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Faltar na escola pode comprometer o desenvolvimento social e cognitivo infantil

A escola é um ambiente de convivência e ajuda a desenvolver habilidades que vão além da aprendizagem

Ayla Ferreira

O ambiente escolar é um espaço fundamental para a aprendizagem acadêmica e também para o desenvolvimento de habilidades sociais, emocionais e cognitivas, que dependem da vivência diária na escola. Quando a criança falta com frequência, podem surgir alguns problemas, que vão desde dificuldades nos estudos até o comprometimento do desenvolvimento social, além de impactos para a saúde mental.

O assunto ganhou destaque nas redes sociais recentemente após o caso envolvendo a influenciadora Virgínia Fonseca. O Conselho Tutelar de Goiânia notificou a escola de sua filha mais velha, Maria Alice, em resposta a uma denúncia anônima sobre supostas faltas escolares frequentes.

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A advogada Rafaella Borges possui diversos cuidados para evitar que o filho falte na escola. Ela é mãe do Miguel, de 4 anos, estudante do Espaço da Criança Hage CEI. “Essa preocupação vem, em grande parte, da minha própria experiência escolar, em que a frequência era levada muito a sério. Hoje, procuro transmitir esse valor ao meu filho, pois acredito que a assiduidade é essencial para o aprendizado, para o desenvolvimento contínuo e para a socialização da criança”, afirma.

Para Rafaella, a chave para enfrentar a resistência matinal dos pequenos e o cansaço é estabelecer uma rotina consistente e se empenhar para mantê-la. A rotina de Miguel é centrada na organização, com horários definidos para jantar e dormir, garantindo um bom descanso. A advogada também procura sempre reforçar que a escola é um ambiente positivo, no qual o filho pode aprender e também brincar com os amigos, tornando a experiência mais atrativa.

“Meu filho nunca teve problemas nos estudos ou na área social. No entanto, conheço uma família que permite que a criança falte com frequência por motivos simples, como cansaço. Percebo que isso acaba gerando prejuízos tanto no aprendizado quanto na socialização da criança”, diz Rafaella.

No dia a dia, um dos principais benefícios percebidos pela frequência constante na escola é o desenvolvimento da socialização e da comunicação de Miguel. “Isso proporciona mais segurança para a criança participar das atividades, se expressar melhor, se tornar mais desinibida e encarar o dia a dia com mais leveza e naturalidade”, destaca.

Parceria entre família e escola é necessária

As faltas atrapalham o processo contínuo do aprendizado, dificultando a compreensão dos conteúdos e a construção do conhecimento. Além disso, a criança pode apresentar insegurança, perda de vínculo com a rotina escolar e dificuldades de socialização com a turma.

“Embora a legislação estabeleça a obrigatoriedade mínima de 75% de frequência, o prejuízo pedagógico pode surgir antes disso. Ausências recorrentes, mesmo que espaçadas, já impactam o ritmo de aprendizagem, especialmente nos anos iniciais”, explica a pedagoga Margarida Freire Araújo.

Na escola, o acompanhamento da frequência se dá por meio de registros diários. Ao perceber faltas recorrentes, as instituições podem acionar a família para compreender a situação. “Em alguns casos, são adotadas estratégias pedagógicas de recomposição da aprendizagem e, quando necessário, encaminhamentos para a rede de proteção”, detalha Margarida.

Segundo a pedagoga, a parceria entre os ambientes escolar e familiar é fundamental. A família deve manter uma rotina organizada, valorizar a presença diária e comunicar previamente qualquer ausência. Já a escola pode oferecer acompanhamento pedagógico, reforço e acolhimento, garantindo que a criança consiga retomar o processo de aprendizagem sem prejuízos maiores.

Faltas podem gerar irritabilidade e impactos sociais

A primeira infância é considerada a base do desenvolvimento humano, e as vivências da época têm repercussão em toda a vida adulta. Segundo Sandra Vieira, professora do curso de Psicologia de uma instituição particular em Altamira, faltar pode trazer impactos para o desenvolvimento de algumas habilidades, como empatia, cooperação, resolução de conflitos e pertencimento a um grupo.

Quanto aos impactos emocionais, os pequenos que frequentam menos a escola tendem a ser mais inseguros, a sentir exclusão e até mesmo a ter dificuldade em lidar com frustrações. A criança pode se sentir desconectada dos colegas e menos confiante em interações sociais.

No dia a dia, ter uma rotina escolar é uma forma de estruturar o dia da criança. Com isso, ela aprende mais sobre previsibilidade, limites e organização, sendo um treino diário de autocontrole e disciplina. “Sem essa regularidade, é possível observar uma maior dificuldade em seguir regras, impulsividade, resistência a horários e responsabilidades e uma menor tolerância à frustração”, explica a docente.

“A socialização é uma habilidade que se desenvolve com prática contínua. Ao faltar com frequência, a criança perde momentos de interação espontânea, fica fora do ritmo dos grupos e amizades e pode ter dificuldade em entender as dinâmicas sociais do grupo”, diz Sandra.

Quando as faltas persistem, as crianças podem ter consequências mais generalizadas, como baixa autoestima; dificuldades persistentes de socialização; prejuízo na autonomia e responsabilidade; maior risco de desmotivação escolar; sensação de não pertencimento em grupos.

“Pensando no desenvolvimento como um todo, essa situação pode afetar tanto a vida acadêmica quanto as relações pessoais no futuro. Pois é na primeira infância que aprendemos e internalizamos a visão de si, a visão do mundo e a visão dos outros”, finaliza Sandra Vieira.

*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de Ana Laura Carvalho, repórter do núcleo de Atualidades