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Pará registra aumento de 6,78% de internações psiquiátricas em um ano

Dia Nacional da Luta Antimanicomial reforça cuidado construído com respeito, escuta e humanidade

Ayla Ferreira*

O Pará registrou um aumento de 6,78% de internações psiquiátricas em 2025, em comparação ao ano de 2024, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa). Foram registradas 3.659 internações em 2024 e 3.907 internações em 2025. Em 2026, até o momento, 1.346 pacientes foram internados.

Para Rosângela Cecim, integrante do Movimento de Luta Antimanicomial do Pará (MLA-PA), o aumento das internações é reflexo da necessidade de expansão da rede de atenção psicossocial. Atuante na luta antimanicomial, ela destaca que é preciso um investimento maior.

“Precisamos de serviços de cuidado e liberdade, como acolhimentos noturnos e 24h. Eles devem funcionar 24h, porque devem ser substitutivos ao manicômio, para atender a situação de crise, sofrimento mental e sofrimento psíquico. Por isso, as internações acontecem”, diz.

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Luta antimanicomial

Resultado de uma mobilização que redirecionou o modelo de assistência à saúde mental no Brasil, a luta antimanicomial é celebrada nesta segunda-feira (18), no Dia Nacional da Luta Antimanicomial. A data reforça a importância do cuidado em liberdade, com respeito à dignidade, aos direitos humanos e à cidadania das pessoas em sofrimento psíquico. Este ano, a Lei nº 10.216/2001, conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica, completa 25 anos de existência.

Com a Lei da Reforma Psiquiátrica, foi instituído um novo modelo de cuidado em saúde mental baseado na garantia de direitos, na dignidade humana e na substituição progressiva do modelo manicomial por uma rede territorial de atenção psicossocial. A reforma psiquiátrica brasileira representa um marco histórico na consolidação de práticas de cuidado humanizadas, comunitárias e interdisciplinares.

Seu principal objetivo é assegurar que pessoas em sofrimento psíquico sejam acompanhadas em liberdade, próximas de seus territórios, vínculos familiares e comunitários, reduzindo internações prolongadas e fortalecendo estratégias de cuidado em rede.

Mudança histórica

Para Márcia Yamada, Coordenadora Estadual de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, o Dia Nacional da Luta Antimanicomial lembra a necessidade de superar práticas excludentes e de fortalecer um modelo de atenção humanizado, acolhedor e baseado no vínculo com o território, a família e a comunidade.

A coordenadora ainda ressalta que a Luta Antimanicomial representa uma mudança histórica na forma de compreender e cuidar da saúde mental. Antes, o modelo era centrado no isolamento e na institucionalização prolongada das pessoas em hospitais psiquiátricos. Hoje, entende-se que o cuidado deve acontecer de forma integrada, respeitando a singularidade de cada usuário, promovendo autonomia, reinserção social e acesso aos direitos.

“A Lei da Reforma Psiquiátrica, a Lei nº 10.216/2001, foi um marco fundamental no Brasil. Ela garantiu a proteção dos direitos das pessoas com transtornos mentais e redirecionou o modelo assistencial em saúde mental, priorizando os serviços comunitários e substitutivos às internações de longa permanência. Essa legislação fortaleceu a compreensão de que a pessoa em sofrimento psíquico deve ser cuidada em liberdade sempre que possível, com suporte multiprofissional e acompanhamento contínuo”, explica.

O modelo de cuidado estabelecido no SUS acontece por meio da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que organiza os serviços de saúde mental de forma articulada e territorializada. Fazem parte dessa rede os CAPS, as unidades básicas de saúde, os serviços de urgência e emergência, os leitos em hospitais gerais, as residências terapêuticas, entre outros pontos de atenção. A rede busca garantir cuidado integral, acolhimento e continuidade do tratamento.

Segundo a Sespa, a saúde pública trabalha na perspectiva da redução de danos, do cuidado humanizado e do fortalecimento dos vínculos familiares e sociais. O objetivo não é apenas tratar sintomas, mas compreender a pessoa em sua totalidade, considerando suas condições de vida, seu contexto social e suas necessidades.

Como funcionam os CAPS?

Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) integram uma rede de serviços estratégicos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), funcionando como porta de entrada especializada para o cuidado em saúde mental. Os CAPS realizam atendimento diário e contínuo a pessoas com transtornos mentais severos e persistentes, além de usuários com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde de Belém (Sesma), os serviços funcionam por meio de equipes multiprofissionais compostas por psicólogos, psiquiatras, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, farmacêuticos, técnicos de enfermagem, educadores físicos, arte-educadores e outros profissionais. O cuidado é construído de forma singular, considerando a história, o contexto social e as necessidades de cada usuário.

As atividades terapêuticas e comunitárias têm papel fundamental no processo de reinserção social, fortalecimento da autonomia e reconstrução de vínculos afetivos e sociais dos usuários. A proposta do cuidado em liberdade busca romper estigmas historicamente associados ao sofrimento mental e promover cidadania, inclusão e participação social.

Entre as principais ações desenvolvidas, estão:

  • Acolhimento e escuta qualificada;
  • Atendimento psicológico e psiquiátrico;
  • Acompanhamento medicamentoso;
  • Grupos terapêuticos;
  • Oficinas de arte, cultura, geração de renda e autocuidado;
  • Visitas domiciliares;
  • Atendimento às famílias;ações de redução de danos;
  • Articulação com escolas, unidades de saúde, assistência social e demais equipamentos do território.
  • Acolhimento humanizado

Em Belém, há a ampliação e fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial por meio da Sesma, que atua em conformidade com os princípios da Reforma Psiquiátrica e da Política Nacional de Saúde Mental. As ações incluem atendimento territorializado, cuidado interdisciplinar, acolhimento humanizado e integração entre atenção básica, CAPS, urgência e emergência, assistência social e demais políticas públicas.

A rede municipal conta com unidades de referência voltadas ao atendimento de diferentes públicos e demandas em saúde mental. A população pode acessar os serviços por encaminhamento das Unidades Básicas de Saúde, demanda espontânea em situações de crise ou por busca ativa realizada pelas equipes de saúde.

Além dos CAPS, a Rede de Atenção Psicossocial também envolve Unidades Básicas de Saúde (UBS; Estratégia Saúde da Família; Consultório na Rua, específico para população em situação de rua; e leitos de saúde mental no Hospital Gaspar Viana.

A população que necessitar de apoio em saúde mental pode procurar a Unidade Básica de Saúde mais próxima, os CAPS de referência territorial ou serviços de urgência em situações de crise. O acesso é gratuito e realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Estigma 

Em um espaço onde hoje funciona uma universidade na avenida Almirante Barroso, se localizava o Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, popularmente conhecido como “Hospital de Alienados” — uma denominação que reflete o preconceito e o estigma da época. O Hospital ocupava um perímetro entre a travessa Perebebuí e a avenida Dr. Freitas. Na década de 1980, parte da estrutura foi destruída após um incêndio, sendo desativada dois anos depois pela gestão estadual da época, que solicitou a demolição do prédio.

"Ali foi, por muitos anos, o manicômio mais tradicional, que representou com todas as características a perversidade do manicômio. Quando você conhece a história dos espaços, você não vai repetir. É conhecer para entender como foi o processo de exclusão, violação, sofrimento e aniquilamento das pessoas em sofrimento mental que o manicômio produziu e produz até hoje”, argumenta Rosângela Cecim, representante do MLA-PA.

 

Conheça a rede de CAPS em Belém


>> Unidades Municipais:

 

CAPS III Marisa Santos

  • Endereço: Travessa Dom Romualdo de Seixas, nº 1954 – Umarizal
  • Público-alvo: pessoas com Transtorno Mental Grave e Persistente (adulto), incluindo autismo com sofrimento intenso, além de usuários de álcool e outras drogas (adolescentes e adultos)
  • Abrangência: Guamá, Terra Firme, Condor, São Brás, Fátima, Nazaré e Ilhas
  • Funcionamento: 24 horas

 

CAPS II AD

  • Endereço: Avenida Governador José Malcher, nº 1457 – Nazaré
  • Público-alvo: adolescentes e adultos com necessidades relacionadas ao uso de substâncias psicoativas
  • Abrangência: Região Metropolitana de Belém e Mosqueiro
  • Funcionamento: segunda a sexta-feira, em horário comercial

 

UAA – Unidade de Acolhimento

  • Atendimento referenciado aos usuários acompanhados pelo CAPS AD, com necessidade de acolhimento residencial transitório
  • CAPS Mosqueiro
  • Gestão: Municipal
  • Endereço: Rua Francisco Xavier, nº 1077 – Maracajá
  • Público-alvo: adultos com Transtorno Mental Grave e Persistente
  • Abrangência: Distrito de Mosqueiro
  • Funcionamento: segunda a sexta-feira, em horário comercial

 

CAPS Infanto Juvenil

  • Endereço: Rua Magno Araújo, nº 300 – Telégrafo
  • Público-alvo: crianças e adolescentes com sofrimento psíquico intenso e persistente
  • Abrangência: Região Metropolitana de Belém e Mosqueiro
  • Funcionamento: segunda a sexta-feira, em horário comercial

 

>> Unidades Estaduais

 

CAPS III Renascer

  • Endereço: Travessa Mauriti, nº 2179 – Marco
  • Público-alvo: adultos com Transtorno Mental Grave e Persistente
  • Abrangência: URE Presidente, Curro, Cremação, Telégrafo, Umarizal, Souza, Val-de-Cães
  • Funcionamento: 24 horas

 

CAPS AD III Marajoara

  • Endereço: Travessa SN-4 – Marambaia
  • Público-alvo: adolescentes e adultos usuários de álcool e outras drogas
  • Abrangência: Belém e demais municípios do Estado
  • Funcionamento: 24 horas
     

CAPS Icoaraci

  • Endereço: Rua Quinze de Agosto, nº 845 – Cruzeiro
  • Público-alvo: adultos com Transtorno Mental Grave e Persistente
  • Abrangência: Icoaraci, Outeiro, Pratinha, Tapanã e Ilha de Cotijuba
  • Funcionamento: segunda a sexta-feira, em horário comercial

 

CAPS II Grão Pará

  • Endereço: Rua dos Tamoios, nº 1342 – Batista Campos
  • Público-alvo: adultos com Transtorno Mental Grave e Persistente
  • Abrangência: Jurunas, Nazaré, Condor, Cidade Velha, Batista Campos, Reduto e Comércio
  • Funcionamento: segunda a sexta-feira, em horário comercial

 

CAPS Amazônia

  • Endereço: Passagem Dalva, nº 377 – Marambaia
  • Público-alvo: adultos com Transtorno Mental Grave e Persistente
  • Abrangência: Tapanã, Pratinha, Cabanagem, Castanheira, Souza, Águas Lindas, Marambaia, entre outros territórios
  • Funcionamento: segunda a sexta-feira, em horário comercial

 

*AYLA FERREIRA (ESTAGIÁRIA DE JORNALISMO, SOB SUPERVISÃO DE FABIANA BATISTA, COORDENADORA DO NÚCLEO DE ATUALIDADES)