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Necessidade de menor exposição nas redes sociais cresce entre jovens paraenses

Os motivos que levam à escolha pelo 'low profile' se relacionam com a segurança e exposição excessiva nas redes

Ayla Ferreira

No ano de 2025, o Brasil registrou 144 milhões de usuários digitais ativos nas redes sociais, segundo dados do Digital Report 2025. A maior concentração de usuários está entre 18 a 34 anos. Apesar do aumento da presença das redes sociais na vida dos jovens brasileiros, um movimento contrário também vem ganhando mais adeptos: o ‘low profile’, termo com origem no inglês, que significa alguém discreto ou que possui comportamentos que não chamam a atenção do público.

As pessoas ‘low profile’ são aquelas que estão nas redes sociais, mas não postam com frequência e evitam expor detalhes da vida pessoal além do necessário. Às vezes, são contas sem foto de perfil, com poucas fotos no feed e poucos stories. Perfis privados, com número limitado de seguidores, também são algumas das características da prática. Existem vários motivos para a escolha, desde preocupações com a segurança até a fadiga gerada pela exposição excessiva às redes, que pode afetar a saúde mental.

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Alguns estudos já destacam que o uso excessivo de redes sociais pode fragmentar a atenção e a capacidade de concentração em tarefas longas. O advogado Pedro Carvalho, de 25 anos, viveu na prática o problema, o que o motivou a se afastar das redes. “Eu me distraía muito facilmente e não conseguia focar na mesma tarefa por muito tempo. Às vezes, eu chegava a adiar uma tarefa que era preciso fazer para ficar olhando rede social, passava muito tempo”, conta.

Ao se deparar com conteúdos informativos sobre o impacto das redes sociais e o consumo médio dos brasileiros, o advogado decidiu que era a hora de fazer uma pausa. No entanto, a escolha trouxe algumas consequências, como a diminuição do fluxo de clientes que entravam em contato pelo Instagram.

“Sei que teve esse custo, mas felizmente estava em uma posição onde não dependia disso, então pude sair. Entendo que é um custo, tenho colegas cuja captação de clientes vem das redes sociais e não poderiam fazer isso”, diz.

Já na vida diária, Pedro já percebe alguns benefícios, como o uso menos frequente do celular, a melhora no foco e na execução de tarefas. Além disso, relações pessoais, como namoro, família e amigos próximos não alteraram ao optar pelo ‘low profile’. Uma das pequenas diferenças vistas foi em relação aos amigos mais distantes, cuja forma de se manter perto era através da interação nos aplicativos. Ele afirma que, ainda assim, quando os encontra, os laços permanecem os mesmos.

Para quem deseja abrir mão das redes sociais, o advogado aponta uma palavra-chave: tentar. “Tem que tentar. Primeiro, tentar diminuir o consumo ou cortar de vez. Tenho um amigo que decidiu apagar e está há anos sem redes sociais e isso não impactou muito a vida dele. Assim como tenho amigos que diminuíram o consumo, colocam bloqueador de horário, que a partir de quando atinge 15 minutos de uso, bloqueia o aplicativo. E deu certo para eles. Eu acho que é ver se o uso da rede social está te afetando e a partir disso tentar estratégias para contornar isso”, avalia Pedro.

Equilíbrio é a chave

O movimento ‘low profile' surge como uma resposta dos jovens à saturação pela exposição nas redes sociais, como alternativa para diminuir a exposição, a cobrança e ter menos necessidade de sustentar uma imagem idealizada. Existem três principais lados negativos que norteiam as redes atualmente: a comparação social excessiva, a dependência de validação externa e a sobrecarga cognitiva e emocional.

“O que a gente observa é uma saturação da exposição. As redes sociais deixaram de ser apenas um espaço de interação espontânea e passaram a funcionar, muitas vezes, como uma vitrine de performance constante. Isso gera comparação, pressão por validação e uma sensação contínua de estar sendo observado”, explica Thaís Knopp, psicóloga, neuropsicóloga e professora universitária de uma instituição particular.

Com isso, as pessoas tendem a se comparar com versões de vidas alheias que não podem não condizer com a realidade, sendo apenas recortes. “As pessoas utilizam métricas como curtidas e visualizações como referência de valor pessoal e ficam expostas a um volume muito grande de informações, sem tempo adequado para processamento. Isso pode impactar autoestima, ansiedade e até a forma como o indivíduo percebe a própria realidade”, alerta Thaís.

Comum entre adolescentes, formatos de contas como ‘dix’, ‘daily’ e até mesmo a funcionalidade Amigos Próximos do Instagram são formas de se expor e ao mesmo tempo restringir o conteúdo para os mais próximos. Segundo a professora, essa ação é uma forma de autorregulação social, o que pode ser positivo, porque reduz o julgamento amplo e favorece vínculos mais seguros.

“Ao mesmo tempo, existe um lado delicado: a formação de microgrupos pode intensificar sentimentos de exclusão ou reforçar bolhas sociais. Jovens que possuem perfis mais públicos, inclusive com lógica de influência, criam esses espaços paralelos para separar conteúdos, organizar melhor o que é pessoal e o que é exposição, ou até construir um público mais segmentado. Ou seja, não é apenas proteção; também pode ser uma forma de gestão de identidade e de audiência”, argumenta.

Um dos principais impactos para quem opta pela diminuição da exposição online é a diminuição da visibilidade, o que pode afetar oportunidades de interação social em um mundo conectado. “Por outro lado, há uma troca interessante: menos quantidade e mais qualidade. Essas pessoas costumam investir mais em relações já estabelecidas ou em interações fora da lógica de exposição pública. É menos vitrine e mais bastidor”, afirma Thaís.

Já em relação aos benefícios, quem passa menos tempo nas redes tende a reduzir a comparação social, a ansiedade por validação e a necessidade de sustentar uma imagem idealizada. Como o ‘low profile’ não se afasta completamente das redes, podem surgir alguns impactos psicológicos ao continuar consumindo a vida dos outros, mas apenas como um observador. “Em alguns casos, a comparação e a sobrecarga permanecem, só que de forma mais silenciosa”.

“O low profile é uma estratégia válida, mas não é a única. Para algumas pessoas, inclusive, reduzir a exposição pode ser uma forma de proteção; para outras, pode funcionar como evitação. O mais importante é que a rede deixe de ser um espaço de validação pessoal e passe a ser apenas uma ferramenta dentro da vida e não o centro dela”, finaliza.

*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de Ana Laura Carvalho, repórter do núcleo de Atualidades