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Decano do STF reage a ofensiva de Romeu Zema contra a Corte

Rodolfo Marques

Os recentes ataques do ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à presidência da República, Romeu Zema (Novo), ao Supremo Tribunal Federal (STF) evidenciam um fenômeno cada vez mais recorrente na política contemporânea: o uso calculado da crítica institucional como instrumento de mobilização eleitoral.

À luz da Comunicação Política, esse movimento pode ser compreendido dentro de uma lógica de polarização estratégica, em que alguns atores políticos tensionam instituições para reforçar identidades políticas, ativar bases ideológicas e conquistar visibilidade em um ambiente midiático altamente competitivo. No caso específico de Zema, as críticas reiteradas e, em muitos momentos, marcadas por tom satírico ou ofensivo, dirigidas especialmente aos ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, não podem ser analisadas apenas como divergências institucionais legítimas. Ainda que o debate público seja saudável em uma democracia, o recurso à desqualificação pessoal e à caricatura institucional ultrapassa os limites da crítica republicana e se aproxima de uma estratégia de erosão simbólica da legitimidade da Corte. Esse tipo de postura fragiliza o equilíbrio entre os poderes e tensiona o próprio funcionamento do Estado democrático de direito.

A literatura recente aponta que líderes e pré-candidatos têm recorrido com frequência a esse tipo de retórica como forma de gerar engajamento digital. Em tempos de redes sociais, a controvérsia, a desinformação e o conflito tendem a produzir maior visibilidade e mobilização. Assim, ataques a instituições como o STF passam a cumprir uma dupla função: de um lado, posicionam o político como outsider ou crítico do sistema; de outro, criam um vínculo emocional com parcelas do eleitorado.

Nesse sentido, a movimentação de Zema também pode ser interpretada como uma tentativa de reposicionamento no campo da direita brasileira. Ao adotar um discurso mais agressivo contra o STF, ele sinaliza a intenção de disputar espaço com lideranças já consolidadas nesse espectro, como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Trata-se de uma estratégia de aproximação com eleitores que estão situados nesse espectro político-ideológico.

Por outro lado, a reação institucional também assume papel central nesse contexto. O decano da Corte, Gilmar Mendes, escolheu responder às críticas por meio de entrevistas à imprensa, sinalizando uma estratégia firme de defesa pública do STF. Em democracias consolidadas, as instituições, de modo geral, precisam se afirmar e se fortalecer no espaço público, não apenas pelo exercício de suas funções, mas também pela capacidade de dialogar com a sociedade e sustentar sua legitimidade diante de questionamentos.

Em última instância, o episódio revela um dilema central das democracias contemporâneas: como equilibrar a liberdade de expressão (valor essencial, mas não ilimitado) com a responsabilidade no uso da palavra pública por parte de lideranças políticas.

A crítica é legítima e necessária; o ataque sistemático e desqualificador, porém, corrói as bases institucionais que sustentam o próprio jogo democrático. Cabe à sociedade, à imprensa e às próprias instituições refletirem sobre os limites desse tipo de estratégia e seus impactos no longo prazo.