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Voltar ao antigo emprego pode ser estratégia de carreira, dizem especialistas

Movimento de ex-funcionários que pedem readmissão cresce e empresas avaliam histórico, desempenho e novas competências

Fabyo Cruz
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A decisão de voltar a trabalhar em uma empresa onde já atuou, algo que no passado poderia ser visto com desconfiança, tem se tornado cada vez mais comum no mercado de trabalho. Segundo especialistas em gestão de pessoas, o retorno de ex-funcionários — conhecidos no meio corporativo como boomerang employees — pode representar uma oportunidade tanto para o profissional quanto para a organização.

De acordo com Vanessa Mendes, vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos no Pará (ABRH-PA), muitos profissionais procuram retornar à antiga empresa após perceberem que a mudança de trabalho não trouxe o crescimento esperado.

“Isso acontece quando o profissional percebe que a nova experiência não correspondeu às expectativas em termos de cultura organizacional, escopo do trabalho, qualidade de vida ou alinhamento de valores”, explica.

Ela diz que também é comum que o pedido de retorno ocorra quando o trabalhador sai em busca de um desafio específico, cumpre esse ciclo e, com mais maturidade, passa a enxergar a antiga empresa de forma diferente.

Vanessa afirma que, atualmente, esse tipo de movimento não costuma ser visto com preconceito pelos setores de recursos humanos.

“Cada vez mais as empresas entendem que as carreiras não são lineares. A avaliação de um pedido de retorno costuma ser cuidadosa e contextual, considerando o histórico do profissional e o momento atual da organização”, diz.

O que pesa na decisão de recontratar

A forma como ocorreu a saída do profissional é um dos principais fatores considerados pelas empresas ao analisar um pedido de readmissão. Segundo Vanessa Mendes, desligamentos conduzidos de maneira respeitosa, transparente e profissional aumentam as chances de retorno. O desempenho passado também tem grande peso na decisão: “Resultados consistentes, boa reputação interna e relacionamentos saudáveis contam bastante”.

Além disso, o RH avalia se o profissional retorna trazendo novas experiências ou competências adquiridas durante o período fora da empresa. Vivência em outros contextos, desenvolvimento técnico ou novas habilidades comportamentais podem tornar o retorno mais atrativo para a organização.

“Muitas empresas enxergam vantagem em readmitir alguém que já conhece a cultura interna, mas que também traz novas práticas e aprendizados externos”, explica. “É o que chamamos de talento que vai e volta melhor”, diz a profissional.

Outro ponto essencial é a existência de uma vaga compatível e de uma necessidade real da empresa. “A readmissão não é um movimento de nostalgia, mas uma decisão estratégica”, destaca.

Como pedir para voltar

Para quem deseja retornar ao antigo emprego, a forma de abordagem também pode influenciar na avaliação da empresa. A recomendação, segundo Vanessa Mendes, é que o profissional procure primeiro o ex-gestor ou alguém do setor de recursos humanos com quem tenha construído uma relação de confiança.

“A abordagem deve ser direta, respeitosa e honesta. O profissional precisa explicar com clareza os motivos do interesse em retornar e mostrar o que aprendeu durante o período fora da empresa”, orienta.

Ela destaca que é importante evitar discursos defensivos ou justificativas excessivas. O foco deve estar no aprendizado adquirido fora e na contribuição que a pessoa acredita poder oferecer agora. Mostrar clareza de propósito e autoconhecimento, segundo a especialista, costuma fazer diferença na avaliação dos gestores.

Histórico e comportamento contam

O histórico deixado na empresa funciona como uma espécie de “cartão de visitas” interno e costuma ter grande peso na decisão de recontratação. Entre os aspectos analisados estão os resultados entregues anteriormente, postura profissional, ética, capacidade de trabalhar em equipe e abertura a feedbacks.

Também são avaliadas a forma como o trabalhador lidava com pressão, desafios e mudanças no ambiente de trabalho. “Não buscamos históricos perfeitos, mas coerentes. Pessoas que erraram, aprenderam e evoluíram podem ser vistas de forma positiva, especialmente se demonstram crescimento real desde então”, afirma Vanessa Mendes.

Erros que devem ser evitados

Especialistas alertam que alguns comportamentos podem prejudicar a tentativa de retorno ao antigo emprego. Um dos principais erros é ignorar conflitos ou dificuldades que tenham ocorrido no passado.

Quando a saída da empresa não foi tranquila, o ideal é reconhecer a situação com maturidade, sem transferir responsabilidades ou reabrir conflitos. Outro erro comum é desvalorizar experiências recentes ou comparar empresas para justificar o desejo de voltar.

“Isso pode passar uma imagem de impulsividade ou frustração”, explica Vanessa. Pressionar a organização ou criar expectativas irreais também não é recomendado, já que o retorno precisa fazer sentido para ambos os lados.

Reflexão antes de tomar a decisão

Antes de procurar a antiga empresa, especialistas recomendam que o profissional faça uma reflexão cuidadosa sobre os motivos da decisão. Segundo Vanessa Mendes, é importante avaliar se o desejo de voltar faz parte de um projeto consistente de carreira ou se é apenas uma reação emocional a uma experiência profissional frustrante.

“O profissional precisa analisar se os fatores que motivaram a saída realmente mudaram — seja na empresa ou nele próprio — e se o retorno permitirá crescimento, aprendizado e bem-estar no médio e longo prazo”, afirma.

Para ela, voltar ao antigo emprego pode ser uma decisão positiva quando ocorre de forma consciente e alinhada aos objetivos profissionais. “Pode ser um recomeço produtivo, desde que não seja um movimento de fuga, mas uma escolha estratégica”, conclui.

Experiência mostra importância de manter boas relações

A gerente de RH Adriana Lobato relatou uma experiência pessoal que ilustra esse tipo de movimento no mercado de trabalho. Atualmente ela não trabalha mais na empresa onde iniciou a carreira, mas contou que chegou a retornar ao seu primeiro emprego alguns anos após pedir desligamento.

Segundo Adriana, ela começou a trabalhar na empresa logo após se formar e permaneceu no cargo por cerca de dois anos. Na época, decidiu sair para cursar uma pós-graduação em outra cidade. “Foi o meu primeiro emprego, logo que eu me formei. Fiquei lá dois anos e adorava trabalhar na empresa. Mas, para fazer uma pós-graduação, precisei me mudar e pedir desligamento”, contou.

Ela explica que a saída ocorreu de forma tranquila e que manteve uma boa relação com a equipe e com os gestores. Após se mudar para o Rio de Janeiro e iniciar um novo trabalho em outra empresa, percebeu que a experiência não correspondia ao que imaginava. “Era uma grande empresa, mas eu não fiquei satisfeita, não era o que eu imaginava”, relatou.

Nesse período, a antiga empresa — localizada em Belém — iniciou um processo de expansão e entrou em contato para saber se ela teria interesse em retornar. “Eles perguntaram se eu queria voltar e eu aceitei na mesma hora. Foi superlegal. Fiquei lá mais quase três anos”, disse.

Hoje atuando como gerente de recursos humanos em outra empresa, Adriana afirma que manter uma boa reputação profissional pode ser determinante para quem deseja retornar a um emprego anterior.

“Acho que o principal é construir uma boa história por onde você passar. Atuar sempre com transparência e ética, porque isso é o que mais importa”, afirmou.

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