadores são obrigados - para terem acesso ao pagamento - a realizarem apostas cujos valores variam de R$ 29,90 até R$ 69,90.

O benefício é uma espécie de seguro-desemprego pago aos pescadores artesanais durante o período de paralisação da pesca para preservação das espécies. O valor do seguro corresponde a um salário mínimo por mês durante toda a temporada de suspensão.

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Segundo o pequeno empresário Silvio Amador, 44 anos, que mora na Sacramenta, os familiares dele, que tentaram fugir do golpe em Salvaterra, na ilha do Marajó, acabaram sendo vítimas de extorsão também em Belém. Os casos teriam ocorrido em uma Casa Lotérica que fica dentro de um hipermercado, no bairro do Reduto, e em um shopping center, na Sacramenta.

"Minhas duas sobrinhas e meu cunhado são pescadores no interior de Salvaterra, onde a cobrança para aposta para liberação do pagamento já ocorre. Eles vieram sacar o pagamento nesses dois locais em Belém. Elas sacaram na quinta (2) e tiveram que comprar, em uma Casa Lotérica dentro de um shopping center no Telégrafo, uma aposta de R$ 29,90 cada, que é a mais barata porque iam receber somente uma parcela do benefício. Mas, no sábado (4), meu cunhado teve que pagar R$ 59,90 por uma aposta, pois veio receber os quatro meses do benefício, em uma Casa Lotérica dentro de um hipermercado no Reduto", denunciou.

"Acho isso errado. Essas pessoas dependem desse dinheiro do governo para não irem pescar os animais em reprodução. Aí são vítimas tanto no interior quanto na capital desse tipo de coisa. Se for investigar, as autoridades vão ver isso. Nesse ponto que fica dentro de um shopping, no Telégrafo, verifica-se que há duas filas. Uma delas só para jogo e o pessoal do defeso tem que ficar nessa fila sendo obrigada a comprar o jogo. Se não comprar, não recebe. Minha sobrinha perguntou até se podia comprar de R$ 3,00 e disseram que não, só o mais barato de R$ 29,90. Em Salvaterra, meus parentes me disseram que custa R$ 79,00. Então, muita gente vem para receber em Belém e volta no mesmo dia. Aqui em Belém acontece em várias Casas Lotéricas. As autoridades têm que tomar conhecimento e acabar com isso. É um roubo, fico indignado e por isso faço a denúncia", reclamou.

Na manhã de terça-feira (7), a reportagem acompanhou o andamento da fila na Casa Lotérica dentro do shopping no Telégrafo e, na ocasião, não constatou a possível obrigatoriedade na compra de jogo durante o pagamento feito a uma pescadora que estava na fila. Ainda na ocasião, a gerência do espaço não estava no local. Um homem que trabalhava na fiscalização das filas pela gerência negou que esse tipo de situação ocorresse. Ele afirmou que os jogos são oferecidos a todas as pessoas e a compra não é obrigatória nem mesmo para os pescadores artesanais.

Caixa

As Casas Lotéricas são comércios de venda de jogos de loterias e de produtos conveniados à Caixa Econômica Federal. Em nota, a assessoria de imprensa da Caixa esclareceu que "não vincula ou condiciona o pagamento de benefícios sociais à realização de apostas nas casas lotéricas ou a quaisquer serviços, assim como não realiza cobrança de taxa para realização do saque no caixa de suas agências".

Além disso, enfatizou que as denúncias serão apuradas, encaminhadas e, em caso de confirmação dos fatos, serão aplicadas medidas administrativas previstas em contrato com as unidades lotéricas envolvidas, conforme Circular 856/2019.

A Caixa informou ainda que disponibiliza aos seus clientes o canal da Ouvidoria, pelo telefone 0800 725 74 74, para que possam realizar denúncias e reclamações sobre produtos e serviços do banco.

"A Caixa utiliza todas as reclamações registradas para a melhoria constante de seus processos, com a implantação de ações de correção pelas áreas gestoras e pelas agências com o objetivo de melhorar os canais presenciais e digitais de atendimento, priorizando o aumento da confiança e a satisfação dos nossos clientes", afirmou a Caixa.

Pará