Exposição em Marabá propõe subverter o conceito de 'confins' na América do Sul
“Nos Confins da América do Sul” desafia o público a desacelerar os passos e enxergar a densidade intelectual e cultural que pulsa no interior do continente
A distância em relação às grandes capitais costuma carimbar certos territórios com o rótulo simplista de margem ou periferia. A partir desta quarta-feira (9), porém, uma nova cartografia poética e visual propõe inverter radicalmente essa perspectiva. Com abertura às 19 horas, na Galeria de Arte Vitória Barros, em Marabá, sudeste do Estado, a exposição “Nos Confins da América do Sul” desafia o público a desacelerar os passos e enxergar a densidade intelectual e cultural que pulsa no interior do continente.
Idealizada pela artista e professora Silvia Helena Cardoso, da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), a mostra é o desdobramento do projeto de pesquisa e extensão “Caminhografias Urbanas nos Confins da América do Sul”, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS). A iniciativa nasceu do incômodo com a centralização histórica da produção acadêmica nos grandes centros urbanos e buscou, no chão das cidades, escutar saberes e modos de vida invisibilizados.
Em vez da observação distante, o método que estrutura as obras coloca o próprio corpo do pesquisador em movimento. Ao caminhar, escutar e registrar rastros, a pesquisa costura três paisagens distantes, mas irmanadas pelo elemento hídrico: o encontro dos rios Tocantins e Itacaiúnas, na paraense Marabá; a Laguna dos Patos e o Canal São Gonçalo, na gaúcha Pelotas; e a imensidão do Oceano Atlântico em Comodoro Rivadavia, na Patagônia argentina.
A essência dessa travessia encontra síntese no próprio conceito da mostra, que propõe habitar os confins, como forma de reconhecimento da linha d'água, e do sopro do vento, como matriz poética de um território em contínua reescrita. Ao integrar a fotografia sensível de Silvia Cardoso, as reflexões teóricas do professor Eduardo Rocha (UFPel) e as cartografias sociais do professor Juan Manuel Diez Tetamanti (Universidad Nacional de la Patagonia San Juan Bosco), a exposição desloca o significado da palavra "confim". As cidades abordadas deixam de ser vistas como receptoras passivas de processos externos para se revelarem como núcleos vivos de criação e resistência.
A transição do trabalho de campo para o espaço expositivo transforma a produção acadêmica no que Eduardo Rocha classifica como uma “travessia sensível”. Através dessa convergência de linguagens, o visitante é provocado a perceber que as bordas do continente funcionam, na verdade, como centros pulsantes de biodiversidade, memória e afeto.
Além da experiência presencial na galeria — aberta para visitação gratuita até o dia 6 de novembro de 2026 —, o projeto disponibilizou uma publicação digital gratuita. O livro reúne o acervo fotográfico, os ensaios e as biocartografias, expandindo o alcance do diálogo para além das fronteiras físicas. Para acessar o conteúdo, basta clicar aqui.
Ao acolher e impulsionar uma produção que nasce na Amazônia e se conecta com o extremo sul do continente, a Unifesspa reafirma o compromisso de produzir conhecimento ancorado na realidade territorial. A mostra convida o espectador a fazer diante dos quadros o mesmo movimento feito pelos pesquisadores nas ruas: diminuir o ritmo, apurar o olhar e reconhecer que as margens também são o centro do mundo.
Serviço
Exposição "Nos Confins da América do Sul"
Curadoria e fotografias: Silvia Helena Cardoso
Textos: Eduardo Rocha
Cartografias: Juan Tetamanti
Abertura: 9 de setembro de 2026, às 19h
Período de visitação: até 6 de novembro de 2026
Local: Galeria de Arte Vitória Barros - Avenida Itacaiúnas, 1519, Novo Horizonte, Marabá (PA)
Realização: Grupo de Pesquisa Imagem e Som na Amazônia (ISAM), Faculdade de Artes Visuais, Unifesspa, projeto Confins da América do Sul e instituições vinculadas à Universidade Federal de Pelotas, incluindo o PROGRAU.
Apoio: Instituto de Arte Vitória Barros e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
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