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Interesse pela música clássica cresce entre jovens de Belém

Estudantes de violoncelo acompanham movimento que coloca o Brasil em destaque

Amanda Martins

O interesse de jovens brasileiros pela música clássica tem crescido nos últimos anos, com o país ocupando o segundo lugar em engajamento desse público, segundo o relatório Classical Pulse 2026: Perspectivas sobre o Consumo da Música Clássica”, da série de concertos Candlelight. O estudo aponta ainda que cerca de 75% dos entrevistados no Brasil mantêm algum tipo de conexão com o gênero, seja como músicos amadores, estudantes, educadores, profissionais ou por conhecer alguém que pratique.

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Em Belém, esse movimento pode ser visto na história de estudantes que seguem na formação musical. É o caso de Marina Macieira, de 17 anos, que cursa licenciatura em música na Universidade do Estado do Pará (UEPA) e técnico em violoncelo no Instituto Estadual Carlos Gomes (IECG), e relata que a afinidade musical surgiu ainda na infância.

“Sempre tive um interesse muito grande por música, desde muito pequena. Desde uns dois, três anos eu já dizia que queria ser cantora e pedia para os meus pais me colocarem em aula de música”, conta. 

Segundo Marina, o primeiro contato com o universo erudito ocorreu aos sete anos, quando ingressou em aulas de musicalização no instituto. Ela conta que não conhecia a música clássica até então, mas o ambiente de estudo despertou esse interesse. “Quando entrei aqui e vi a orquestra, conheci o violoncelo e me apaixonei de cara”, afirma.  

Aprofundamento

Com o avanço dos estudos, o interesse pelo repertório se intensificou. Marina relata que passou a frequentar concertos e a ouvir música erudita com mais frequência. “Hoje em dia eu escuto muita música erudita, mas antes de entrar aqui eu não tinha noção desse mundo”, diz.

Mesmo tendo ingressado na faculdade apenas este ano, a estudante já tem um objetivo profissional definido, voltado à educação musical. “Tenho muita vontade de tentar mudar a realidade de outras pessoas por meio da música, trabalhando em projetos, em escolas. Meu sonho mesmo é ser professora de música”, declara.

Marina também avalia que o crescimento do interesse pela música clássica entre jovens está relacionado à atuação de projetos sociais e ao acesso ampliado à informação. Para ela, essas iniciativas ajudam a apresentar esse universo a pessoas que, muitas vezes, não teriam contato com esse repertório. “A música erudita é culturalmente muito elitizada, mas isso vem mudando. Os projetos sociais mostram essa realidade para muitas crianças e adolescentes que não teriam acesso”, afirma.

Além do repertório clássico, Marina também participa de formações coletivas dentro do insituto que exploram outros gêneros. Ela integra um grupo de violoncelos que interpreta desde música erudita até repertórios populares. “A gente toca carimbó, música de filme, música popular paraense. É muito interessante ver o violoncelo em outros contextos. Eu gosto muito dessa diversidade”, relata.

Caminho profissional

A relação com a música também começou cedo para o violoncelista Alípio Vilena, de 22, atualmente estudante de bacharelado em música no IECG e integrante da Orquestra Jovem Vale Música Belém. Ele conta, que, no início, o contato era voltado à música popular, antes de conhecer o universo erudito.

Segundo ele, a mudança aconteceu a partir da participação em um projeto social, onde iniciou os estudos musicais aos 11 anos. Já a escolha pelo violoncelo surgiu a partir de uma sugestão de professora. Inicialmente interessado pelo violino, ele acabou experimentando o novo instrumento e decidiu seguir na área. 

“Eu não queria muito pelo tamanho do instrumento, mas fiz um mês de experimentação e gostei. Estou até hoje, já são mais de 12 anos”, relata.

De acordo com o músico, a decisão de seguir carreira aconteceu ainda na adolescência, quando passou a enxergar a música como um caminho profissional. Ele afirma que o processo foi relativamente rápido. “Em dois, três anos, eu já tinha essa vontade de estar no palco, de estudar, de pesquisar. Eu vi que queria isso para a minha vida”, diz.

Dedicação intensa

A rotina atual envolve carga intensa de estudos, que pode chegar a até seis horas diárias, além de ensaios coletivos e apresentações. Alípio destaca que o desenvolvimento técnico exige constância. “A gente precisa criar uma memória muscular. No início eram uma ou duas horas por dia, mas hoje, com a graduação, chego a estudar entre quatro e seis horas diárias”, explica.

O músico também ressalta a importância da experiência em orquestra para sua formação. Para ele, foi nesse ambiente que consolidou o interesse pela música de concerto. “Foi na orquestra que eu me apaixonei de verdade pela música de concerto, pela música de orquestra. É isso que eu quero continuar fazendo”, afirma.

Novas perspectivas 

Para Alípio, o crescimento do interesse de jovens pela música clássica está ligado à ampliação de possibilidades dentro do campo musical. Ele avalia que o contato mais aprofundado com a área transforma a percepção inicial. 

“Quando a gente entra em um instituto, começa a estudar teoria, história, pesquisa, a gente vê que é um mundo muito maior. Isso acaba despertando ainda mais o interesse”, diz.

Ele também destaca a relação construída com o público durante as apresentações. De acordo com o violoncelista, o processo de preparação é intenso, mas o resultado final traz uma experiência particular no palco. 

“A gente passa por muitos ensaios e estudos, mas quando chega o momento da apresentação, a sensação é única. É isso que me faz continuar na música”, afirma emocionado.