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Beth Carvalho completaria 80 anos com obra ainda entre as mais tocadas do país

Levantamento do Ecad e relatos de artistas mostram força de um legado que atravessa gerações

Amanda Martins

Em qualquer roda de samba, basta soar um pandeiro e alguém puxa um clássico — quase sempre, eternizado na voz de Beth Carvalho. A cena ajuda explicar por que, mesmo após a sua partida, a cantora segue tão presente. No dia em que completaria 80 anos, nesta terça-feira (5), a trajetória da artista carioca volta ao centro como uma das mais importantes da música brasileira.

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Um dos reflexos dessa permanência aparece nos números. Segundo levantamento divulgado pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), as músicas mais tocadas nos últimos cinco anos que contam com a participação da intérprete seguem em alta em diferentes segmentos de execução pública.

Entre as cinco primeiras posições estão: em 1º lugar, “Coisinha do pai” (Jorge Aragão, Luiz Carlos e Almir Guineto); seguida por “Andança” (Edmundo Souto, Danilo Caymmi e Paulinho Tajapós); “Vou festejar” (Jorge Aragão, Neoci e Dida); “Camarão que dorme a onda leva” (Arlindo Cruz, Beto Sem Braço e Zeca Pagodinho); e, em 5º lugar, “O show tem que continuar” (Arlindo Cruz, Sombrinha e Luiz Carlos da Vila). 

Ainda de acordo com a instituição, Beth Carvalho possui 11 obras musicais e 1.045 gravações cadastradas no banco de dados da gestão coletiva no Brasil.

Mas o legado da artista não se mede apenas em números ou clássicos eternizados. Ele ganha novos contornos nas vozes de mulheres que hoje ocupam o samba e reconhecem na artista uma referência.

Muito se sabe que a estrada de uma mulher na noite e no samba não é fácil, mas, motivadas pelo legado da artista, muitas outras sambistas vieram. Uma delas é a cantora paraense Rafaela Travassos, que há mais de uma década constrói seu nome na música.

“A Beth inspira não só pelo talento e sucessos dos sambas gravados por ela, mas também principalmente pela generosidade e simplicidade”, afirma a cantora.

Rafaela destaca que a influência vai além da interpretação e alcança também o papel de Beth como articuladora dentro do samba. Para ela, a cantora representou valorização, oportunidade e abertura de caminhos, e avalia que, sem essa contribuição, o gênero não teria o reconhecimento que possui hoje.

“Particularmente, o que me chama a atenção em uma canção primeiramente é a melodia, em seguida a letra, e uma das canções que amo da Beth é ‘Pedaço de ilusão’. A letra é muito forte. Quando canto, sinto ela, como se já tivesse vivido o que a letra diz”, relata.

Rafaela também ressalta a amplitude da trajetória de Beth Carvalho, destacando tanto a intérprete quanto a incentivadora de talentos. “Uma coisa complementa a outra e eu particularmente admiro absolutamente todos os aspectos citados: a grandiosa intérprete que nos inspira como artista, a descobridora de talentos que, pela sua influência, deu oportunidade para muitos se consolidarem no gênero”, diz.

A relação da artista com o público paraense também marcou sua trajetória. Uma das últimas passagens de Beth Carvalho por Belém ocorreu em maio de 2014, durante a turnê do Prêmio da Música Brasileira, realizada no Theatro da Paz. Na ocasião, nomes como Arlindo Cruz, Mariene de Castro, Zélia Duncan, Dudu Nobre e Altay Veloso também participaram, interpretando grandes sucessos do samba, tema homenageado pelo evento.

Trajetória

Beth Carvalho morreu no dia 30 de abril de 2019, aos 72 anos, após um período de internação no Rio de Janeiro. Ela ganhou projeção nacional a partir da década de 1970, não apenas como intérprete de grandes sucessos, mas como figura essencial na renovação do samba. Seu trabalho foi decisivo para revelar e impulsionar nomes como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e o próprio Arlindo Cruz.

Ainda na infância, Beth conviveu com nomes importantes da canção brasileira, como Sílvio Caldas e Aracy de Almeida, amigos de seu pai, João Francisco Leal de Carvalho. A música fazia parte do cotidiano familiar: a avó tocava instrumentos de corda, a mãe era pianista clássica e a irmã também se dedicava ao canto. Frequentando diferentes bairros do Rio de Janeiro, teve contato direto com rodas de samba e ensaios de escolas, o que ajudou a moldar sua identidade artística.

A projeção veio em 1968, ao conquistar o terceiro lugar no Festival Internacional da Canção com “Andança”. O sucesso abriu caminho para o lançamento de seu primeiro álbum, que marcou o início de uma trajetória ascendente.

Com mais de 30 discos gravados, premiações importantes - incluindo discos de ouro e platina - e apresentações em diversas cidades do Brasil e do exterior, Beth Carvalho levou o samba a palcos internacionais e participou de festivais de prestígio, como o de Montreux.

A partir de 2010, passou a enfrentar problemas de saúde, especialmente relacionados à coluna, que comprometeram sua mobilidade. Ainda assim, chegou a se apresentar deitada em shows, mantendo a atividade artística e a ligação com o público.