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Com olhar afetivo de artistas paraenses, exposição em Salvador une sagrado, corpo e memória

Arthur Seabra e Bené Fonteles integram exposição premiada pela Funarte que encerra turnê nacional no Pelourinho com 100 imagens decoloniais

Bruna Dias Merabet

Os artistas paraenses Arthur Seabra e Bené Fonteles integram a exposição Ecologia dos Sentidos — Panorama da 3ª Geração da Fotografia da Bahia, em cartaz até outubro no Centro Cultural Solar Ferrão, no Pelourinho, em Salvador. Único projeto do Nordeste em sua categoria premiado com a Bolsa Funarte de Artes Visuais Marcantonio Vilaça, a mostra encerra na capital baiana uma longa circulação regional. Desde setembro de 2024, a iniciativa já percorreu Olinda, Natal, São Luís, João Pessoa e Aracaju, promovendo oficinas gratuitas, visitas guiadas e bate-papos com o público.

A exposição do Panorama reúne 100 imagens de 25 artistas que revelam em seus registros fortes influências decoloniais, de resistência contra as violências de gênero e de raça, em diálogo com as temáticas do Corpo, da Memória e do Sagrado. Sob a guiança de que “Todo Corpo é água, toda água é Memória, tudo que é memória é Sagrado”, a mostra é organizada, então, em três núcleos temáticos: Corpo, Memória e Sagrado.

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O paraense Arthur Seabra, que fotografa na Bahia desde 2018, integra o núcleo Sagrado com quatro obras. O segmento aborda a religiosidade sob um conceito amplo, que transcende a religião formal: trata-se das práticas de fé e das formas de manifestar as crenças, com especial atenção à ancestralidade afro-baiana. Longe de ser um recorte puramente factual sobre dogmas, a seção reúne fotógrafos inseridos nesse contexto que desenvolvem uma sólida produção visual voltada às religiões de matriz africana.

“Uma característica importante dessa exposição, vindo nesta terceira geração, é que nós estamos produzindo essas imagens de dentro para fora, inseridos nas religiões de matriz africana: uns têm uma relação de respeito e admiração e outros são iniciados. Isso é um ponto importante, porque damos um olhar afetivo, de significado, mostrando as belezas e riquezas, um olhar respeitoso por todo esse significado que essas práticas têm para a gente. Não é um olhar de fora, exótico, do estranho ou primitivo. Tudo isso tem muito significado, uma base cultural e ancestral muito importante, e que a gente tenta mostrar e exprimir através dessas imagens. Por isso é um sagrado, que é algo que é sagrado para a gente, para nós desse eixo”, explica Arthur Seabra.

O renomado artista e pensador Bené Fonteles integra o projeto do Panorama como crítico e apresentador da mostra. A iniciativa é fruto de uma profunda pesquisa realizada por Marcelo Reis, coordenador do Instituto Casa da Photographia, sobre a nova safra de fotógrafos baianos que emergiu a partir dos anos 2000, período que consolidou a chamada terceira geração da fotografia na Bahia.

Com uma sólida e premiada trajetória que transita entre as artes plásticas, a música e a poesia, Bené Fonteles, de Bragança, acumula discos e livros publicados, além de obras nos acervos de importantes museus de arte moderna, como os de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paris e Nova York. Sua obra é profundamente marcada pelo ativismo ecológico, sendo o criador do "Movimento Artista pela Natureza", iniciativa que, desde 1986, une arte e educação ambiental para despertar a consciência ecológica. Além disso, grande parte de sua produção estabelece um diálogo sensível com as estéticas e poéticas dos povos originários.