Samba em feiras de Belém une música e economia em prol da cultura local
A roda de samba Fé no Batuque celebra sucesso do movimento ao lado de ambulantes que impulsiona cultural de rua e economia informal
A canção “O Samba da Minha Terra”, de Dorival Caymmi, sempre foi taxativa quanto ao movimento do gênero no Brasil: “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é!”. A máxima se reflete na movimentação atual pelas ruas de Belém. Os sambistas belenenses estão ocupando as vias da capital paraense e lotando os eventos gratuitos.
O grupo Fé no Batuque é um dos precursores quando o assunto é roda de samba. “Ele já existe há 11 anos, e eu sempre digo que o Fé no Batuque é um grande coletivo de vários artistas e músicos. Eles estão sempre com a gente, fortalecendo e levantando a bandeira do samba”, explica Geraldo Nogueira, músico, produtor cultural e organizador desses eventos. Ao lado dele está Leandro Lima, cavaco e voz principal, e Neto Melodia, violão e voz principal, fazendo parte do Fé no Batuque.
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Com músicos fixos, mas abrindo oportunidade para os artistas que aparecem para curtir as apresentações, a roda de samba Fé no Batuque tem ditado um novo movimento artístico e cultural na capital paraense. “Sempre ficamos com o microfone aberto e o espaço disponível para receber novas pessoas, para a gente confraternizar. É um momento de celebração nosso, do músico e do samba”, disse.
Atualmente, ocorrem dois eventos fixos que têm levado multidões às ruas dos grandes mercados de Belém. Toda primeira sexta-feira do mês acontece o Samba Batuque Feira do Açaí e o Batuque do Mercado, projeto itinerante que reúne vários músicos. Este último começou no Mercado do Jurunas, mas o sucesso foi tanto já na terceira edição que o espaço ficou pequeno para a demanda.
“A população é carente desses movimentos de rua. A gente criou isso há cinco anos, com o Samba Batuque Feira do Açaí, com esse objetivo mesmo: democratizar a cultura e fazer com que ela chegue de forma gratuita ao povo. Dessa forma também chega o nosso recém-nascido, que é o Batuque do Mercado, um movimento também de rua que vem com muita força, trazendo a arte pro povo na rua”, explica o músico.
“A gente tem o povo. Quando a gente fala que o evento na Feira do Açaí é uma explosão, a gente se sente premiado pelo povo e pelo apoio que temos da população para fazer esses movimentos de rua”, acrescenta.
Como os eventos são gratuitos, criou-se um ecossistema de pessoas trabalhando em prol da cultura do samba, unindo músicos e os trabalhadores do mercado informal, que estão juntos desde as primeiras edições.
“A gente tem o apoio dos ambulantes, eles nos fortalecem. O palco foi uma doação. Não temos como deixar de falar e agradecer essas pessoas. A gente vem buscando, através dos órgãos públicos e políticos, uma forma de conseguir apoio, porque ainda não temos como deveríamos. Mas estamos sempre em busca, tentando conversar, para que a gente possa ter apoio e fortalecer cada vez mais esse tipo de movimento”, pontua Geraldo.
Como disse o artista, o Samba Batuque Feira do Açaí e o Batuque do Mercado são coletivos de músicos que reúnem também os ambulantes da capital. No primeiro evento, dois trabalhadores informais se uniram ao Fé no Batuque para realizar as festas e, com isso, dividir os custos e as demandas operacionais.
“Nós começamos com um convite do Fé no Batuque para participar, além de entrar com essa ajuda de custo, já que não tinha apoio de ninguém. Então me uni com a Selma Souza. Começamos com dois carrinhos na Feira do Açaí. No primeiro momento, eles cantavam só para a gente, depois teve mais divulgação, entraram mais parceiros e montamos um grupo organizado. A partir daí, passaram a contribuir para que o samba acontecesse. A gente organiza e faz acontecer também: eles trabalham cantando e a gente vendendo. Um ajuda o outro”, explica o ambulante Josiel Miranda.
Com o crescimento dos eventos, o público aumentou e a demanda dos profissionais também. “Nem a gente esperava tamanha proporção, mas hoje tudo se elevou a um nível grande, e com isso ajudou também muitas famílias, porque além do nosso grupo, tem outras pessoas que também vendem e cooperam. Juntamos tudo para pagar as despesas”, acrescenta o empreendedor.
Como Josiel contou, sua grande parceira nos sambas das feiras foi Selma Souza. Juntos, eles iniciaram a luta logística e financeira e, agora, agregam novos empreendedores.
“Na Feira do Açaí vamos fazer cinco anos. Foi um projeto que a gente iniciou bem pequeno, com quatro ambulantes. Passamos muitos perrengues. Mas durante os três primeiros anos batalhamos, às vezes não tínhamos retorno, mas persistimos. Este ano demos um boom, mas esse processo foi mais longo — diferente do Batuque do Mercado, que no terceiro sábado explodiu. Isso tudo, para a gente que é trabalhador, todo mundo ganha. É um evento bom, não tem uma briga. Só que, como ele tomou uma proporção grande, tivemos que sair do Mercado do Jurunas, que foi onde tudo começou. Inclusive movimentou aquele local, que estava ali abandonado, sem movimento, e os trabalhadores de lá sentiram muito por essa saída. Mas realmente lá ficou inviável fazer o evento, porque começou a fechar a via pública e não podemos prejudicar os outros”, explica a profissional.
Há mais de 22 anos trabalhando como ambulante, Selma fala sobre agregar sempre um número maior de profissionais ao movimento. Isso, além de atender à demanda, ainda garante o sustento de muitas famílias.
“Aqui ninguém paga para trabalhar, a gente paga para os eventos acontecerem, porque se a despesa da festa não for paga, o samba não vai acontecer. Uma senhora que estava em casa agora vem vender coxinha, a outra vende yakisoba, vem o menino do churrasquinho, quem tem os botecos aqui agora também vai vender — e assim vai, só cresce a economia. Todo mundo trabalha e fica feliz. E o resto da galera vem sambar”, finaliza Selma.
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