Participação infantil marca desfiles das escolas de samba em Belém
Com participação em alas mirins e na bateria, pequenos mostram que o carnaval também é espaço de formação cultural e familiar
Antes mesmo de aprender a ler, muitas crianças já sabem cantar o samba-enredo da escola do coração. Nos desfiles de Belém, que serão realizados nos dias 27 e 28 de fevereiro, a partir das 22h, na Aldeia Amazônica, elas mostram que o carnaval também é território de infância - e que é possível brincar e se divertir ao mesmo tempo, em que desfilam com passos ensaiados, seja nas alas infantis, ou misturados entre ritmistas e passistas.
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Campeã do carnaval de 2025, a Associação Carnavalesca Bole-Bole leva para a avenida, na próxima sexta-feira (27), também seu público infantil. A agremiação do bairro do Guamá conta com uma ala mirim formada por cerca de 50 integrantes de seis a treze anos, além de doze crianças na bateria e três passistas mirins.
Entre elas está Gabrielly Silva, de oito anos. A garotinha desfila em frente à bateria desde 2023 e estreia na Bole-Bole neste carnaval. “Eu me sinto mais feliz em participar. Gosto de estar ali na frente, dançando, mostrando o que eu ensaiei. Quando eu entro na avenida, eu só penso em sambar”, conta animada.
O incentivo veio de casa. “Quem me colocou pra ser passista foi minha mãe, Ruth, que é diretora das passistas. Ela sempre desfilou, minha avó levava ela quando era pequena”, disse Gabrielly, acrescentando que não se sente intimidada pelo grande público que acompanha o desfile.
“Não pode ter vergonha quando vai desfilar em alguma escola, porque a pessoa vai estar se apresentando, não vai estar se escondendo”, acrescenta a menina.
Ritmo que vem de casa
Na bateria, Laura Pimenta, de 8 anos, acompanha a mãe, a ritmista Silvia Pimenta, de 29 anos, tocando chocalho nos ensaios. O contato com o samba começou ainda bebê. “Ela praticamente começou no ritmo desde a minha barriga. Eu tocava e ela já estava ali, sentindo tudo. Desfilei quando ela tinha três meses e depois passei a trazer ela para os ensaios. Ela cresceu nesse meio, vendo, ouvindo e participando”, relata Silvia.
Laura resume o sentimento ao falar da experiência: “Eu gosto de ver as fantasias, eu gosto dos chocalhos, da bateria todinha. Eu gosto de vir para o ensaio e aprender a tocar. Eu sinto tanto orgulho de ver tudo isso aqui e de fazer parte também”.
Para a mãe, o desfile representa continuidade. “Para mim, é um orgulho continuar o legado aqui dentro e ver ela nessa evolução. A escola é um celeiro de talentos. Muitas crianças começam com três, quatro anos, seja na ala mirim, como passistas ou na bateria. A gente vê elas crescendo aqui dentro”, disse.
Em casa, Laura surpreendeu ao decorar rapidamente o samba-enredo deste ano. “Até as palavras mais complicadas ela aprendeu muito rápido. Eu ainda estava tentando decorar e ela já sabia quase tudo”, conta a mãe.
Além do samba
A participação infantil também é incentivada pelo projeto Bole-Bole do Futuro, que promove atividades ao longo do ano. O diretor de bateria, Fabrício Meireles, conhecido como Mestre Mini, começou ainda criança na escola.
Hoje, ele coordena a formação das novas gerações. “A gente trabalha com uma escolinha todos os anos. Esse é um legado que vem dos nossos antigos mentores. A criança que está inserida na bateria toca de verdade. Não é só para representar. Elas ficam no meio dos outros ritmistas e muitas vezes desenvolvem o arranjo com mais rapidez do que adultos”, comenta.
Segundo ele, a escola busca formar não apenas músicos. “Aqui, a gente cobra que sejam bons ritmistas, mas também bons cidadãos. A gente quer que estejam bem na escola, que tenham disciplina. Enquanto ainda não alcançam os sonhos que têm, de ser médico, motorista, piloto, eles estão aqui, ocupando a mente com cultura”, disse orgulhoso.
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