Itália Mia traz exposição sobre as obras de Landi em Belém

O festival de cultura italiana destaca o trabalho do gênio da arquitetura histórica local em fotografias de profissionais de O Liberal.

Enize Vidigal
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As pérolas arquitetônicas deixadas por Antonio José Landi em Belém terão um recorte especial durante o Itália Mia, festival de cultura italiana que vai reunir também experiências da gastronomia, dança e cinema, nas próximas terça, quarta e quinta-feiras, 22, 23 e 24, na Estação das Docas. A programação será gratuita. O evento é promovido pelo Grupo Liberal.

O arquiteto bolonhês Antonio Landi chegou a Belém no Séc XVIII, com cerca de 37 anos, e transformou a paisagem urbana da modesta cidade com a introdução do estilo neoclássico em importantes prédios históricos, como as igrejas do Carmo, de São João Batista e Santana, além do frontão da Catedral Metropolitana e do Palácio dos Governadores também conhecido como Palácio Lauro Sodré, que hoje abriga o Museu do Estado do Pará (MEP), e as ruínas do Murucutu, onde ele residiu, entre outros.

As fotografias de aspectos externos e internos de alguns desses patrimônios históricos fazem parte da exposição “Arquitetura de Landi: O homem sem rosto”, que tem a curadoria de Vânia Leal e texto da arquiteta, pesquisadora e historiadora Jussara Derenji. O título se refere à ausência de qualquer imagem desse emblemático arquiteto.

 “Selecionamos 20 imagens. Muitos prédios arquitetônicos são atribuídos ao Landi, mas algumas vezes não são dele. O critério maior da seleção foi o aspecto histórico, resultante de pesquisa, para levar para a exposição o que se tem certeza que é do Landi”, explica Vânia. As fotos assinadas pelos profissionais de O Liberal, Everaldo Nascimento, Felipe Bispo e Flávio Contente, “dão conta da dimensão projectual do Landi”, destaca a curadora. “Ele marcou uma grafia desses desenhos que estão na arquitetura histórica do Pará”. A mostra por ser observada no espaço do Itália Mia.

image Parte da fachada da Igreja do Carmo é outra imagem da exposição. (Felipe Bispo/ O Liberal)

Pesquisas

Jussara Derenji, que é mestre em História, professora aposentada, diretora do Museu da Universidade Federal do Pará (UFPA) e estudiosa das obras arquitetos italianos, conta que pouco se sabe sobre a vida pessoal de Landi. Ele chegou a Belém como desenhista de uma comissão demarcadora de limites territoriais. Era formado pela Academia Bolonhesa de Arquitetura e não demorou para se destacar como arquiteto na cidade. “Ele teve como mestre um dos maiores, se não o maior, cenógrafo italiano do período, Ferdinando Bibbiena. O Landi tinha a noção cenográfica do centro urbano e a formação acadêmica (que era incomum em Belém, na época)”, conta.

Até a chegada de Landi a Belém, não se tinha nada semelhante à arquitetura neoclássica no Brasil, afirma a estudiosa. “Ele construiu igrejas em meio urbano e deu essa conformação monumental à cidade de Belém, que era rara ou inexistente na região, nem mesmo no Rio de Janeiro, pois a corte portuguesa só veio para cá em 1808. Poucas cidades têm no centro histórico tantos monumentos desse período como Belém”.

“Tem muita obra que foi atribuída a ele, mas que não é ou é parcialmente dele. A Catedral, por exemplo, não é do Landi. Supõe-se que ele fez frontão. O Palácio dos Governadores é dele com certeza, mas não tem mais a conformação original, foi muito modificado no início do Séc. XX. É a obra-prima (desse arquiteto) considerada pelos estudiosos”, informa.

“As igrejas de São João Batista e de Santana são as mais íntegras, que têm a autoria comprovada em assinatura em projetos. Têm lugares que ele deixou altares e púlpitos, como o altar em madeira da Catedral, que desapareceu. Ele era devoto de Santana, a construção (da igreja correspondente) foi financiada por ele e há a possibilidade dele ter sido enterrado lá”, destaca Derenji. Sobre a Igreja de São João, ela acrescenta que se destaca pelo formato hexagonal da construção e pelas pinturas internas que foram preservadas.

Pouco se sabe da vida pessoal de Landi, que viveu em Belém por muitos anos, inclusive, residiu no sítio do Murucutu, onde mantinha olaria, alambique e escravos e cujas ruínas existem até hoje. Ele teria se casado três vezes, em Belém, e tido uma filha. Faleceu na cidade de Barcelos, no Amazonas. “Não há registros específicos dessas questões. Sabe-se das obras que são dele porque deixou desenhos (projetos) assinados, que foram guardados por Alexandre Rodrigues Ferreira”, relata a professora.

Outros italianos

“Toda a cidade de Belém por muito tempo foi marcada pela arquitetura italiana”, destaca Jussara Derenji ao destacar outros profissionais italianos que deixaram legado na capital paraense. “Outros italianos vieram no mesmo período que o Landi (para a Amazônia) e fizeram obras mais no sentido de urbanização”, conta Jussara Derenji.

Entre os arquitetos de outras joias raras do patrimônio histórico de Belém estão italianos menos lembrados, como Gino Coppede, que fez o projeto original da Basílica de Nazaré - aliás, projeto esse que não possuía as torres, que foram construídas depois, conforme ela detalha –; e Filinto Santoro, autor dos projetos do Mercado de São Brás; da antiga sede do jornal A Província do Pará e atual Instituto de Educação do Pará (IEP); do imóvel do Museu da UFPA; e de residências, como a do político Virgílio Sampaio, situado ao lado desse museu.

“Houve uma grande influência no final do Séc. XIX e começo do XX de arquitetos italianos de novo em Belém. Um grupo veio em 1870 e ficou até 1900. Eles eram da Academia de São Lucas, em Roma”, narra. Naquela época, a Igreja Católica investia na decoração de igrejas para ampliar a catequese. Entre eles, estava Domenico De Ângelis, que fez a decoração do Theatro da Paz, entre outros projetos. Na volta para casa, na Itália, De Ângelis morreu de febre amarela e os demais não voltaram. “Não tinha vacina e muitos tiveram febre amarela e malária”.

“De Angelis era associado de (Giovanni) Capranese, que veio trazendo alunos e profissionais com especialidades diversas. Essa forma decorativa do movimento eclético se firmou na região com muitas decorações de fachada e pinturas de interior”, acrescenta.

Agende-se:

Itália Mia

Dias: De terça à quinta-feira, 22 a 24

Hora: A partir das 11h da manhã

Local: Estação das Docas

Cultura
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