Belém tem 2ª maior valorização imobiliária do Brasil e luxo afasta moradia popular

Alta nos preços e foco no alto padrão reduzem oferta para as classes média e baixa na capital paraense

Gabriel da Mota
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Belém registrou a segunda maior valorização imobiliária do Brasil no acumulado de 12 meses (13,43%), ficando atrás apenas de Fortaleza (13,46%), de acordo com o Índice FipeZAP. No entanto, esse crescimento é marcado por um desequilíbrio no mercado local: os lançamentos de luxo saltaram de 12,50% em 2023 para 42,90% no quarto trimestre de 2025, segundo o Censo Imobiliário da Brain Inteligência Estratégica. A concentração no alto padrão ocorre pela falta de unidades em faixas inferiores, o que eleva o preço dos aluguéis na oferta existente e empurra a população para a periferia da capital paraense.

Mercado foca no alto padrão por custo elevado de terrenos

A concentração em empreendimentos de luxo é explicada pelo setor produtivo como uma questão de sobrevivência financeira diante do alto custo de terrenos em áreas centrais. Segundo Bruno Mileo, diretor de edificações do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Pará (Sinduscon-PA), o custo dos terrenos, somado às despesas de obra e impostos, inviabiliza projetos que não sejam de médio ou alto padrão.

"Quando o empresário considera o custo do terreno, da obra, da comercialização e dos impostos, a conta não fecha com o preço de venda para um produto que não seja de médio/alto padrão nas áreas mais centrais de Belém", explicou o diretor.

O Índice de Velocidade de Vendas (IVV) médio na capital fechou o último trimestre de 2025 em 17,90% para o segmento residencial vertical. Nos bairros de Nazaré, Umarizal e Batista Campos, o preço médio do metro quadrado atingiu R$ 11.861, registrando uma alta de 13,20% em comparação ao ano anterior.

Especialista alerta para gentrificação e falta de infraestrutura

Para o professor Dr. José Júlio Lima, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará (UFPA), o atual cenário revela um processo de gentrificação acelerada. Ele destaca que empreendimentos de alto luxo estão substituindo o casario histórico em bairros como Umarizal e Nazaré devido ao interesse de capitalização das incorporadoras. "Acredito que as novas 'ofertas de luxo' são um processo de gentrificação acelerada. Ao se concentrarem em bairros como Umarizal e Nazaré, os empreendimentos de alto luxo estão substituindo um casario histórico que, devido à falta de manutenção de herdeiros e interesses de capitalização dos proprietários, são negociados pelas incorporadoras", afirmou o especialista.

O urbanista pontua que a população que não consegue pagar os preços do mercado formal é empurrada para municípios da região metropolitana, gerando uma dependência do sistema de transporte para o movimento pendular de empregos. Lima também critica a falta de aplicação de instrumentos constitucionais, como o Solo Criado.

"Em Belém os instrumentos constitucionais de recuperação de mais-valia previstos pela Constituição Federal e da Lei do Estatuto da Cidade, denominados de Solo Criado, Coeficientes básicos de aproveitamento e Zonas Especiais de Interesse Social não foram implementadas como deveriam", observou José Júlio Lima.

Impacto ambiental e impermeabilização do solo preocupam

Outro ponto de alerta levantado pelo professor da UFPA é a impermeabilização do solo causada pela verticalização, o que agrava os alagamentos na capital. De acordo com o especialista, os condomínios tendem a pavimentar todo o lote, reduzindo a infiltração de água em áreas com resquícios vegetais importantes. "Estas questões precisam ser tratadas com seriedade para que tanto a ação privada como pública sejam responsáveis pela supressão vegetal na Primeira Légua e na Zona de Expansão Urbana na direção de Icoaraci", ressaltou o professor.

A Redação Integrada de O Liberal procurou a prefeitura de Belém para questionar a concentração de lançamentos de luxo e medidas para democratizar o acesso à habitação, mas não houve retorno até o fechamento desta edição. Também entramos em contato com o Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci Pará), que igualmente não respondeu aos pedidos de informação.

Dados do mercado imobiliário em Belém

  • Valorização em 12 meses (índice FipeZAP): 13,43% (2ª maior do Brasil)
  • Salto nos lançamentos de luxo (2023-2025): de 12,5% para 42,9%
  • Preço médio do m² em bairros nobres: R$ 11.861
  • Variação anual de preço no centro: 13,2%
  • Índice de Velocidade de Vendas (IVV) geral: 17,9%
  • Oferta final de imóveis (dez/25): 2.039 unidades

Fontes: Índice FipeZAP e Censo Imobiliário (Brain Inteligência Estratégica, em parceria com o Sinduscon-PA e a Ademi-PA)

 

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